Marcos Tecora Teles

Marcos Tecora Teles
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Monday, September 21, 2020

 



Está chegando minha loja virtual!

Toda minha obra para baixar!

www.marcostecorateles.com.br

Tuesday, May 12, 2020

LIteraLive!


Dia 20 de maio de 2020!
Das 19:00  horas às 20:00 horas.

Wednesday, November 13, 2019

As Luvas do Goleiro


Imagem:internet

As Luvas do Goleiro

“ O tempo passa, torcida brasileira! ”
Fiori Gigliotti

Quando ainda éramos crianças, no Jardim São Bento, não acreditávamos que o tempo passaria tão depressa.
Nossa vida era brincar, a rua era o melhor lugar do mundo, mas quando chegavam as férias escolares, aí os dias não tinham fim.
Acordávamos cedo, a gente empinava pipa, rodava pião, jogava bolinha de gude; coisas normais naquele tempo. Na verdade, nossa maior paixão era a bola, os campinhos que improvisávamos, nossa paixão eram as partidas inesquecíveis, o sanduíche de mortadela e a tubaína depois dos jogos.
No fundo, sabíamos que nossa vida não era perfeita, muitos daqueles meninos não tinham nada, às vezes, nem o que comer. A miséria também vivia entre nós, era uma companheira constante e indesejada. Mesmo com nossa inocência, sabíamos que de algum modo, chegaria a hora do grande jogo e que teríamos que driblar a vida.
De todos nós, Topinha era o menino mais pobre, vivia com a mãe em um barraco no final da Rua Um, na beira do córrego.

Topinha também era o melhor goleiro do mundo, mesmo sem possuir as chuteiras, o uniforme e as luvas. Em toda e qualquer partida, era sempre o primeiro à ser escolhido. Com ele no gol, a chance de vencer era garantida. Ele era um menino, alto, magro, com reflexos rápidos e muita elasticidade nos movimentos. Topinha dizia que incorporava os grandes goleiros. Em alguns jogos, tornava-se Emerson Leão, da seleção brasileira, em outros, o argentino Fillol e nas grandes decisões ele se transformava em Sepp Maier, o grande goleiro da Alemanha.

A periferia crescia desordenadamente, era raro um final de semana em que não chegassem novos moradores no bairro. Até que um dia, com a chegadas de alguns novos moradores, também chegou o crime e percebemos que muitos de nós, perderiam a inocência.

Eram os anos setenta e inevitavelmente, também chegou a febre da discoteca e muitos meninos queriam ser John Travolta e assim as coisas foram tomando outro rumo. Os garotos com “cabelo bom”, queriam usar brilhantina, mas não tinham dinheiro para comprar. Um dos novos moradores, o Enéas bolou um plano e formou uma turma, foram roubar os vidros de brilhantina no Mercadinho do Shozu. Para o azar de Topinha, o plano deu certo.
Incentivado por Enéas, Topinha resolveu roubar um par de luvas de goleiro na Loja da Japonesa. Ele conseguiu, mas não contava com a presença de Naldo, um policial violento que fazia bicos no comércio do Capão Redondo.

Topinha escondeu as luvas sob a blusa enquanto Enéas e Romildo tiravam a atenção da japonesa. Ao sair da loja, correu beirando a barranco, Naldo colocou o pé na sua frente, Topinha perdeu o equilíbrio, caiu na ribanceira e ficou trespassado pelas vigas de aço que saiam de uma casa em construção. 

Meses depois, Topinha voltou para casa em uma cadeira de rodas, nos olhou com vergonha, arrependimento e imensa tristeza.
Quando crianças, sempre soubemos que vivíamos um sonho. Tínhamos medo de acordar e perder aquele estado permanente de felicidade. A gente vivia para sonhar. Hoje, depois de tantos anos, depois da infância, a gente descobre que é obrigado a sonhar para continuar vivo.

E como dizia o saudoso locutor: “ O tempo passa, torcida brasileira! E fecham-se as cortinas e termina o espetáculo! ”

Saturday, May 25, 2019

A Rainha da Fofoca

Foto:internet

A Rainha da Fofoca

É sabido que a fofoca sempre existiu desde os primórdios, mas o Brasil foi o país onde este artifício mais se expandiu.
Se existisse uma olimpíada de fofoca o brasileiro seria medalha de ouro em todas as modalidades, principalmente em fofoca à distância, arremesso de fofoca, fofoca em altura, salto triplo em fofoca, maratona de fofoca e muitas mais.
Também é do conhecimento de todos que em toda e qualquer rua do Brasil, reside pelo menos uma pessoa fofoqueira. Na minha rua não seria diferente.
Quando vim morar aqui neste bairro, conheci a fama de fofoqueira de Dona Dadá. A mulher sabia da vida de todo mundo. Tudo o que acontecia nas casas, nos bares, nas igrejas, ela dava um jeito de descobrir e espalhar aos quatro ventos. Dona Dadá não podia ver um grupo de pessoas que logo se aproximava e perguntava com seu talento nato para a especulação da vida alheia:
- O que é que vocês estão aprontando, hein?
E não adiantava esconder, em pouco tempo aquela conversa já virava assunto em todo lugar.
Eu tinha “um pé” atrás com Dona Dadá, o máximo que fazia era lhe dar bom dia, boa tarde e boa noite. Evitava ao máximo que ela tentasse puxar conversa comigo. E assim se passou muito tempo.
Depois de alguns anos, passei a trabalhar à partir de casa, então, comecei a receber muitos amigos, clientes e parceiros. Durante o dia e até altas horas da noite, pessoas entravam e saiam de minha casa.
Dona Dadá observava o entrai e sai de pessoas e cada vez que passava em frente à minha casa, dava um jeito de diminuir o passo para tentar captar algo.
Eu sabia que chegaria o dia em que ela não resistiria e viria especular, eu me esguiava dela, fingia mesmo não vê-la, só para não lhe dar assunto.
Mas não dava para fugir de Dona Dadá a vida toda...
Foi em uma tarde em que eu me despedia de alguns amigos, que Dona Dadá me pegou de surpresa. Acompanhada de uma amiga, veio caminhando de mansinho, passou por mim, deu uma olhadinha, um sorrisinho amarelado, até pensei que ela passaria direto, mas não.
Eu já me preparava para entrar e fechar o portão, quando de repente, me virei e Dona Dadá já estava tocando em minhas costas e perguntou:
-Tudo bem com você, rapaz?
Eu respondi que sim, que estava tudo bem. Mas ela já estava com a artilharia armada e prosseguiu:
-Tanto tempo que você mora aqui e nunca paramos para um papinho.
- Pois é - respondi.
Ela tinha uma técnica impressionante, poderia ser repórter investigativa:
- Todo dia vem bastante gente em sua casa, desculpe eu perguntar, mas você trabalha com o quê, filho?
Dona Dadá não imaginava que eu também havia me preparado para aquela hora fatídica, que sabia, chegaria um dia e com ar de vitória lhe respondi:
-Sou do crime! Sou o chefe do tráfico do bairro!
Para minha surpresa, Dona Dadá, deu um sorriso triunfal, foi embora sem falar mais nada comigo, colocou o braço no pescoço da amiga e falando baixinho, comentou:
-Não te falei “fia”! Ele é pastor da Igreja Universal!






