Marcos Tecora Teles

Marcos Tecora Teles

Saturday, August 22, 2015

Os Mudos da Praça da Sé



                  
Eles são muitos. Eles dormem pelos cantos e até no meio da Praça. Você os olha, mas não os vê. Provavelmente, você, surdo, nunca ouviu aquelas vozes.
É que você, surdo, passa com pressa, de cabeça baixa, teclando e falando ao seu telefone celular. Você, surdo, está sempre conectado com sua empresa, seu patrão. Você, surdo não ouve os mudos da Praça da Sé, porque está sempre consultando no seu “tablet” o saldo de sua conta bancária. Mas eles estão todos lá. Todos os dias e noites. Eles vivem lá.
Mas ontem foi diferente, ontem foi mágico!
Eles estavam lá, em frente ao palco. Muitos dividiam suas garrafas de cachaça, muitos outros dançavam e se drogavam e outros tantos observavam a multidão encher a praça.
Ontem foi o dia de celebrar 26 anos sem Raul Seixas e o evento estava pronto. Na última hora resolvemos improvisar um sarau poético. E nós olhamos e conseguimos ver os mudos da Praça da Sé.
Não, não queríamos ouvir os poetas afetados, não queríamos ouvir os acadêmicos, não, não queríamos ouvir os revolucionários. Nós queríamos ouvir os mudos da Praça da Sé.
Nós os convidamos. E eles aceitaram o convite. E nos fizeram chorar.
Os mudos da Praça da Sé, eles mesmos, maltrapilhos, viciados e humilhados foram chegando,esperaram tranquilamente o momento de subir ao palco.
A “muda” Magdalena brincou com seus irmãos de rua e se emocionou a ouvir sua voz nas caixas de retorno. Magdalena sorriu seu sorriso que deveria estar há anos escondido em um canto qualquer daquela Praça.
O “mudo” Luciano, com o rosto sujo perguntou a todos o que é o amor. Ele mesmo respondeu, com uma linda e melancólica voz, cantou uma triste canção.
Os mudos da Praça da Sé com o microfone nas mãos ouviam suas vozes ecoarem por todos os cantos do velho centro. Os surdos pararam para ouvir.
Os mudos iam passando pelo palco,muitos cantaram,contaram histórias e falavam de suas vidas.
O evento terminou, fomos todos embora, os técnicos,os seguranças, os artistas... os mudos voltaram a se calar.
Nós viemos embora, mas nossos ouvidos continuam lá, na Praça da Sé. Continuaremos por muito tempo, lembrando das vozes dos que não têm voz.
Continuaremos por muito tempo, lembrando dos sorrisos das Magdalenas, das músicas tristes dos Lucianos... e de um dia mágico.

Tuesday, June 09, 2015

Ferréz , A Periferia Não Precisa de Agência

Ai você acorda pela manhã e vê, que apesar dos olhos doendo eles não acreditam no que leem.
A gente fez um corre monstro esse tempo todo, muita gente construindo a cultura, ai o cara junta tudo, monta um discurso e tem a coragem de vomitar palavras como "Fomento", "valorização", "juventude", um puta discurso de mudança, sendo que nunca pegou numa malha pra produzir uma camisa na quebrada, nunca publicou um livro e distribuiu, jamais participou se um debate, não intercedeu, não promoveu mudança na vida de ninguém, nem sequer tem a humildade de reconhecer quem já está a muitos anos nessa luta. Desmembramento da cultura periférica em prol de alguns ratos aproveitadores. Mas quem tá na contenção tá ligado que periferia não precisa de agência. Triste ver a ação educativa apoiando isso, já teve dias melhores. É isso mesmo, quem tá dizendo sou eu. Ferréz

Wednesday, June 03, 2015

Trecho de Sombras no Jardim-Dona Isolda



 Imagem:Internet


Eu nasci em uma grande fazenda de café.Eram tempos de fartura.Minha família era grande e feliz.Papai, mamãe e mais três irmãos.
Cresci tomando banho no riacho que corria em nossa fazenda, dançando nas festas que eram frequentes lá em casa, andando em belos e dóceis cavalos.Que saudade...
Cresci, conheci o primeiro namorado e a infância ficou lá atrás.Me casei com o homem que amava...
Minha felicidade ficou completa quando veio meu filho.Um lindo menino sorridente e de olhos grandes.

Essa é a parte boa de minha vida, pena que já faz tanto tempo...
A felicidade é sempre muito curta, a gente sempre acredita que vai ser feliz pra sempre, ledo engano.A felicidade é breve.

