Marcos Tecora Teles

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Sunday, May 29, 2016

Um Mendigo, Um cigarro e Um Chope

Foto: Internet

Um Mendigo, Um cigarro e Um Chope

Aquela tarde de dezembro estava imensamente quente, o verão havia chegado com todo seu calor e majestade.
As ruas estavam vazias naquela tarde de domingo quando nos sentamos no Bar Brahma, na esquina da Avenida São João com a Avenida Ipiranga. Léa e Mauro, meus amigos, que quando vinham do interior, marcavam nossos encontros ali, no coração da cidade.
Os dois estavam mais calados que o habitual. Léa com seu jeito sempre aristocrático reclamava da crise, da queda nos investimentos, dos preços das roupas de grife e dos preços das passagens para a Europa, onde viajava de férias a cada seis meses.
Mauro estava preocupado com a queda do valor das ações, da baixa liquidez do mercado.
Eu apenas os ouvia, não entendia muito bem o significado daquelas conversas, meu mundo era outro. Eu era apenas um moço da periferia... apenas os ouvia.
Tomávamos Chope, comíamos porções das mais variadas e íamos deixando o tempo passar.
Mas naquela tarde foi diferente.
Meus amigos estavam mais calados do que de costume, cada um de nós absorto nos próprios pensamentos e não nos demos conta de que há tempos um mendigo nos observava. Ele estava ali o tempo todo, parado, com suas roupas esfarrapadas, uns trecos amarrados à cintura e calçava uma velha sandália que mal lhe cabia as solas dos pés.
Léa o viu e assustou-se, pensou em chamar a segurança, lhe acalmei dizendo que estávamos seguros. Estávamos sentados dentro do cercado que limitava o bar das avenidas.
O mendigo continuava lá, nos olhava atentamente, olhava o rosto plastificado de Léa, o rosto endurecido de Mauro e parecia desnudar nossas almas esfarrapadas e cansadas. Eu o olhei nos olhos e por um instante vi refletir a miséria que cada um de nós carrega. Ele nos olhava e nos tornava a pequenos.
Léa me pediu para que oferecesse um trocado àquele homem, para que ele nos deixasse em paz. O mendigo sorriu e caminhou lentamente em nossa direção, não podíamos mais escapar de sua presença incômoda. Ele se aproximava, não dava mais tempo de contê-lo. Léa parecia querer sair correndo dali, apavorada com a presença daquele andarilho.
Não deu tempo.
O mendigo se aproximou e surpreendentemente se apresentou:
- Boa tarde, senhora e senhores. Me chamo Sivaldo,sou viciado em drogas,mas não as consumo mais todos os dias. Não sou ladrão, nunca roubei e nem preciso. Não há nada mais para mim no mundo de vocês. Sou apenas um vagabundo, maltrapilho.
O mendigo nos calou com sua voz calma, serena e pacífica. Ele sabia que éramos pobres humanos, perdidos em nosso mundo egoísta, solitário e doente. Ele sorria pra mim, sabia que eu ainda tinha um pouco do que sobrou da minha própria infância, de alguma forma, me enxergou como igual e dirigiu a palavra a mim
- Irmão, posso te pedir um favor?
Eu permanecia mudo, apenas sorri e ele continuou:
- Irmão, sabe de uma coisa? Há muito tempo que vivo por estas ruas. Há muito tempo não me sinto gente, não me sinto humano. Sabe por quê? Porque as pessoas me fazem acreditar que não sou. Eu vi vocês aqui e pensei em pedir um trocado, um pouco de comida, mas eu quero me sentir gente, me sentir humano, sabe? Eu só quero um cigarro, desses, dos bons e um chope, o irmão pode pagar um pra mim?