Monday, March 04, 2019

Contos Quase Infantis – Doutor Chicão


Imagem internet:

Lembro que era uma sexta-feira de um mês de abril, não me lembro qual foi aquele ano, acho que 1976 ou 1977, foi o dia em que ficamos sabendo que um médico iria começar a atender as pessoas do nosso bairro, seria inaugurado um ambulatório, perto do campo do Águia Futebol Clube.
O dia da inauguração foi um acontecimento.
Uma verdadeira procissão se encaminhou para lá, todos queriam conhecer o médico, Doutor Francisco das Chagas, ou como ele mesmo se intitulava, Doutor Chicão.
O Zenon foi com seu trio de forró, teve cachorro-quente, pipoca e distribuição de Cibalena.
Doutor Chicão era um homem alto, forte, jovem, estilo bonachão, gostava de conversar e contar piadas, conquistou todos nós.
Miltinho e eu, demoramos alguns dias para conhecê-lo, até Miltinho furar o pé em um prego nas caixas de banana do Mané Bananeiro.
A mãe de Miltinho correu para levá-lo ao ambulatório e eu, claro, também fui com eles.
Quando entramos no ambulatório, ficamos um pouco decepcionados, a gente achava que seria igual a um hospital, igual aos das novelas, com enfermeiras bonitas e tudo o mais, era só a casinha da Dona Valda que foi adaptada para ser o ambulatório. Mas era bacana!

- O que aconteceu meu rapaz? -Doutor Chicão, sorridente, perguntou para Miltinho.
- Furei o pé no prego do Mané!
Enquanto o médico fazia o curativo eu olhava o seu gabinete. Não havia muita coisa ali. O que realmente me chamou a atenção foi uma grande seringa com uma agulha enorme, um taco de sinuca e uma chuteira suja de barro, que ficavam no balcão, atrás da cadeira.
Ao reparar minha surpresa, o Doutor falou sorrindo
- Essa é a seringa da sorte e ninguém escapa dela.

Doutor Chicão só abria o ambulatório às sextas-feiras, durante o resto da semana, trabalhava em outros hospitais, nós, do bairro, ele atendia de graça. Doutor Chicão tratava de qualquer doença, resfriado, caganeira, pano branco, vertigem, hemorroidas e tirava lombrigas da bunda das crianças com papel higiênico. Até hoje, lembro do filho do Tomé de Lúcia, correndo com uma lombriga pendurada na bunda e Doutor Chicão correndo atrás dele para puxar.
Toda sexta-feira, quinze para às seis da tarde, ele olhava o relógio e gritava lá de dentro do gabinete:
- Todo mundo pra casa! Tenho compromisso no Bar de Ceará, sinuca, cerveja e mocotó me esperam! Até semana que vem!
Quando alguém reclamava, ele saía do gabinete com sua seringa da sorte e falava bem alto:
-Dona Mariquinha! Benzetacil pra todo mundo!
Era aquela correria porta afora.

Aos domingos, Doutor Chicão jogava no time do Nacional Futebol Clube. Era um zagueiro bruto, perna-de pau, suas únicas especialidades em campo eram, fazer pênalti e gol contra. Doutor Chicão não tinha piedade dos atacantes do time adversário e quando dava uma “entrada “mais dura e o pobre do adversário reclamava ele logo gritava:
- Se ficar reclamando, vai ter Benzetacil 1.200 na sexta-feira!
O coitado do jogador adversário, com a canela toda ralada, diante de tamanha ameaça, abaixava a cabeça e lhe pedia desculpas.
Depois de algum tempo, Miltinho me chamou a atenção para um fato curioso e que se tornaria corriqueiro:
- Marquinhos, você já percebeu que todo mundo que entra no gabinete do doutor sempre sai com a bunda doendo e a perna dura?
-Sim, eu sei.
-Porque será que só a Maria do Bundão é a única que sai sorrindo?
Maria do Bundão era na verdade, Maria do Rosário, por motivos óbvios, nós lhe demos esse carinhoso apelido, mas ela não sabia, ou fingia não saber. O que importa mesmo é que ela era linda, a moça mais bonita do bairro, sempre sorridente, simpática, educada. Maria do Rosário era fonte de inspiração para todos os marmanjos do bairro. Era nossa musa.
Todos foram percebendo a cumplicidade entre Maria do Rosário e o Doutor Chicão. Quando ele a via, abria um sorrisão. Ela também.
O mais interessante é que ela sempre era a última paciente do doutor, sempre a última a sair do ambulatório. E quando saía, arrumava a roupa e retocava o batom, enquanto o doutor trancava as portas.

Maria do Rosário era cobiçada pelo Sargento Pestana, um policial militar que também morava no bairro.
O Sargento Pestana era casado com Matilde, uma gordinha simpática que quando caminhava parecia uma minhoca rebolando. Matilde organizava festas para os rapazes mais velhos do bairro, mas só quando o sargento estava trabalhando, fazendo ronda. O sonho meu e de Miltinho era de um dia poder ir em uma festa da Matilde.
O Sargento Pestana vivia seguindo Maria do Rosário. Quando a via na rua, dirigia a viatura bem devagar e lhe fazia gracejos e propostas, vivia tentando puxar conversa, sem sucesso. Ninguém gostava do Sargento Pestana, acho que nem mesmo a Matilde.
O Sargento Pestana ficou furioso quando soube que a Maria do Rosário estava de namoro com o doutor.

Não sei se era por causa do tempo que era mais frio aquela época, mas ficávamos gripados constantemente. Minha prima tomava Xarope São João, ela adorava. Miltinho e eu também queríamos tomar. Um dia fomos ao Doutor Chicão e ficamos forçando a tosse até ele nos receitar Xarope São João. O xarope não era muito bom para curar tosse, mas nos deixava alegres, leves, sorridentes e com uma preguiça deliciosa, talvez pelo excesso de álcool que continha. Quando Doutor Chicão descobriu o verdadeiro motivo de gostarmos tanto do tal xarope, nos aplicou Benzetacil.
Doutor Chicão gostava muito do Duílio, com ele o doutor era complacente. Duílio era o artilheiro do Nacional Futebol Clube, como bebia demais, o doutor lhe receitava Pedialyte, soro infantil, para curar a ressaca e poder jogar no domingo.
Nunca esqueci desta receita...

Em uma tarde de sábado, um rapaz apareceu no Bar do Ceará. Disse que seu nome era José. Chegou sorridente, pagou refrigerante, cerveja e petiscos para todos, disse que acabara de se mudar para o bairro. Era um homem bem jovem, tinha uma cabeça enorme, grandes orelhas, os olhos também eram grandes e saltados, mas tinha uma boca miúda que não combinava com o resto do rosto. Miltinho tacou-lhe imediatamente um apelido, Zé Boquinha.
Zé Boquinha era solteiro, morava em uma casa bonita na Rua Alfredo Ometecidio, atrás da igreja São José Operário e tinha um SP2 amarelo. Logo começou a fazer festas em sua casa, festas estas que são inesquecíveis. Ás vezes, convidava alguns amigos e até Miltinho e eu fomos algumas vezes.