Tudo mudou quando papai começou a ter constantes problemas financeiros.Foi em uma época em que choveu muito, perdemos a lavoura de café e as dívidas se acumularam.Sem pensar muito papai vendeu a fazenda e com o pouco que sobrou da venda comprou uma casa na cidade. Meu marido arrumou uma colocação como administrador em outra fazenda e nos mudamos.

Foi difícil me acostumar, sentia dor de tanta saudade. Meu marido ficava dias longe de casa, eu estava distante de meus pais e meus irmãos, tudo fazia sentir-me só. Incontáveis vezes sequei minhas lágrimas no cobertor de meu filho, ele não entendia porque eu chorava e sorria docemente pra mim. E isso me doía tanto...

Tenho a impressão que o tempo passou mais depressa pra mim do que para os outros.Fui acompanhando o desaparecimento de todos que amei.Foram morrendo um à um. Sobramos somente eu e meu filho. A felicidade é muito breve.

Os anos se passaram, meu filho cresceu tornou-se um homem e foi trabalhar fora.Como o pai passava dias sem dar notícias.Foi vender enciclopédias em cidades do interior. Até que um dia nunca mais voltou.Fiquei definitivamente só.

Voltei pra fazenda que pertencia a minha família, fui contratada para trabalhar na colheita do café.Passei anos ali novamente, claro que sem o conforto de quando era filha do dono da fazenda.

Eu já estava com os anos pesando nas costas, não aguentei mais o trabalho e me demitiram.Saí sem nada,sem dignidade,sem direitos.Sem nada.
Com a ajuda de uma conhecida cheguei em São Paulo, fui morar em Parelheiros. E era tão longe.

Uma pessoa me aconselhou a vender espetinhos nas ruas, era um trabalho simples, que não precisava fazer força.Para uma mulher idosa era a única coisa possível, eu poderia me sustentar assim.

Eu me sentia solitária e infeliz,até conhecer as pessoas que passavam por minha banquinha todos os dias. E eram pessoas de todas as idades, todos tinham um pouco de infelicidade também.
Eu trabalhava todos os dias. Eu trabalhava muito e ganhava muito pouco.
No inverno eu sofria demais, as pessoas estavam sempre mais apressadas, por isso não paravam para comer do meu churrasco, então eu tinha que ficar na rua até mais tarde.
Sofri muito, passei muito frio e nunca me esqueci do meu filho, eu o buscava na memória todos os momentos do dia e a noite sonhava com um menino lindo e sorridente.

Chegou o dia em que pensei que enfim iria morrer. Desmaiei ao lado da minha banquinha. Acordei no hospital.
Fiquei meses internada, não sabiam para onde me mandar.A amiga com quem eu morava foi embora pra Bahia e vendeu a casa.

Todo sofrimento um dia abranda. Conseguiram um lugar para mim em um asilo.
Aqui onde estou, fiz amigos, mas sou muito só.Tenho comigo apenas as lembranças, faço questão de guardar apenas as boas.Nossa fazenda, o riacho, os cavalos.

Não guardo mágoas, mas não entendo porque a pessoa que mais amei, a única pessoa por quem eu daria minha vida, desapareceu, me esqueceu, como se eu nunca tivesse existido;meu filho.

Hoje acordei ansiosa, talvez poderei ter um pouco de alegria, não quero me decepcionar, acreditar em vão.Mas acho que o encontrei, me disseram que ele trabalha no rádio.Vou ouvir e depois escrever uma carta.Não quero me decepcionar. Mas preciso acertar as contas com o passado, com minha vida.

Sunday, May 17, 2015

Enquanto Eu Estiver Por Aqui






Imagens: internet
Mesmo que a terra se parta em pedaços, como aquele bolo de aniversário que você nunca teve, eu estarei aqui, contigo.
Mesmo que os trovões te assombrem os ouvidos. Mesmo que os raios machuquem os teus pequenos olhos indefesos, eu estarei aqui.
Mesmo que o mundo balance, mesmo que a vida corra perigo, mesmo que a terra engula as flores, ainda assim, estarei aqui.
Mesmo que não exista mais o espaço, nem a terra, nem nossa casa, eu estarei aqui e te carregarei dentro do meu abraço.

