Marcos Tecora Teles

Marcos Tecora Teles
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Monday, September 21, 2020

 



Está chegando minha loja virtual!

Toda minha obra para baixar!

www.marcostecorateles.com.br

Tuesday, July 28, 2020

Perdidos no Espaço

Imagem:Internet

O Covid- 19 veio nos dar uma grande lição,a lição de que ainda não sabemos de nada.
Estamos todos girando no espaço,dentro de uma bola de terra,ferro e água.
Ainda buscamos as respostas para as três questões que nos afligem desde os primórdios;de onde viemos,se estamos sozinhos no universo e para onde vamos.
Uma lição aprendemos nos últimos tempos,certamente,não estamos sozinhos no universo;estamos perdidos no espaço.

Tuesday, May 12, 2020

LIteraLive!


Dia 20 de maio de 2020!
Das 19:00  horas às 20:00 horas.

Thursday, May 23, 2019

Descobrindo os Segredos


Imagem:internet


Um dia você acorda e passa a ver o mundo de outra forma.Tudo o que você pensou saber ontem,não passa de fantasia,era apenas um sonho que você viveu toda sua vida.
Em um dia qualquer do ano de 2006,recebi uma mensagem no extinto ORKUT,era uma pessoa que se identificou como Justine,disse que fazia parte de um grupo de ativistas por direitos humanos e que gostaria de contar com minha colaboração,de alguma forma.
Passei a receber informações que jamais imaginaria.Passei a conhecer o mundo real.
Eu acreditava em muita coisa,no que via em reportagens, no que lia em livros,percebi que cada um defende sua verdade e busca somente privilégios e poder.
Minha primeira participação com o grupo foi na chamada Primavera Árabe,foi aí que vi um mundo novo se descortinando e entendi verdadeiramente que a informação é poder.
Eu não acredito em quase ninguém,as pessoas ouvem mas não escutam,enxergam e não veem.
Eu achava que Teoria da Conspiração fosse coisa de maluco.Mas não é bem assim.Minha forma de pensar e enxergar o mundo,mudou no dia em que recebi um arquivo,alguns filmes e documentos que me fizeram passar dias encabulado. O mundo real é diferente!
Sinto imensa tristeza em ter tanta informação e não poder passar para todos,saber como as coisas funcionam é doloroso.Saber que uma guerra é programada,uma crise econômica é deflagrada em jantares,onde reúnem-se meia dúzia de homens poderosos,sem escrúpulos e sem remorsos.Esses mesmos poderosos que nos escondiam o progresso,que guardavam segredos milenares.Mas hoje,hoje está diferente.Eles sabem que tem um grupo de "malucos" de várias partes do mundo que se juntam e que  na frente de um computador e movem o mundo com as pontas dos dedos.Quantos governos caíram?Quantas verdades vieram à tona? E vem muito mais,acredite!
Talvez fosse interessante que todos conhecessem o mundo real, mas infelizmente,nem todos estão dispostos a sair do conforto da mentira que nos fazem engolir todos os dias.
Anonymous