Lembro de um carnaval. Doutor Chicão organizou uma batucada e saímos em cortejo pelo bairro, depois fomos todos para a casa de Zé Boquinha. Foi uma grande festa e ainda sinto como se ela nunca tivesse terminado.
Meses depois do carnaval, não me lembro o motivo pelo qual Miltinho e eu fomos ao ambulatório. Sei que lá, encontramos Dona Julieta.
Dona Julieta tinha quatro filhas, todas bonitas, um pouco assanhadinhas, é verdade. Ouvimos quando Dona Julieta falou com tristeza para o doutor:
- Doutor Chicão, minhas meninas não estão muito bem, estão com as barrigas inchadas, acho que é barriga d´água. O que o senhor pode fazer?
Doutor Chicão ouviu atentamente o lamento de Dona Julieta e lhe falou:
-Fique tranquila. É a água do poço. Antes de beber, ferva. Mas de qualquer forma, traga suas meninas aqui.
Enquanto o doutor tranquilizava Dona Julieta, Miltinho me cutucava e dizia baixinho:
- Marquinhos.
- O que é Miltinho? Eu lhe perguntava.
Percebi que Miltinho estava preocupado e que estava querendo falar com o doutor. Ele não resistiu e gritou:
- Doutor! Elas beberam a água da casa do Zé Boquinha!
- Como é, Miltinho? Que conversa é essa? Perguntou o doutor, olhando para o rosto já pálido de Dona Julieta.
Incentivado pela pergunta do doutor, Miltinho contou um terrível segredo:
-Sim, doutor, a água da casa do Zé Boquinha! Nós ouvimos ele falar para as meninas de Dona Julieta, “vamos tomar uma aguinha, lá em casa, quem bebe da água lá de casa, nunca mais esquece”.
Silêncio, silêncio, silêncio e mais silêncio...
Tempos depois, para nossa tristeza, alguns homens vieram com jipes, tratores e caminhões, chegaram na surdina, em uma madrugada e derrubaram o ambulatório do Doutor Chicão.
O Sargento Pestana falava com cara de mau, sorrindo e orgulhoso que acabou com o médico comunista e subversivo.
Passamos dias com infinita tristeza, com pena e saudades do nosso médico e amigão.
Para nossa alegria, dias depois, vimos Maria do Rosário, com uma mala, embarcando em um carro, lá dentro, além do motorista, havia outra pessoa, Doutor Chicão. Ficamos tristes por ele ir embora, também porque levou nossa musa, mas ficamos felizes por ter ido em paz e por ficarmos livres de suas terríveis injeções de Benzetacil.
Nunca mais tivemos notícias de Doutor Chicão e Maria do Rosário. Acreditamos que foram felizes. Eles mereciam e eram pessoas especiais.
Zé Boquinha, encontrei muitos anos depois em um baile de carnaval do Arakan Clube, estava fantasiado de Adão rodeado por um grupo de garotas vestidas de Eva.
Hoje, sei que nós humanos também somos movidos pela saudade.
Mas como dizia Doutor Chicão: “não há medicina, nem esparadrapo, nem bandagem ou Penicilina que possa curar uma ferida que se chama saudade”.


Friday, November 23, 2018

A Incrível Orquestra da Floresta





A Incrível Orquestra da Floresta


   No princípio, antes do homem habitar a terra, só haviam os animais. Eles também já eram organizados. Tinham seus reinos e suas leis.
   No princípio, não existiam países e nem fronteiras, somente os rios, as montanhas e os oceanos separavam a terra.
   A terra não se chamava terra, chamava-se Grande Vale, e à cada lugar dava-se um nome que se adequava aos animais que lá viviam.

   O Vale da Alegria era governado pelo Rei Alfeu, o mais inteligente dos elefantes. O Rei era casado com a Rainha Débora, uma elefanta linda e amorosa.
  
   O Vale da Alegria estava se preparando para uma grande festa, Depois de vinte e dois meses, estava chegando a hora de se conhecer o Príncipe herdeiro, a Rainha Débora iria dar à luz.

   Os moradores do Vale da Alegria esperavam ansiosos pelo anúncio do nascimento do bebê real. Mas mesmo com toda alegria, também havia a preocupação com a reunião do Grande Conselho dos Mais Velhos.

   Segundo a lei do Vale da Alegria, todo bebê que nascia e logo que conseguisse ficar de pé, deveria ser imediatamente apresentado ao Grande Conselho, pois os que nasciam com alguma imperfeição, seriam enviados para o exílio no Vale da Tristeza.

   O vale da Tristeza era um lugar terrível, feio, era somente o lugar em que os pobres animaizinhos eram deixados sozinhos para morrer.




   - O Príncipe nasceu!
   Anunciou o Mestre Gorila Orador.
   Gritos e vivas ecoaram durante toda a noite no Vale da Alegria.



   Depois da grande noite de festa, era chagada a hora mais tensa, o momento de apresentar o bebê real ao Grande Conselho.


   Reunido o Grande Conselho, a Rainha Débora apresentou seu bebê:
   -Senhores! Apresento-lhes meu filho, o Príncipe herdeiro do trono do Vale da Alegria.

   Ao ver o Príncipe caminhando, a Hiena Carlos, um dos inimigos do Rei Alfeu, em tom alarmante e com indisfarçável satisfação, gritou:
   - O Príncipe é manco! Está condenado ao exílio no Vale da Tristeza!

   A rainha pôs-se a chorar e seu choro comoveu a todos, que também não resistiram e choraram com ela, exceto, a Hiena Carlos.


Foi estabelecida a data da partida para o exílio, seria em três meses.
Durante muitos dias, a tristeza era imensa, a Rainha continuava seu choro dolorido e infinito.
O Rei estava quieto, pensativo e envolto em profunda tristeza.

Após conversar durante dias com a Rainha, o Rei convocou todos os moradores do vale para uma reunião e anunciar uma decisão que haviam tomado:
-Senhores do Grande Conselho e todos do Vale da Alegria, como não podemos deixar de cumprir a lei antiga, eu e a Rainha, abdicaremos do trono e partiremos com nosso filho para o Vale da Tristeza!


   Imediatamente, logo após a renúncia do Rei, a Hiena Carlos assumiu o trono, mesmo sob muita briga e discórdia.

  



     O Rei, a Rainha e o Príncipe, preparavam-se para partirem sozinhos para o exílio, mas foram surpreendidos pelo Macaco Gabriel:
   - Meu rei! Vossa Majestade e sua família não irão sozinhos, montamos um grupo e partiremos com vocês!


   Tigres, rinocerontes, girafas, pássaros entre tantos outros animais acompanharam a família real para o Vale da Tristeza.


   Foi um longo caminho, uma jornada difícil, dias e mais dias com frio, fome, sede e cansaço.

   Depois de dois meses, enfim, entraram no tão temido Vale da Tristeza. Tudo era desolador, animais doentes, muito choro e amargura. Animaizinhos tristes, indefesos, inocentes e abandonados eram os únicos habitantes daquele lugar tão feio.


   O Rei Alfeu, usando toda sabedoria e amor, logo declarou:
   - Aqui, somos e sempre seremos todos iguais, somos todos irmãos! Vamos no proteger e cuidarmos uns dos outros! Vamos viver em paz e igualdade até o fim de nossos dias!

   E assim foi feito.