O céu começava a ficar escuro, a tempestade se aproximava e o vento já varria as ruas do velho centro. Com um cigarro em uma das mãos e o copo de chope na outra, Sivaldo arrastava as pernas,como se desfilasse em uma escola de samba,fantasiado com suas roupas de mendigo. Gesticulava e seguia de olhos fechados, como se ouvisse uma bateria de escola samba que tocava um samba enredo divino.
Léa, Mauro e eu, acompanhávamos com nossos olhos incrédulos Sivaldo desaparecer perto do Boulevard.
Sentados de frente para a avenida,com os braços apoiados na pequena cerca,permanecemos em silêncio, tentando entender o que acabara de acontecer, o que tínhamos vivido naquele breve instante.
A chuva veio e me levantei para sair.
- Não vai esperar  a chuva passar? - me perguntou Léa.
A pergunta de Léa me fez lembrar que há tempos eu não percebia como era bonita uma tarde de chuva. Há tempos eu não caminhava na chuva. Quando criança me diziam que, andar e chorar na chuva nos lavava a alma.
Me despedi de meus amigos e atravessei lentamente as avenidas,deixei que as lágrimas chegassem.

Eu também precisava me sentir humano novamente, eu também precisava me sentir gente.

Friday, January 23, 2015

Contos Quase Infantis – A Pecadora do Metrô

Fonte:Internet - Paula Romani



Contos Eróticos Infantis – A Pecadora do Metrô

   Miltinho e eu, pela primeira vez iríamos andar de Metrô. Passaríamos o final de semana no bairro de Santana, na casa de minha querida tia Diná. Só em sair do Capão Redondo e atravessarmos sozinhos a cidade, já seria uma aventura e mataríamos um pouco de nossa grande curiosidade.
   Fomos até o centro da cidade e de lá tomamos o Metrô na Praça da Sé.
   Era um sábado de manhã, a cidade estava vazia, pouquíssimas pessoas aguardavam na plataforma com destino à Santana. Felizes e excitados com a aventura, Miltinho e eu, embarcamos no penúltimo vagão.
   Ela entrou na Estação São Bento. Vestia um vestido curtíssimo, esvoaçante,que à medida em que caminhava,ia deixando à mostra parte dos seios e da bunda. Ela era uma mulher linda e parecia a Sônia Braga em uma cena de Gabriela.
   Ela sentou-se em um banco à nossa frente, um homem velho a acompanhava. Ele lhe fazia carícias e juras de amor. A cena era digna das que víamos nas revistas que meu tio escondia embaixo do colchão. Não conseguíamos tirar os olhos do casal. O homem, sem querer, vez outra, nos presenteava com uma visão privilegiada daquele corpo de mulher. Ele a abraçava e passava - lhe as mãos pelo corpo. A todo instante a barra do vestido dela subia até a barriga e as alças caiam até o colo. De vez em quando, parecia até mesmo estar nua.
   Miltinho e eu, inconscientemente, naquele momento, pensávamos a mesma coisa. Certamente, uma meia seria sacrificada naquela noite. A imaginação é realmente uma coisa inexplicável...
   A cena prosseguia, mas a mulher não demonstrava muito interesse no velho. Percebíamos que ela fingia. Ela também mostrava-se ansiosa,parecia querer livrar-se logo dele.À todo instante olhava o relógio,como se estivesse atrasada para algum compromisso muito importante.
   Depois de uma longa e tórrida despedida, o velho desembarcou na Estação Carandiru. Ela lhe sorriu, ele retribuiu com um sorriso estranho e um tanto maldoso.
   A voz nos alto – falantes nos informava que estávamos em Santana. Ela saiu apressada do vagão. Miltinho e eu fomos a observando desaparecer na estação e pensávamos na meia...
   Minha tia havia pedido para a esperássemos na lanchonete ao lado da estação. Como chegamos mais cedo, sentamos em uma mesinha do lado de fora e pedimos uma Laranja Pop. Enquanto bebíamos nosso refrigerante, Miltinho e eu falávamos sobre a moça no Metrô. Minutos depois ela reapareceu...
   Miltinho e eu olhávamos incrédulos. Agora ela vinha acompanhada de um homem jovem e bem vestido. Não entediamos mais nada. Há poucos minutos ela se desmanchava de desejos com o velho. Agora, estava maravilhosa e feliz ao lado do homem jovem. O Homem jovem a levou para dentro da lanchonete. Miltinho eu, de vez em quando a ouvíamos gargalhar.
   A moça nem nos notou.