Friday, March 20, 2015

Contos Quase Infantis - A Professora Sensual e o Amendoim nas Calças




Imagem:Internet


Contos Eróticos Infantis
A Professora Sensual e o Amendoim nas Calças

   Lá no final dos anos setenta, o Colégio Mário Rangel era como nossa casa. Depois que o tempo passou é que fomos perceber o quanto nossa escola foi importante. Talvez, por não termos naquele tempo acesso a todas as facilidades da vida super moderna destes novos tempos. Naquele tempo, na periferia, só havia os campinhos pra jogarmos futebol e a televisão que só transmitia três ou quatro canais. Por isso, nossas brincadeiras eram sempre na rua.
   Nós amávamos nossa escola, amávamos nossos colegas e professores. Tínhamos certeza que poderíamos viver para sempre no Colégio Mário Rangel.
   De tudo que havia na escola, o que mais gostávamos eram as festas de encerramento de ano. E também, a Professora Vânia... Era com ela que a gente sonhava, era com ela que todos os garotos planejavam se casar...
   A Professora Vânia era uma moça belíssima, loira, alta, de lindos e grandes olhos verdes. Nossa professora gostava de rock and roll, de vez em quando usava aquelas roupas de moda hippie, grandes batas coloridas, calças boca de sino, grandes colares, pulseiras e óculos escuros com aros grandes. Nossa imensa e incontida alegria era quando ela usava as roupas mais sensuais. Nossa gigantesca alegria era quando ela entrava na sala de aula, com aquelas blusas que não cabiam aquele par de seios. Nossa esfuziante alegria era quando ela vestia aquelas saias que, segundo as leis da física, não cabiam aquelas ancas. Nas aulas da Professora Vânia, a gente rezava para que as horas não passassem.
   A Professora Vânia adorava amendoim.
   Todos os dias ela passava na banca de doces e comprava um saquinho de amendoim. Depois que ela passava a matéria na lousa, ela sentava-se em sua mesa e ia apertando os bagos e soltando os caroços do amendoim. Esfregava os caroços, retirava a casquinha e quase nos matava , quando delicadamente, colocava cada caroço na boca, com o cuidado de não retirar o batom que marcava seus lábios carnudos.
   Nos dias em que ela usava suas roupas sensuais, acontecia uma verdadeira romaria dos meninos da sala, mal a professora passava a lição e logo que se sentava os meninos, um a um, seguidas vezes, iam lhe pedir explicações mais detalhadas. Todos fingiam não compreender, somente para ficar olhando dentro de seu decote. Acho que a Professora Vânia também gostava daquele pequeno jogo de sedução.
   De todos nós, quem se apaixonou perdida e platonicamente pela Professora Vânia foi Miltinho. Era somente ela quem habitava seus dias. Houve um tempo em que ele andava mesmo esquisito. Tudo o que encontrava pela frente, ele dizia lhe fazer lembrar de nossa sedutora professora.
   Os problemas começaram quando ele começou a descobrir as coisas das quais ela gostava. Por causa da louca paixão que ele adquiriu, eu sofri durante dias com grandes calombos nas costas e nas pernas, por conta dos tiros de sal que levava.
   Miltinho descobriu que a Professora Vânia adorava jabuticabas. Para meu azar, perto de casa havia a chácara do Seu Mané. Miltinho me convencia a ir roubar jabuticabas, mas todas às vezes, o velhinho que tomava conta do lugar nos flagrava e atirava em nós com a espingarda de sal. Miltinho era mais rápido e sempre corria na minha frente, por consequência, eu era sempre o alvo do velhinho sem coração.
   Miltinho achou uma maneira menos perigosa para tentar chamar a atenção da professora Vânia, passou a lhe levar rosas. Rosas que também me convencia a roubar no quintal de Dona Penha.
   Dona Penha era uma senhora, dessas crentes fanáticas, ela cultivava as mais lindas rosas que já havíamos visto. As rosas de seu quintal eram lindas, de um rosa magnífico e de um perfume que se podia sentir a dezenas de metros de distância. De vez em quando ela nos pegava no pulo, tentava correr atrás de nós,como não conseguia,pedia ajuda a Jesus, com toda força:
   - Leva eles Jesus!Leva esses encapetados pro inferno!Moleques do Satanás!
   A maldição de Dona Penha atingiu Miltinho.
   Na festa de encerramento do ano, preparamos nossa festa, cada um levou alguma coisa para beber e comer. A Heloísa levou a vitrola e os discos de discoteque. A Professora Vânia estava deslumbrante, mais linda do que nunca. Ela bebia refrigerante e comia amendoim. Ela dançava um pouquinho com cada um de nós, eu fiquei envergonhado e só segurei na cintura dela. Miltinho não. Miltinho abraçou a professora, dançava de olhos fechados, imaginando que estivesse mesmo dançando com sua namorada. A professora Vânia nem percebeu a alegria de Miltinho, enquanto dançava,ela sorria,falava com as meninas e ia comendo os amendoins. Quando a música terminou, a professora foi buscar o Pedrinho para a próxima dança. Miltinho não percebeu que a música havia terminado, permaneceu de olhos fechados, com os braços esticados, abraçando o vento. A sala inteira começou rir de Miltinho, não pela cara de bobo, mas sim, pelo volume que surgiu em suas calças. As meninas começaram a zombar de Miltinho, ele ficou encabulado, fez até cara de choro. A Professora Vânia percebendo o constrangimento de Miltinho, correu em seu socorro e afirmou sem titubear:
   - Calma gente! Foi só um bago de amendoim que deixei cair sem querer dentro das calças de Miltinho.
   Para a sorte de Miltinho, as férias começaram naquele dia.
   Nunca mais vimos a Professora Vânia, tudo culpa de um sortudo desgraçado, chamado Professor Felizardo. O filho da mãe casou-se com ela e para nosso azar, foram felizes para sempre.