  Nos primeiros dias, somente os animais saudáveis caminhavam longas horas em busca de água e comida, o que não era fácil encontrar. No começo era pouca água e comida, mas foram descobrindo novos lugares.

   O Macaco Gabriel era engenheiro, logo começou a construir coisas para ajudar os deficientes, com pedaços de árvores fez uma prótese para alongar a perna do Príncipe, que nunca mais teve que andar mancando. O Macaco Gabriel fez coisas incríveis, reconstruiu com galhos e folhas asas para os pássaros e fez muito mais maravilhas.

   Pouco tempo depois, todos os animais já podiam sair em busca de água e comida. O caminho era longo, mas cada um, à sua maneira conseguia trazer um pouco.


 Um dia, O Príncipe, observou que grande parte da água que traziam ia ficando pelo caminho e falou com sua mãe:
- Mamãe, a água está caindo no chão.

   A Rainha sorriu, pediu para que todos prestassem atenção e explicou:
  -A água que vai ficando pelo caminho, vai deixar nossa caminhada mais suave, a terra ficará mais fresca.

   A Girafa Eurides perguntou:
  -Rainha, então a senhora tem o trabalho de trazer tanta água para depois ir deixando cair no chão, de propósito?
  Novamente sorrindo a Rainha voltou a responder com ternura:
  -Sim, é preciso. Este lugar é quente, feio, triste, sombrio e escuro. Essa água que deixamos cair, vai fazer brotar plantas, vai trazer os insetos, vai fazer nascer as flores, as flores nos trarão as borboletas e as borboletas nos trarão a primavera.


   A primeira borboleta, enfim, bateu suas asas no Vale da Tristeza.
  

   Depois de muito, muito tempo, o Vale da tristeza foi ficando cada dia com mais claridade, as nuvens escuras dissipavam-se, brotaram plantas, flores, surgiram as nascentes com água pura. Todos sentiam-se felizes.
   A Girafa Eurides sugeriu:
   - Vamos mudar o nome deste Vale, o que acham?
  Todos concordaram alegres.
  -De hoje em diante vamos chamar de Vale da Felicidade.
   Houve muita festa  e alegria.


   O Príncipe, além de ter nascido com uma pata menor, também tinha outra coisa que chamava a atenção, sua tromba era marcada por pontos azuis verticais.


   O tempo realmente passava devagar no Vale da Felicidade, os mais novos, todas as tardes iam se reunir em uma grande pedra, ninguém no vale sabia exatamente o que eles faziam ou conversavam, até que um dia...


   Como de costume, os adultos estavam reunidos, preparando a refeição e fazendo planos para o dia seguinte, mas um som mágico, como se estivesse vindo do céu lhes chamou a atenção. Todos ficaram em silêncio, de olhos fechados e emocionados. Era um som tão maravilhoso e lindo que esqueceram do tempo. Quando deram por si, a música havia parado, curiosos, correram em direção a grande pedra, o Príncipe e os outros animaizinhos formavam uma linda orquestra, com harpas feitas de cipós, flautas de bambu, tambores de casca de frutas e xilofones de pedras de quartzo. As manchas azuis na tromba do príncipe faziam soar notas musicais, melodias mágicas, como o som de um oboé encantado.

   Era a incrível orquestra da floresta.



   Tudo corria bem até que um dia chegou o Pardal Mensageiro, ele vinha do Vale da Alegria, trazia a mensagem do Grande Conselho, pedindo para que o Rei retornasse urgentemente. O Vale da Alegria estava em convulsão, brigas, miséria e a ganância da Hiena Carlos, destruíram o Vale da Alegria.
   O Vale da Alegria já não era mais alegre.

   Por um instante, todos os animais ficaram preocupados, se o Rei partisse, todos voltariam a sofrer.
 Mas o Rei Alfeu era muito, muito sábio e respondeu ao mensageiro:
   - Diga ao Grande Conselho que já não sou mais rei do Vale da Alegria. Diga que aqui, todos somos iguais. Diga também, que aqui, todos somos reis, rainhas príncipes e princesas. Aproveite e diga ao Grande Conselho que agora, o Vale da Tristeza não existe mais. Diga ao Grande Conselho que aqui é o Vale da Felicidade.


   A primavera chegou novamente e a orquestra da floresta se preparou para o grande espetáculo, o grande espetáculo da vida.


FIM.






Thursday, March 08, 2018

Apenas Escrevo




Apenas Escrevo


Escrevo porque gosto de escrever.Gosto de contar histórias.Gosto das coisas simples.
Não escrevo para receber prêmios.Quando escrevo,fujo das palavras rebuscadas,do floreio literário.Não perco tempo tentando criar novas palavras.Não quero parecer intelectual,nem preciso.Não faço parte de grupos,nem quero.
Não quero fazer parte da elite literária,que foge do povo,que não quer vender livros para o povo.
Eu escrevo para quem não lê.Também escrevo para as prostitutas,para os operários,para os encarcerados.Eu escrevo para mim, eu escrevo para o povo!

Marcos Tecora Teles


Monday, March 05, 2018

Elis e Eu





Foto:Internet

Não me lembro bem qual foi o mês,talvez final de outubro ou novembro do ano de 1980.Nessa época eu trabalhava na fábrica de sapatos do meu tio,no Itaim - Bibi,Creazione Grazia,na Rua Bandeira Paulista.A fábrica ficava nos fundos e na frente,a loja.
Meu tio fazia os sapatos mais  lindos e os mais disputados pelas celebridades e mulheres da alta sociedade brasileira e era comum receber quase todos os dias uma visita ilustre na loja.
Era um final de tarde quente,eu me preparava para ir embora quando vi aquela mulher olhando a vitrine.Eu estava de cabeça baixa,arrumando  as gavetas do balcão,levantei novamente a cabeça e ela continuava olhando os sapatos e sorria.Eu a reconheci,era Elis Regina!
Ela percebeu minha surpresa,sorriu de volta,apagou o cigarro e entrou na loja e sem falar nada, cantou para mim: " De tanto levar frechada do teu olhar,meu peito até parece sabe o quê? Táubua de tiro ao álvaro,não tem mais onde furar,não tem mais..."
Meu tio tirou as medidas dos pés de Elis e lhe fez dois lindos pares de sandálias,no dia em que ela foi buscar eu não estava.Mas ela me deixou um convite para vê-la em um show inesquecível.
Saudades de Elis!