   Minha tia demorava a chegar. A todo instante,íamos até a esquina olhar se ela estava chegando, poderia ter se desencontrado de nós.
   Em uma dessas idas e vindas, ouvimos pipocos, pensamos que fossem rojões. Formou-se um tumulto em frente da lanchonete.
   Miltinho e eu vimos o homem jovem caído em uma grande poça de sangue. Entre o balcão e o corredor, estava ela, estirada no meio do salão. Seu corpo seminu mostrava os furos feitos pelas balas. Os tiros foram certeiros.
   O homem velho não havia desembarcado na Estação Carandiru, apenas mudou de vagão. Seguiu a moça e vingou-se da traição.
   Miltinho e eu ficamos estarrecidos, apavorados com aquele crime. A moça que parecia a Sônia Braga, agora é só um lindo corpo sem vida.
  Depois do acontecido, passamos muito tempo sem levar meias para debaixo do cobertor.

Friday, January 16, 2015

Contos Quase Infantis - A Prostituta da Cidade das Andorinhas



Imagem: Internet



Contos Eróticos Infantis

A Prostituta da Cidade das Andorinhas

   Havia quatro meses que estávamos na estrada, e em cada lugar,cada comunidade que chegávamos,colocávamos em prática o que os padres nos ensinavam durante a jornada. Àquela altura, nossas mochilas já estavam mais leves,em cada lugar que parávamos,deixávamos um pedaço da biblioteca que carregávamos nas costas.
   Havíamos estado em muitos lugares. Agora estávamos em Anagé, uma pequena cidade no sertão baiano. Chegamos em uma tarde de calor intenso,sob aquele céu azul-claro do mês de maio de 1984.
   O céu da cidade era enfeitado por um bando de andorinhas.
   Nunca ficávamos muito tempo em cada lugar.  E ali, ali não seria diferente.
   Fomos alojados no quartel do Tiro de Guerra. Estávamos eufóricos, afinal, depois de meses, iríamos finalmente dormir em uma cama com colchão.