Thursday, October 05, 2017

Ninoska E As Garotas de Sarajevo





Morte e Vida

Eu apareci em uma manhã fria.
Fui encontrada dentro de uma caixa de papelão, na porta de uma casa de um casal
de agriculturoes em uma pequena cidade de Santa Catarina. Dentro da caixa,
sobre meu corpo, havia um pedaço de papel com uma única frase: “ O nome dela é
Ninoska. ”
Tive uma infância normal como qualquer menina, não me lembro de muita coisa,
lembro que nunca chorei.
Sei que o tempo passou depressa pra mim. Quando me dei conta, eu já era uma
garota com um metro e oitenta de altura, cabelos negros e olhos azuis.
Nunca encontrei meu lugar no mundo.Mas sempre fui uma garota forte.
Perdi meus pais adotivos ainda na adolescência. Um louco, dirigindo bêbado em
alta velocidade os matou atropelados, enquanto caminhavam, pelo acostamento da
estrada. Meus pais vinham do sítio, onde passaram o dia trabalhando.
Fui morar com uma tia, irmã de meu pai, uma mulher interesseira e cruel, roubou
tudo o que me restou. Depois de me explorar de várias formas, me inscreveu em
um concurso de Miss e depois me entregou para duas mulheres, que me disseram
que eu seria modelo de sucesso.Nem preciso dizer que não foi nada do que me
prometeram.
Cheguei em São Paulo e fui apresenada à uma agência de modelos, o trabalho?
Demonstrar produtos em lojas e supermercados. Aquilo não era nem de longe o
que eu havia imaginado.
O dinheiro era pouco e tinha os malditos convites indecentes.
Larguei tudo e fui procurar um emprego fixo.
Durante um tempo, até que as coisas andaram bem.Estava morando em uma
kitinete no bairro da Bela Vista, conseguia pagar as contas em dia e até me divertia
na noite.
Nunca entendi porque a vida passava mais depressa para mim do que para os
outros.
Perdi o emprego e tive que deixar a quitinete, fui morar no Capão Redondo.Um
rapaz que conheci, Gustavo, me arrumou uma casa lá.Era um cubículo úmido, em
um quintal com outras seis casinhas. A rua era cheia de bares, dia e noite, carros
com som alto. Os meus vizinhos também pareciam surdos, ouviam suas músicas no
último volume e cada um escutava um estilo musical, um inferno.
Às vezes, Gustavo aparecia por lá, somente nos dias em que estava bem, ele era um
rapaz bonito, educado, parecia ser de família classe média alta, mas não tinha total
sanidade mental.Mas eu gostava dele, me sentia segura e protegida em sua
companhia.O problema é que ele sempre arrumavava um motivo para
desaparecer, às vezes saia sem destino, viajava para vários lugares que chamava de
místicos, para vender artesanato.
Quando tudo está ruim a gente acha que não pode piorar, engano, as coisas
ficaram horríveis para mim.
Eu já não tinha trabalho fixo, dia sim, dia não, eu não acordava bem, e depois de
um tempo comecei a ter febre todas as tardes.Eu não tinha plano de saúde,
dependia do serviço público, porém, me faltava dinheiro para sair.
Comecei a atrasar o aluguel, a empresa de energia cortou a minha luz, também
não tinha mais gás no fogão.
Mesmo me sentido mal, saía cedo e voltava tarde da noite, para que o senhorio não
me cobrasse os meses de aluguel atrasados.Perambulava pelas ruas até que
encontrei uma oportunidade em uma empresa de cobrança.
Preparei um currículo e no outro dia cedo fui entregar e passar por uma entrevista
de emprego. Deu certo, seria contratada, bastava fazer o exame médico
admissional.
O rapaz da empresa me deu o endereço da clínica, meu coração estava aos
sobressaltos, ansiosa, enfim, um trabalho. Vida nova.
A recepcionista da clínica me chamou e me pediu para entrar no consultório, um
médico jovem e simpático me convidou a sentar e começou a fazer perguntas:
-Você sente alguma coisa?
-Não.Me sinto ótima.-respondi titubeante, há dias não me sentia bem.
-Vamos medir sua pressão, sua temperatura, tudo bem?
-Tudo bem.
O médico colocou a mão em meu rosto e me falou:
- Você está com febre.
Tentado convencê-lo, lhe falei:
-Deve ser o calor, vim correndo.
Ele não acreditou no que lhe disse, saiu da sala e depois voltou com outro
médico.Os dois converasarm baixinho por alguns instantes, aproximaram-se de
mim e me disseram:
-Vamos precisar fazer alguns exames, é para o seu bem.
Naquele momento eu só queria um laudo me liberando para o trabalho, não sabia
da gravidade de minha situação.
Os médicos me deram um remédio, pouco tempo depois duas enfermeiras me
pediram para subir em uma maca, me levaram para a porta da clíncia onde uma
ambulância estava me aguardando.
Cheguei ao Hospital das Clínicas e fui atendida imediatamente, me levaram para
uma sala e começaram a me examinar, foi demorado. Eu estava assustada como
nunca estivera antes.
Depois dos exames, me colocaram em um quarto, lá fiz a primeira refeição do dia,