Monday, May 08, 2017

Contos Quase Infantis – Fotografias de Mulher Nua e Casamentos

Foto :Internet

Eu me lembro que houve um ano, lá nos anos setenta, que o inverno foi demasiadamente rigoroso. O vento gelado soprou por dias sem parar, a garoa era intermitente, a sensação era de inverno polar.
Aquele inverno entrou em meus ossos e acho que nunca mais saiu.
Me recordo de uma sexta-feira, em que fui à feira e ao Supermercado ki-Preço com minha tia.Na volta para casa,eu estava congelando,minhas orelhas estavam duras e minhas mãos ficaram totalmente roxas,eu estava tendo hipotermia.Quando chegamos em casa,a primeira coisa que minha tia fez,foi providenciar uma toalha, onde enrolou minhas mãos e depois aqueceu com o ferro de passar roupas.
Depois do susto e já devidamente recuperado, fiquei a tarde inteira vendo televisão, até que Miltinho gritou no portão:
- Marquinhos!Marquinhos! Tenho uma novidade!
Imaginei... lá vinha encrenca.
Miltinho, como sempre que algo diferente estava prestes a acontecer, estava eufórico, mesmo naquele frio desgraçado, vestia apenas um calção e uma camiseta. Estava suado de tanto bater de porta em porta, contando a novidade e fazendo um convite:
- Minha avó vai casar!Minha mãe está convidando todo mundo! - Miltinho estava feliz.
- Ué, mas sua avó já não é casada? Minha prima perguntou.
Com ar de superioridade, Miltinho respondeu:
- E daí? Tem gente que já se casou tantas vezes, olha sua tia Petronila!
Tia Petronila já estava no oitavo casamento, todos os seus ex-maridos sempre tiveram mais de 80 anos, Tia Petronila, tinha vinte e dois anos. Tia Petronila nunca teve boa reputação na vizinhança.
Aquela conversa já estava tomando outros rumos, minha tia me mandou saber da mãe de Miltinho que história era aquela. Mesmo reclamando do frio, lá fui eu.
Já na casa de Miltinho, sua mãe me explicou que, a avó de Miltinho, sua mãe, realmente resolveu marcar a data do casamento e que depois, com mais tempo, falaria o motivo.
Miltinho contou para sua mãe o que havia me acontecido pela manhã e que minha tia havia esquentado minhas mãos com o ferro de passar roupas. A mãe de Miltinho foi lá no quartinho dos fundos da casa e voltou com um capote nas mãos.Ela me disse que aquele capote iria me manter aquecido quando fosse à rua e que o capote havia sido de sua mãe,a noiva.
Confesso que quase recusei o capote, não era feio, um tanto feminino e parecia muito antigo. O frio lá fora falou mais alto. O danado do capote realmente esquentava.
Ao chegar em cassa e tirar o capote,descobri coisas nos bolsos. Havia moedas sem valor, um terço de Nossa Senhora de Fátima e para minha surpresa e alegria, um bolso camuflado no forro onde estava escondido um envelope já amarelado. Dentro do envelope a felicidade, seis fotografias de uma linda moça nua.
É óbvio que as fotografias me chamaram à atenção e aguçaram minha criatividade adolescente.
As seis fotografias da moça nua me acompanharam por semanas, toda hora eu ia  olhá-las e admirar a beleza daquela moça. E eu admirava bastante...
Fiquei curioso em descobrir quem era a pessoa retratada nas fotografias. No começo, pensei se tratar de alguma artista, mas aos poucos fui achando aquele rosto familiar.
Durante dias, escondi de todos, aquele delicioso segredo, mas para fazer inveja a Miltinho, resolvi lhe contar, e ele, claro, insistiu para que eu lhe mostrasse as fotografias imediatamente. Quando abriu o envelope, Miltinho quase morre de susto e gritou:
- Marquinhos, caramba!É minha vó!
Bem... Bem... Bem... Não vou narrar aqui a conversa que se seguiu depois. Pularemos esta parte.

Miltinho e eu, tomados pela surpresa, resolvemos mostrar as fotos de sua avó para sua mãe.
Não sabíamos como começar as perguntas, estávamos sem jeito, afinal de contas, portávamos um “terrível” segredo familiar.
A mãe de Miltinho, como sempre, muito desconfiada de nós, sem nenhuma formalidade perguntou:
-Tá bom, o que vocês estão escondendo, o que aprontaram desta vez?
Eu estava envergonhado em ter que mostrar fotografias de uma moça nua para uma senhora.
- Mãe, o Marquinhos achou umas fotos da vovó, ela está peladona!
A sala estava repleta de pessoas que faziam os preparativos da festa de casamento da avó de Miltinho, que seria no dia seguinte.
Fomos pegos de surpresa com a presença e com a gargalhada do avô de Miltinho,que não percebemos,estava no fundo da casa. Caminhando em nossa direção , gritou para a esposa que estava na cozinha:
- Minha velha, venha cá! Os meninos encontraram seus retratos!

A avó de Miltinho veio caminhando devagar, estava ruborizada. O avô de Miltinho acomodou-a ao seu lado no sofá. Ele pegou um cinzeiro, acendeu um cigarro, pegou seu copo de cerveja e nos convidou a ouvirmos sua história e de sua noiva:
- Eu era um rapaz bem apessoado, naquele tempo dirigia um caminhão, entregava todo tipo de produto naquele sertão bravo. Conheci muitos lugares e pessoas, vi de tudo na vida. Eu era um aventureiro, um conquistador. As garotas corriam atrás de mim. Aonde eu chegava com meu FNM, logo chamava a atenção. Não parece, mas já fui o sonho de muita garota.
Íamos ouvindo e ríamos com sua risada. O avô de Miltinho era um homem diferente. A cada pausa na história dava uma tragada no cigarro, que logo deixava no cinzeiro e recomeçava:
- Um dia, vindo de Caetité, resolvi subir a serra e passei por Paramirim. Assim que cheguei, parei o caminhão no posto de combustível e atravessei a rua. Quando fui entrar na venda, tive que esperar uma moça passar, a porta da venda era muito pequena, não passavam duas pessoas ao mesmo tempo. Sorri para ela e a segui com os olhos, lá na frente, vi que ela olhava para trás. Já falei que eu era conquistador?
Sorrimos todos.
Aquele homem, pouco a pouco foi mudando o tom de sua voz, falando mais baixo e abraçando sua noiva, que cada vez, ficava mais próxima dele. Ele a abraçava com ternura,como se tivesse medo de quebrá-la,como se ela fosse uma flor de pétalas delicadas. Ela era, era mesmo.


 Afagando os cabelos dela ele continuou:
-A cada vez que passava por Paramirim, eu fazia o possível e o impossível para vê-la. Só depois de meses é que descobri onde aquela moça morava. Então, passei a circular pela rua de sua casa. Demorou mais do que eu esperava, mas um dia ela falou comigo.
A avó de Miltinho continuava ruborizada e sorria timidamente aconchegada ao noivo, ouvia sua história de amor sendo contada para os filhos, netos e alguns amigos privilegiados.
- Mas tive uma decepção, gente. -Falou o avô de Miltinho – Ela era noiva!Estava de casamento marcado!
Mais uma surpresa, ficamos espantados e ainda mais curiosos.
-Eu estava apaixonado e quando ela me contou que iria se casar, não aguentei, fui pro bar de Telefone e tomei um pifão daqueles. E tem outra coisa, acabei conhecendo o pai dela e ele mesmo me convidou para o casamento da filha.
A avó de Miltinho sorriu e comentou:
-Acho que foi você quem se convidou.
O avô de Miltinho tomou mais um gole de cerveja e prosseguiu a narrativa:

- Bom, uma tarde, arrumei um jeito pra poder falar com ela, nesse meio tempo, eu já sabia que ela também estava gostando de mim. Eu tinha certeza que ela não queria se casar com o malacafudo do Gil de Ribamar, um sujeito desclassificado. Mas esqueçam ele...
O avô de Miltinho foi bruscamente interrompido pela neta mais nova, que estava ansiosa pra saber como terminaria a história.
- Que demora vovô!Conta logo!
- Tudo bem. - o avô de Miltinho prosseguiu - Fui ao casamento, fui à igreja, assisti a cerimônia, escutei o sermão do padre, rezei o pai-nosso e bebi muita cachaça na festa. Chamei a noiva para uma conversa e lhe falei: Arrume suas coisas, vamos embora porque eu te amo.
Os olhos da avó de Miltinho estavam úmidos, as lágrimas já rolavam em seu rosto que parecia não querer envelhecer. Ela se aconchegava ainda mais nos ombros de seu noivo. Havia uma cumplicidade entre eles que era inexplicável.
- E pra terminar – disse o avô de Miltinho – fugimos para São Paulo e nunca nos casamos oficialmente, afinal de contas, a avó de vocês ainda estava casada. Agora que sabemos que Gil de Ribamar partiu desta para melhor, vamos nos casar.