   Dias depois de acomodados na cidade, já havíamos nos habituado com a comunidade rural e com a rotina do lugar. E como de costume, os padres nos informaram que era hora de partir novamente.
   Os recrutas tornaram-se nossos companheiros e amigos. Também eram nossos guias por ali e nos levavam à quase todos os lugares onde podíamos nos divertir.
   Ficou combinado que partiríamos na segunda-feira. No sábado, combinamos de ir conhecer um prostíbulo que ficava na zona rural. A ansiedade era imensa, os hormônios de todos escapavam até pelos olhos.
   Enfim, chegara o momento.Enquanto os padres dormiam,escapamos pelas janelas laterais do velho prédio do quartel. Rapidamente ganhamos a rua e adentramos na mata. Depois de uma longa caminhada, avistamos a casa que ficava na beira de um riacho seco.
   O lugar tinha um aspecto de pobreza extrema. Era uma casa grande e velha, com quartos nos corredores e no quintal. A sala era ampla e havia um balcão improvisado, feito de adobão e uma geladeira Frigidaire caindo aos pedaços. A música saía de uma velha vitrola National, que não se cansava de tocar um disco do Wando. Não eram muitas as mulheres, contamos oito no total. Algumas eram até bonitas, outras nem tanto.
   Os rapazes, incentivados pelos recrutas, logo entraram na farra. Eu e Miguel Marinho ficamos sentados em um dos poucos bancos que havia na sala, bebíamos cerveja e fumávamos nosso cigarro. Foi quando ela entrou.
   Era como se ela tivesse saído de um daqueles filmes surrealistas. Ela era uma mulher de meia – idade, esquálida, tinha os cabelos desgrenhados, usava um batom carmim que lhe acentuava os lábios avantajados. Vestia uma combinação já muito gasta, com furos no sutiã. A calcinha, além de ser maior do que seu número estava costurada nas nádegas e mal escondia sua intimidade.Era grotesco. Mesmo com tudo isso, Zita era engraçada. Tinha bom astral e acabou nos revelando toda a tristeza e amargura por estar ali.
    Com tantas moças jovens e bonitas no prostíbulo, homem nenhum se interessava em ir para a cama com ela. Mesmo assim ficava por ali, limpava a casa, lavava as roupas e servia no bar. Tornou-se uma espécie de “clown”, divertindo os frequentadores.
   Miguel Marinho e eu ficamos curiosos com aquela figura. Zita era um personagem que insistia em querer ser real.
   Zita era realmente uma mulher triste, que fingia ser alegre para não morrer de fome naquele sertão.
   Zita também nos contou que havia saído do Crato, deixando para trás três filhos, só para tentar encontrar o marido que foi “buscar” ouro em Serra Pelada, e que sabia que ele jamais retornaria. Zita nos contou que depois de cinco anos, perdeu definitivamente as esperanças e começou a perambular pelo Norte e Nordeste, até chegar até ali.
   Zita sonhava em voltar para sua casa, no Ceará, queria ficar junto dos filhos que há tanto tempo não via. Talvez, se pudesse,montaria um pequeno negócio ou mesmo um cabaré, quem sabe?
    Zita era atormentada pelo remorso e pela saudade.
   Bebemos muita cerveja, os rapazes estavam felizes e satisfeitos. O dia começava a clarear, Zita dormia sentada em uma velha cadeira, a vitrola havia se calado. Fomos embora.
   No caminho, voltando para o quartel, falamos de Zita, de sua história, de sua dor e de sua saudade. Fomos abatidos por um profundo sentimento de pena e solidariedade. Nós iríamos ajudá-la de alguma forma. Nossos corações doíam. Os corações dos recrutas e os dos civis.
   Os padres nos esperavam na porta do Tiro de Guerra, levamos muitas broncas e os sermões foram quase intermináveis.
   Mais tarde, voltamos ao prostíbulo, fomos procurar Zita. Nós lhe entregamos um pacote com todo o dinheiro que levávamos conosco, dinheiro que nossas famílias nos enviavam e nunca tínhamos onde gastar. E não era pouco dinheiro.
   Na segunda – feira, estávamos prontos para seguir nosso rumo. Na frente da agência de passagens estava Zita, com suas malas surradas e com um sorriso enorme que lhe enfeitava o rosto marcado por anos de busca e incertezas. Antes de entrar no ônibus que a levaria de volta pra casa, Zita beijou e abraçou cada um de nós. Abraços tão cheios de gratidão que podíamos sentir o amor exalar do coração daquela pobre mulher.
   Em nossas viagens, aprendemos com os padres, que o dinheiro não traz felicidade, mas pode comprar um pouco de paz.
   Quando o ônibus que levava Zita começou a entrar na rodovia pudemos ver o bando de andorinhas lhe seguindo.
  De alguma forma, aquelas andorinhas chegaram ali ao mesmo tempo em Zita também chegara. E partiram juntas. Zita e as andorinhas.

Thursday, December 11, 2014

Zoo Cidade

Imagem:Internet





   Em uma noite cinzenta e suja,eu caminhei entre cobras e lagartos.Animais de todas as espécies perambulavam pelas ruas de uma cidade imunda.
   Eu vi restos mortais de velhos sonhos,restos de moral e pudor escorrendo pelos esgotos fedorentos dos banheiros dos velhos cinemas do centro.
   Eu respirei pedaços podres de mulheres mal amadas.Peguei nas mãos, pedaços de corações de poetas semimortos.
   Eu vi portas velhas rangendo na escuridão dos prédios abandonados e fantasmas se escondendo de mim.
   Nessa noite, eu vi o mundo se apagando como lamparina velha,se esvaindo.Eu vi o mundo vomitando e tossindo.Eu vi o mundo cuspindo sangue, solidão e dor.

Friday, October 10, 2014

Lia 100121 Trecho



 


   Foi em uma festa no Bar do Quirino que conheci Letícia. Paixão à primeira vista e arrebatadora.

   Naquela noite eu havia bebido como de costume. Alguns uísques, algumas cervejas, mas ainda estava inacreditavelmente sóbrio.
    Letícia estava sentada numa mesa no fundo da choupana - o Bar do Quirino era uma choupana -, ela e mais dois amigos. Eu não conseguia tirar os olhos daquela obra de arte em forma de mulher. Ela fingia  não perceber que eu a observava. Às vezes encostava a cabeça no ombro de um dos seus amigos e sorria. Eu prestava atenção a cada um de seus movimentos.
    Minha alegria acabou quando ela saiu de braços dados com um dos rapazes que estava na mesa. Fiquei triste, meu coração ficou pequeno. Naquela noite adquiri amor platônico por Letícia, ela nem me notou. Quirino me serviu mais uísque e me carregou pra casa.