Friday, January 23, 2015

Contos Quase Infantis – A Pecadora do Metrô

Fonte:Internet - Paula Romani



Contos Eróticos Infantis – A Pecadora do Metrô

   Miltinho e eu, pela primeira vez iríamos andar de Metrô. Passaríamos o final de semana no bairro de Santana, na casa de minha querida tia Diná. Só em sair do Capão Redondo e atravessarmos sozinhos a cidade, já seria uma aventura e mataríamos um pouco de nossa grande curiosidade.
   Fomos até o centro da cidade e de lá tomamos o Metrô na Praça da Sé.
   Era um sábado de manhã, a cidade estava vazia, pouquíssimas pessoas aguardavam na plataforma com destino à Santana. Felizes e excitados com a aventura, Miltinho e eu, embarcamos no penúltimo vagão.
   Ela entrou na Estação São Bento. Vestia um vestido curtíssimo, esvoaçante,que à medida em que caminhava,ia deixando à mostra parte dos seios e da bunda. Ela era uma mulher linda e parecia a Sônia Braga em uma cena de Gabriela.
   Ela sentou-se em um banco à nossa frente, um homem velho a acompanhava. Ele lhe fazia carícias e juras de amor. A cena era digna das que víamos nas revistas que meu tio escondia embaixo do colchão. Não conseguíamos tirar os olhos do casal. O homem, sem querer, vez outra, nos presenteava com uma visão privilegiada daquele corpo de mulher. Ele a abraçava e passava - lhe as mãos pelo corpo. A todo instante a barra do vestido dela subia até a barriga e as alças caiam até o colo. De vez em quando, parecia até mesmo estar nua.
   Miltinho e eu, inconscientemente, naquele momento, pensávamos a mesma coisa. Certamente, uma meia seria sacrificada naquela noite. A imaginação é realmente uma coisa inexplicável...
   A cena prosseguia, mas a mulher não demonstrava muito interesse no velho. Percebíamos que ela fingia. Ela também mostrava-se ansiosa,parecia querer livrar-se logo dele.À todo instante olhava o relógio,como se estivesse atrasada para algum compromisso muito importante.
   Depois de uma longa e tórrida despedida, o velho desembarcou na Estação Carandiru. Ela lhe sorriu, ele retribuiu com um sorriso estranho e um tanto maldoso.
   A voz nos alto – falantes nos informava que estávamos em Santana. Ela saiu apressada do vagão. Miltinho e eu fomos a observando desaparecer na estação e pensávamos na meia...
   Minha tia havia pedido para a esperássemos na lanchonete ao lado da estação. Como chegamos mais cedo, sentamos em uma mesinha do lado de fora e pedimos uma Laranja Pop. Enquanto bebíamos nosso refrigerante, Miltinho e eu falávamos sobre a moça no Metrô. Minutos depois ela reapareceu...
   Miltinho e eu olhávamos incrédulos. Agora ela vinha acompanhada de um homem jovem e bem vestido. Não entediamos mais nada. Há poucos minutos ela se desmanchava de desejos com o velho. Agora, estava maravilhosa e feliz ao lado do homem jovem. O Homem jovem a levou para dentro da lanchonete. Miltinho eu, de vez em quando a ouvíamos gargalhar.
   A moça nem nos notou.

   Minha tia demorava a chegar. A todo instante,íamos até a esquina olhar se ela estava chegando, poderia ter se desencontrado de nós.
   Em uma dessas idas e vindas, ouvimos pipocos, pensamos que fossem rojões. Formou-se um tumulto em frente da lanchonete.
   Miltinho e eu vimos o homem jovem caído em uma grande poça de sangue. Entre o balcão e o corredor, estava ela, estirada no meio do salão. Seu corpo seminu mostrava os furos feitos pelas balas. Os tiros foram certeiros.
   O homem velho não havia desembarcado na Estação Carandiru, apenas mudou de vagão. Seguiu a moça e vingou-se da traição.
   Miltinho e eu ficamos estarrecidos, apavorados com aquele crime. A moça que parecia a Sônia Braga, agora é só um lindo corpo sem vida.
  Depois do acontecido, passamos muito tempo sem levar meias para debaixo do cobertor.