A festa de casamento, os dois velhinhos no altar dizendo sim e trocando um beijo apaixonado, jamais sairá de minha memória.
Tempos depois, devolvi as fotografias para o avô de Miltinho.

- Marquinhos, não eram seis fotografias? Aqui só têm cinco!Miltinho me inquiriu.
-Não, são só cinco!
-Mentira!Eram seis!

Uma daquelas fotografias guardei como lembrança, pelo privilégio de ter conhecido uma incrível história de amor.
Hoje, já não há mais invernos intensos e nem mais histórias de amor como antigamente.


Sunday, February 12, 2017

Contos Quase Infantis O Padre Bianca

Contos Eróticos Infantis
O Padre Bianca
Imagem:Internet


   Todos nós, sem exceção, carregamos por toda a vida fatos marcantes de nossa infância. Um dia, lá na frente,vamos sentir saudades de lugares que visitamos,choraremos por coisas e pessoas que deixamos pra trás. Mas também, em algum momento, vamos sorrir das traquinagens e das loucuras infantis. A infância parece nunca ter fim e quando percebemos, somos adultos , amadurecemos, vemos que tudo valeu à pena e passamos a entender melhor a vida.

   Era o ano de 1978 e era época de Copa do Mundo na Argentina. Saíamos do Colégio Mário Rangel e corríamos para o campo do Águia, que ficava do outro lado da rua, na lateral da Igreja São José Operário. No campo, formávamos os times e disputávamos nossa copa do mundo particular.
   Somente aos domingos entrávamos na igreja, íamos à missa e depois, nos reuníamos no campo para nosso jogo sem fim.
   Miltinho e eu não gostávamos de ir à missa, só íamos aos domingos na missa das sete horas, por causa de Cleonice. Miltinho como sempre, desta vez apaixonara-se por ela, aliás, ele se apaixonava por uma nova garota a cada sete dias, sem nunca ter sucesso.
   Cleonice morava no Jardim Lilah e Miltinho me fazia andar quilômetros para passarmos pela rua detrás da casa dela para jogarmos pedra em seu telhado, era a maneira que ele achava que chamaria atenção. O que acabou também não dando certo. O Luiz do bar, percebendo nossa insistência, colocou Duque, seu cachorro pastor alemão para nos dar uma carreira. Miltinho, enfim, para o bem de minha saúde, desistiu de Cleonice.
   Miltinho eu e a turma do futebol, não éramos bem-vindos nas missas. O padre Emílio nos marcava sob pressão, nos vigiava o tempo todo e quando falávamos mais alto nos chamava à atenção. Foi em um desses domingos que o Padre Emílio apresentou uma nova pessoa para nossa comunidade, era Eliel. Eliel lhe ajudaria nas celebrações. Ele seria o novo diácono.
   Eliel lia os folhetos, cantava e também usava uma roupa igual a do padre. Ao ver Eliel falando para as pessoas na igreja, Miltinho perguntou em voz alta:
   - Padre Emílio, esse é o novo padre?
   Padre Emílio, rindo da pergunta de Miltinho e explicando calmamente, disse:
  - Não meu filho, ele é diácono, vai me ajudar nas coisas da igreja.
   Para surpresa de todos e nossa vergonha descomunal, Miltinho, lá do fundo da igreja gritou para o coitado do Padre Emílio:
   -Ele é padre sim! Ele usa vestido, igual ao senhor!
   O domingo foi de sol.

   Eliel gostava de futebol e junto com o Genésio, resolveu montar para nós um time de futebol. E era um time com uniformes e etc.
   Genésio não tinha uma boa reputação no bairro, diziam que ele era “macho e fêmea”. Usavas as unhas pintadas e quando conversava afeminava a voz.
   Eliel ficou muito amigo de Genésio, começou a passar várias horas por dia em sua casa,os dois eram fãs de Ney Matogrosso.Aquela súbita e estreita amizade despertou a curiosidade da molecada.Os meninos mais velhos faziam campana ao lado das janelas da casa de Genésio,tentando ver ou ouvir o que se passava lá dentro...

   Finalmente chegou o dia de estrearmos o time e os uniformes, estávamos ansiosos para a disputa de nossa primeira partida “oficial”. Genésio e Eliel nos davam as últimas instruções.
   O jogo começou e nada dava certo pra nós, só na metade do primeiro tempo, já perdíamos por três á zero! Manezinho, um conhecido malandro do bairro, também assíduo frequentador da casa de Genésio, gritava do lado do campo:
   - Ô Genésio! Ô Bianca! Arrumem esse time!
   Ouvimos os gritos de Manezinho, Miltinho olhou pra mim, olhei pro Alemão que olhou para o Adir,que olhou pro Ciro e ao mesmo tempo,tomados pela surpresa, nos perguntamos uns aos outros:
   - Bianca?!!
   Bianca era o nome de “guerra” de Eliel. Depois de nosso espanto, Manezinho nos revelou que ele, Genésio e Eliel, ganhavam um dinheiro extra, “conversando” dentro de carros com velhos ricos, lá na Avenida São Gabriel.

   O último domingo de novembro de 1978 foi o último dia em que vimos Eliel. Antes que a missa terminasse o Padre Emílio informou que era aniversário do Diácono Eliel e todos cantaríamos parabéns para ele. A igreja esta cheia, toda a comunidade estava presente naquele dia, os times que jogariam depois da missa, até o Manezinho estava lá.
   A banda começou a tocar o Parabéns pra Você, o padre começou a cantar, tudo caminhava para um final feliz, até que...Miltinho com a voz esganada puxou outro coro:
   - E pra Bianca nada?
   Nem seria necessário dizer que não houve festa.

   O tempo passou, o time acabou e o famoso campo do Águia deu lugar ao comércio e a uma agência do Bradesco. Anos depois soubemos da morte de Genésio, com uma doença grave, teve medo de morrer só, atirou-se de uma ponte.
   Passamos muitos anos sem notícias de Eliel, até que Miltinho voltando depois de trinta dias de férias em Governador Valadares, bateu na porta de casa de madrugada e me contou eufórico:
   - Marquinhos!Sabe quem eu vi?
   - Sei lá!
   - Marquinhos, encontrei o Eliel!
   - Onde?
   -No circo!
   - Ele tava fazendo o quê lá? Miltinho, ele te viu?
   - Ele é artista agora! O nome dele é Bianca Matogrosso!
   Deveria ser obrigatório haver sol em todos os lugares do mundo, todos os domingos.