   No outro dia resolvi usar o que aprendi na faculdade de jornalismo pra descobrir o endereço de Letícia. Eu não estava disposto a passar mais uma noite sem dormir. Ela foi um furacão que passou por mim, levando minha sanidade, meu coração e sei lá mais o quê. Precisava achar aquela mulher.

   Depois de muitas perguntas e poucas respostas finalmente encontrei seu paradeiro.
   Ponta da ilha. Descobri seu endereço.
   Como louco mandei flores e escrevi poesias.
   Ela me encontrou no quiosque e também gostou de mim.
  
   Letícia invadiu a minha vida, por causa dela embarquei numa história incrível.

Thursday, October 02, 2014

Roger Abdelmassih - Eu Sou Deus

Imagem:Internet





Reportagem: Pedro Riveros

No dia 10 de agosto de 2014 eu estava na cidade de Pedro Juan Caballero. Concluía uma matéria sobre aliciamento de trabalhadores bolivianos que estão sendo levados para o Brasil. Trabalhadores que serão os novos escravos do século 21.
 Enquanto fazia a matéria encontrei um velho amigo, Zack Dominguez. Um milionário agricultor paraguaio e proprietário das maiores plantações de maconha do planeta. Um homem acima de qualquer suspeita. Financiador de campanhas eleitorais em quase toda a América do Sul.
Zack me convidou para passar um final de semana em uma de suas mansões em Assunção. Sabia que ele me ajudaria com informações sobre o que procurava.
No sábado, dia 12 de julho, o pequeno avião veio me buscar. A viagem foi tranquila. Zack me recebeu com a elegância e a alegria de sempre.

Meu encontro com Roger Abdelmassih

No domingo, dia 13 de julho, enquanto conversávamos na piscina, Zack recebeu uma ligação e me disse que estava chegando visita, que eu não me importasse. A visita era um casal, um grande cientista e sua bela esposa.
Minutos depois um automóvel Mercedes, preto, estacionou na entrada da mansão. A mulher desceu primeiro. Nunca a havia visto, mas o homem me pareceu familiar. Já o vira em praticamente todos os veículos de comunicação. Era o ex- médico e fugitivo Roger Abdelmassih.
Feitas as apresentações, a mulher mostrou-se profundamente triste, tinha o olhar cansado, entrou na mansão e de lá não mais saiu. Roger também aparentava cansaço, mas era mais falante. Extremamente educado, abriu a garrafa de Bourbon e serviu a mim e Zack. Pediu que eu o chamasse apenas de Roger.
Roger conversava com Zack e lhe falava sobre a tensão dos últimos dias, das fugas, dos cuidados com as constantes mudanças de endereços e cidades.
Como jornalista, não poderia deixar passar aquela grande oportunidade de fazer perguntas à tão célebre criminoso.
Roger parecia conhecer seu destino, sabia que os dias de fuga terminariam a qualquer momento. Só não sabia nem quando, nem onde. Mostrava-se calmo e às vezes sorria preocupado.
Eu senti que Roger queria falar.

Entrevista com Roger Abdelmassih

P.R - Quem é Roger Abdelmassih?
Roger - Eu sou algo muito próximo de um Deus!
P.R - Por que o senhor acha que é um Deus?
Roger - Eu dei a vida para muitas pessoas!
P.R- Olhando por este lado, todo geneticista é Deus?
Roger- Não, de forma alguma.
P.R - Então, o que o faz afirmar ser um Deus?
Roger- A maneira que encontrei de poder ajudar as pessoas. De como pude torná-las felizes.
P.R - O senhor é uma das pessoas mais procuradas do mundo. Acusado de dezenas de estupros. Acha mesmo que conseguiu fazer alguém feliz?
Antes de responder a pergunta, Roger colocou mais um pouco de bebida em sua taça. Bebeu um pequeno gole, como que procurando no fundo da taça, as palavras adequadas.
Roger - Todas aquelas pessoas que me procuravam, buscavam o que faltava para completar suas vidas. Todas aquelas pessoas queriam um filho. Muitos queriam um filho para amar. Outros queriam um filho simplesmente para tentar perpetuar o nome da família. Tentar perpetuar suas posses. Para a maioria, um filho era a certeza de felicidade. Para muitas daquelas mulheres, a maternidade, era cumprir uma missão. Tudo o que fiz foi tentar dar a elas o que sonhavam. O Deus bíblico não tinha competência para lhes dar, eu tinha!
P.R - Mas o senhor não usou apenas métodos científicos. Usou métodos naturais de fecundação. Sabia mesmo o que estava fazendo? Estava consciente do que isso tudo iria acarretar para suas pacientes?
Roger - A ciência é magnífica, mas sabemos que todo o processo de pesquisa é lento. As pessoas tinham pressa.
P.R - Qual o motivo de violentar suas pacientes?
Roger franziu a testa, acentuando ainda mais as rugas que mostravam sua idade avançada. Sua resposta não foi apenas surreal, foi surpreendente.
Roger - Eu amei cada uma daquelas famílias! Os amei de todo o meu coração. Chegou um dia que não era mais por dinheiro e poder que eu trabalhava, era por amor.
P.R - O senhor acha mesmo que não violentou nenhuma daquelas mulheres? Que o que fez foi por amor?
Roger - Sim! Amor puro e incondicional! Eu tive que deixar de lado muito do que aprendi, tive que deixar de lado décadas de pesquisa, porque eu também comecei a ter pressa em fazê-las felizes.
P.R - Como foi essa mudança? Como foi que resolveu “acelerar” o processo?
Roger - Durante os tratamentos descobri que muitas mulheres eram férteis, que o problema estava nos companheiros, eles eram estéreis. Percebi que não precisava perder meses, anos, com tratamentos que poderiam ser simples. Que não era preciso procurar doadores de sêmem. Percebi que não precisava perder tempo com provetas. Eu seria o doador!
P.R - Suas pacientes perguntavam quem eram os doadores?
Roger - Não. O doador é um segredo guardado para sempre. Tranca-se o cofre e joga-se a chave fora.
P.R - Como o senhor fazia?
Roger - Eu fazia o procedimento normal. Fazia uma parte do tratamento, esperava o tempo adequado, para que as pacientes e seus companheiros não desconfiassem. Marcava o dia da inseminação. Simplesmente as penetrava e ejaculava. Sempre fui um homem fértil.
P.R - Suas pacientes disseram que o senhor as beijava, qual o motivo? Não era “ciência”?
Roger- Não queria que fosse algo mecânico. Precisava ser algo humano. Eu queria que sentissem um pouco de prazer na hora do “ato”.
P.R - O senhor conseguiu engravidar alguma de suas pacientes?
Roger colocou a mão na testa, cobrindo o sol que batia em seu rosto e sorriu satisfeito. Pela primeira vez mostrou-se alegre.
Roger - Não sei o número exato, chegou uma hora que parei de contar. Chega perto de uma centena.
P.R - O senhor é pai de quase cem pessoas?
Roger - Aproximadamente.
P.R - Se o senhor engravidou tantas pacientes, porque somente quarenta lhe acusam de estupro? Acha que vão aparecer mais acusações?
Roger - Acho que depois que tudo isso veio à tona, muitas pessoas não vão querer perder a felicidade que lhes proporcionei. Creio que todos ficarão em silêncio. O silêncio será eterno. Para o bem de todos.
P.R - O senhor leu o livro de Pedro Cavalcanti?
Roger - Li.
P.R- Depois dessa conversa, me diga realmente, quem é Roger Abdelmassih?
Roger - Deus! Eu sou Deus!

Roger Abdelmassih foi preso dias depois em Assunção no Paraguai. Cumpre uma pena de duzentos e oitenta anos em um presídio em São Paulo, Brasil.

Pedro Riveros é apenas um personagem. Esta é uma entrevista fictícia.