Wednesday, November 02, 2016

Análise Direta: Marcos Teles

O escritor e músico Marcos Teles fala sobre  o livro Palestra Lágrimas Futebol Clube e vários assuntos no Programa Análise Direta.

Monday, October 17, 2016

XXII Brooklinfest 2016

Escritor Marcos Tecora Teles do Capão Redondo Zona Sul da Cidade de São Paulo estará nas ruas do Brooklin. Com obras publicadas na França e no Brasil.
Tema Bildung(formação).
X
XII Brooklinfest 2016 nos dias 22 e 23 de outubro celebrará a obra de Marcos Tecora Teles,escritor da Literatura do Capão Redondo.
Livros:
O azul do Céu Histórias das Ruas
Je suis Rio Editora Ana Caoana França
Palestra Lágrimas Futebol Clube
Os eventos do Brooklin realizados pela Associação do Brooklin criam alinhamento
entre pessoas e suas obras.A cultura brasileira com dimensão universal.


Luiz Delfino Cardia.

Sunday, October 16, 2016

Grandes Manipulações no Futebol - História Verídica



Grandes manipulações no futebol.Essa é uma das verídicas:

Em 1977 foi lançado pela Rede Globo o slogan “O CORINTHIANS VAI SER CAMPEÃO. A REDE GLOBO GARANTE!”.
Tratava-se de um torneio onde só participavam times que tivessem o nome de Corinthians e pela lógica só um time com esse nome seria campeão. Ao mesmo tempo, o Sport Club Corinthians Paulista, há vinte e três anos na fila, tinha um desempenho no Paulistão pra lá de incentivado pela arbitragem e, na final contra a Ponte Preta (time infinitamente superior), estranhamente teve seu centroavante Rui Rey expulso por Dulcídio Wanderley Boschilla no começo da partida. Dias depois, Rui Rey ouvia tocar a sirene do Parque São Jorge em sua homenagem, como reforço recém-contratado para a temporada de 1978. A história não mente.
Interessante lembrar este slogan, : "O CORINTHIANS VAI SER CAMPEÃO. A REDE GLOBO GARANTE!"
Texto internet.Resposta no blog do Odir Cunha.


Saturday, June 25, 2016

Contos Quase Infantis - Com Chocolate nas Veias


Contos Eróticos Infantis
Com Chocolate nas Veias
Imagem:internet

Quando meu tio me levou para trabalhar em sua fábrica de sapatos femininos no Itaim - Bibi, muitas coisas mudaram em minha vida. Foi lá que aprendi, que às vezes precisamos  amadurecer antes da hora.
E foi lá também que conheci muitas pessoas bacanas. Com algumas daquelas pessoas, fiz amizades duradouras, com muitas outras sempre tive um pouco de receio de me aproximar.
Foi lá, na fábrica de sapatos de meu tio que me tornei quem sou.
Meu tio sempre foi muito generoso e também se encarregou de arrumar um emprego para Miltinho, na Esfiharia do Jaber, na Rua Tabapuã.
No edifício ao lado da esfiharia, morava Lili, uma menina gordinha, sorridente, simpática, de olhos castanhos e...linda!
Como eu já imaginava, Miltinho apaixonou – se platonicamente por ela. Durante meses, Lili era a única palavra que saía da boca de Miltinho.

Na fábrica de sapatos, uma das minhas responsabilidades era comprar materiais para a confecção dos calçados. Três vezes por semana, eu tinha que ir até a Rua Maceió comprar couros.
 Meu trajeto até o ponto de ônibus, era da Rua Bandeira Paulista até a Avenida Cidade Jardim, onde eu embarcava no Trólebus que subia a Rua Augusta.
Lili também tomava o mesmo ônibus e fazia o mesmo trajeto que eu. Acabamos ficando amigos. Lili fazia curso de fotografia no centro da cidade. Ela também ficou amiga de Miltinho.
Ainda me lembro do primeiro assunto ente Lili e eu. Conversamos sobre a notícia que mais se comentava naqueles dias. Naquela época, no início dos anos oitenta, muita gente desaparecia misteriosamente na cidade de São Paulo. No Itaim – Bibi, havia confirmações de que muitas garotas desapareceram sem deixar vestígios. A polícia dizia para as famílias que, provavelmente, elas haviam fugido com os namorados...

Uma das figuras mais estranhas que conhecemos no Itaim – Bibi foi Guido. Ele era o mestre chocolateiro da fábrica de chocolates, na Rua Joaquim Floriano. Guido não trabalhava todos os dias, ficamos sabendo que ele só trabalhava as noites em que formulava novas receitas para os bombons.
Na fábrica de chocolates, eram produzidos os melhores bombons do mundo. Nunca houve nada igual.
Logo descobrimos os dias em que Guido havia ido trabalhar. Assim que descíamos do ônibus na Avenida Nove de Julho, imediatamente, sentíamos o aroma que exalava das chaminés da fábrica de chocolates. Aquele cheiro inconfundível nos inebriava.

Guido era realmente um homem muito esquisito, parecia muito jovem, mas  ao mesmo tempo, também aparentava ser velho.Usava roupas pesadas e estava sempre vestindo um grande casaco preto.Usava cachecóis que lhe cobriam o pescoço e parte lhe escondia a boca.Guido também nunca retirava o chapéu.Parecia estar sempre tentando esconder alguma coisa.
Quando saía da fábrica, após seu turno de trabalho, ritualísticamente, ia tomar  café na padaria na Rua Doutor Renato Paes de Barros e ficava por lá, até o horário em que os alunos  saiam do colégio.Ele era conhecido dos jovens do bairro e gostava de conversar com eles,principalmente com  as garotas,todas,sem exceção,adoravam Guido.Ele sempre levava consigo,pacotes daqueles maravilhosos bombons.Quando chegava em gente ao colégio,era um alvoroço,as garotas já sabiam que ganhariam chocolate.

Miltinho não gostava de Guido, sempre que o via passar, comentava com  preocupação:
- Marquinhos... Marquinhos... Marquinhos, esse cara é louco.
- Que é isso, Miltinho? Deixa o homem em paz!
Miltinho insistia:
- Veja bem! Ele é jovem, usa essas roupas de idoso, todo estranho, não sei se você percebeu...
- Percebeu o quê?
- Ele vive com frio! E as mãos dele? Quando cumprimenta a gente, as mãos dele são geladas!
-Deve ser por causa da fábrica, lá tem muitas geladeiras.
-Marquinhos, na fábrica tem um monte de fogão gigante. Lá dentro deve ser um calor dos infernos.
Comecei a ficar encucado com Guido...

Miltinho esta cada vez mais apaixonado por Lili. Falava dos seus planos ao lado dela,chegava a imaginar a festa de casamento. Miltinho estava alucinado de amor e a todo instante me pedia opinião:
- Marquinhos, você acha que devo me declarar pra ela? Devo dizer que estou afim?
-Sei lá, você é quem sabe.
-Eu penso em falar pra ela, mas tenho medo.
-Ué! Medo do quê?
- E se Lili me der um fora? Vou perder a amizade dela. Você não acha melhor eu sofrer calado no meu canto e poder estar sempre perto dela, do que nunca mais poder vê-la?
Miltinho até que tinha alguma razão. Além do receio de perder Lili de uma vez por todas, ainda havia a diferença de classes. Lili era uma garota rica do Itaim- Bibi e ele, um garoto pobre do Capão Redondo.
Sempre soubemos que um garoto pobre do Capão Redondo era obrigado a sofrer calado.


Miltinho passou abertamente a odiar Guido, depois que o chocolateiro começou a galantear Lili. Todos os dias, Guido enviava bombons e bilhetes para Lili e ela parecia gostar de ser cortejada pelo chocolateiro.
Miltinho estava incomodado com aquela situação e ficava cada dia mais nervoso:
- Marquinhos!Vou matar esse cara!
Eu tentava lhe acalmar:
-Você está louco, Miltinho?Não tem nada demais, são amigos.
Miltinho se calava e eu sabia que sofria muito.


Ficamos profundamente entristecidos quando Suzi desapareceu. Suzi era uma garota bacana, ela trabalhava na loja da Levi´s na Rua João Cachoeira. Ela sempre nos ensinava sobre política. As pessoas diziam que, como tantos outros, Suzi havia sido presa pela ditadura.

Meses depois do desaparecimento de Suzi, fomos à festa de aniversário do Nego Teta, estávamos  animados,todos os nossos amigos compareceram,o pessoal do colégio,da Favela da Funchal e até o pessoal do Clube do Mé.Guido também estava na festa do Nego Teta.
Miltinho não se sentia confortável, estava encabulado e não tirava os olhos de Guido e Lili.
Guido falava ao ouvido da garota,ela sorria,parecia bem à vontade com a conversa do chocolateiro.
Vindo rapidamente em minha direção, Miltinho decidiu:
- Marquinhos, vou falar com ela, vou me declarar! Que se dane!
Miltinho atravessou o salão e foi até onde estavam Lili e Guido, chamou Lili em um canto, disse - lhe algo e voltou:
-Pronto! Falei pra ela.
- E o que ela disse?
- Que vai pensar...
A festa acabou naquele instante para Miltinho e eu, saímos do salão sem que ninguém nos visse. No caminho para o ponto de ônibus, resolvemos parar no Jack in The Box para comermos hambúrguer e tomarmos Coca-Cola, era uma maneira de esfriar a cabeça e aplacar um pouco da tristeza e Miltinho.
Mas aquela noite ainda estava longe de acabar...
Quando saíamos da lanchonete, vimos um casal que entrava na rua que dava para os fundos da fábrica de chocolates, reconhecemos Guido, que vinha segurando o braço de Lili.
Miltinho me puxou e me convenceu a seguir os dois.
Ainda de longe, observamos Guido e Lili entrarem na fábrica de chocolates. Depois de algum tempo em que os dois já se encontravam lá dentro, nos aproximamos da porta e encostamos nossos ouvidos para tentarmos captar qualquer barulho que pudesse vir lá de dentro.
Miltinho estava morrendo de ciúmes e sentia-se derrotado. Era nítido seu olhar de angústia e decepção.
O tempo passava e só ouvíamos o barulho de metais. De vez em quando escutávamos bem baixinho a voz de Guido sussurrando palavras ininteligíveis. Apuramos um pouco mais nossa audição e enfim, ouvimos claramente a voz de Guido, que falava  em um idioma que até então não conhecíamos.

Tentei convencer Miltinho  a sairmos daquele lugar, disse – lhe que aquilo era perder tempo, que não adiantava mais sofrer,que era melhor partir pra outra.
Miltinho já havia se convencido em irmos embora, Mas um grito de pavor nos congelou a espinha. Desesperada, Lili pedia socorro, gritava alto e chorava aterrorizada.
Miltinho e eu não tivemos dúvidas, começamos a gritar, chutar e tentar arrombar a porta.
Repentinamente, fez – se um brevíssimo silêncio e em seguida, ouvimos passos apressados se afastando lá dentro.

Do lado de fora, Miltinho  eu continuávamos tentando arrombar a porta da fábrica de chocolates.Pensei em pedir ajuda,mas a rua estava completamente deserta aquela hora da noite.Também pensei em ir até a delegacia,mas Miltinho achava que talvez não desse tempo de salvar Lili.
Miltinho raciocinava rápido e viu um pequeno vitrô sobre a pequena porta e me falou;
- Sobe nas minhas costas, vai!
Miltinho se abaixou, coloquei meus pés em seus ombros e pulei. Com muito esforço alcancei a borda do vitrô. Dei um soco com todas as minhas forças, o vidro se quebrou e me esgueirei para passar pelo vão ínfimo.
Caí dentro da fábrica de chocolates e abri a porta para que Miltinho também entrasse. Lá dentro, caminhamos por um pequeno corredor e acabamos dentro de uma grande cozinha, repleta de caldeirões fervendo leite e chocolate, máquinas e utensílios diversos. Sobre uma bancada, amarrada e nua, encontramos Lili.


A polícia foi até a casa onde Guido morava. Uma mansão sombria na Rua Mário Ferraz. Lá, encontraram um verdadeiro tesouro. Obras de artes de valor incalculável. Quadros tão antigos quanto se podia imaginar, impossível  datar quando foram pintados,talvez milênios.
O que realmente chamou a atenção da polícia foi a quantidade das belas estátuas espalhadas por toda a casa. Estátuas esculpidas com chocolate e em tamanho natural. Elas exalavam aquele aroma inconfundível  que saía das chaminés da fábrica.
Um caminhão foi chamado para transportar tudo o que fora  apreendido na  casa de Guido.
Quando começaram a carregar as estátuas, a surpresa foi aterradora, as estátuas eram feitas para esconder os cadáveres das garotas desaparecidas.

 Ficamos ainda mais chocados e assustados quando soubemos a forma com que o chocolateiro assassinava suas vítimas. Guido colocava entorpecentes - que ele  mesmo sabia preparar - dentro dos bombons que oferecia para as garotas que escolhia como vítimas.
Guido levava as garotas já dopadas para a fábrica de chocolates, depois de violentá-las e cometer todo tipo de crueldade, usava a máquina de filtrar o leite para lhes retirar completamente todo o sangue. Depois, injetava  nas veias das meninas,calda quente de chocolate. Com o sangue das garotas, ele produzia o ingrediente secreto que colocava em seus bombons.


O tempo passa mais rápido, quanto mais vamos amadurecendo.
Para decepção de Miltinho, Lili foi morar na Alemanha e não tem intenção de voltar.
Guido desapareceu, não deixou nenhum rastro.


Ah! Quase me esqueci de falar sobre Sara...
Sara era neta do judeu, dono da loja de couros, aonde eu ia três vezes por semana fazer compras. Miltinho conheceu Sara e claro, também ficou completamente apaixonado por ela.
Com Sara ele não quis perder tempo, em uma festa na casa do Nego Teta, Miltinho decidiu declarar seu amor infinito a ela. Preparou-se e foi todo confiante e com ar de conquistador experiente. Chegou perto da moça e não teve dúvidas, disparou:
- Sara, você é linda, eu te amo e estou afim de namorar contigo!
Ao ouvir a declaração de Miltinho, Sara, do alto de seus vinte e sete anos, não pensou duas vezes:
- Se enxerga moleque! Você acha que tenho cara de babá?

Miltinho e eu, até hoje, até hoje, odiamos chocolate.