me disseram que os médicos viriam falar comigo, esperei, esperei...enfim, eles
entraram.
Um dos médicos começou a me fazer perguntas:
-Quantos anos você tem?
-Acho que 26.
-Acha? Como acha? -O médico perguntou surpreso.
Tive que lhe contar a minha história e ele teve pena de mim.Segurando em minhas
mãos me falou com imenso carinho e piedade:
-Olha, nós vamos cuidar de você, vamos fazer o possível para te curar.
Fiquei ainda mais assutada.
- Você está doente, com um tumor agressivo no pâncreas.
Eu tentei chorar, lembrei que sempre fui uma garota forte, mas meu mundo estava
desabando.
Quando tudo parecia ruim o médico me deu mais uma notícia que foi o nocaute
definitivo:
-Você está com uma gravidez de cinco meses.
Era tudo o que eu não precisava, um câncer letal e uma gravidez, sinceramente,
era muito azar para uma única pessoa.
Atordoada e sem rumo, me disseram para ir para casa e que voltasse dois dias
depois, iriam procurar a melhor forma para começar o tratamento.
Saí do hospital carregando minha sentença de morte.Eu estava só, não tinha com
quem desabafar, lamentar. Por horas só pensei na ponte mais alta de onde eu
poderia me atirar, saltar nos trilhos do metrô. Eu só pensava em morrer depressa,
seria melhor do que ficar trancada no quarto de um hospital esperando a morte
me cerrar os olhos.
A chuva caia forte e silenciosa, caminhei até a estação do Metrô, minhas roupas
estavam encharcadas. Uma de minhas tias, por não ver chorar me disse um dia:
“Chega uma hora em que você sentirá tanta tristeza, que lágrimas escaparão de
seus olhos e escorrerão pelo teu rosto cansado, algumas gotas ficarão depositadas
por alguns segundos em teus lábios, então você sentirá o gosto das emoções que
passou a vida inteira tentando esconder. ” Minha tia tinha razão.
O trem encostou na plataforma, àquela hora da noite, não estava muito cheio,
ainda havia um assento vago, sentei e me entreguei aos pensamentos. Eu pensava
em como a vida é injusta, carregava no ventre as duas coisas mais importantes
para os seres humanos. Eu carregava ao mesmo tempo uma nova vida e a morte.
Ainda entregue aos pensamentos e sentimentos diversos, não havia percebido que
uma garotinha entrara na estação anterior. Ela segurava na mão de um senhor
muito idoso. Como não me sentia fraca, cedi-lhes o lugar.
A garotinha pediu para segurar minha mochila, eu fiz um gesto dizendo que não
precisava, ela insistiu:
-Me dá! Eu levo, você é educada! - Depois completou: -Você é linda!
Retribui os elogios com um esboço de sorriso.
A garotinha e o velhinho não tiravam os olhos de mim.Olhando pelo reflexo da
janela do vagão, os via cochichando e sorrindo em minha direção.
Os altos –falantes do metrô anunciaram a próxima estação, a garotinha fez um
sinal com o dedo, me chamando para que eu colocasse o ouvido perto de sua
boca.Quando encostei, ela me fez um carinho e disse baixinho em meu ouvido:
-Não se preocupe, Ninoska, tudo vai dar certo.
Por um milésimo de segundo, senti um calafrio, uma luz intensa invadiu meus
olhos.
A garotinha desceu na estação. Quando ela entrou com aquele velhinho no trem,
achei que estavam juntos, mas para minha surpresa, ao desembarcarem na
estação, cada um tomou uma direção. Tentei acompanhar à distância o caminhar
lépido da garotinha, a perdi de vista, ela desapareceu na escada rolante.
As palavras dela me deixaram curiosa, ela sabia meu nome. Talvez, também
soubesse o que eu estava sentindo.
Quem era aquela garotinha? Fiquei horas me perguntando.
O que ela viu em mim? Minha beleza? Meu tamanho?
O que sei é que por um tempo ela me fez esquecer um pedaço do dia triste que
estava vivendo.
Quando o trem começou a fechar as portas, para minha surpresa ela surgiu
novamente e gritou para mim:
-Ninoska! O segredo é Destino!
A Caixinha

Desembarquei na Estação Capão Redondo, ainda chovia, mas a chuva já não era
tão intensa, andei depressa para tomar o ônibus para o Jardim Comercial. Queria
chegar em casa e já não estava tão preocupada em encontrar o senhorio, iria dizer
logo pra ele, que não se preocupasse com os aluguéis, porque eu estava condenada
e em poucos dias ele poderia alugar a casa para outra pessoa.
O ônibus não demorou, a viagem foi rápida, pouco mais de dez minutos.
Desci no ponto na entrada da rua, normalmente, àquela hora os bares estavam
sempre abertos e lotados de bêbados e desempregados, mas naquela noite não,
estavam fechados. Achei incrível, eu podia ouvir o som do silêncio que jamais
poderia imaginar haver naquele pedacinho do inferno.
Ao abrir o portão dei de cara com o senhorio, respirei fundo e quando me
preparava para lhe dar a minha terrível notícia ele me falou contente:
-Boa noite! Quitaram seus aluguéis, viu? Outra coisa, religaram sua luz e o
caminhão do gás deixou um botijão na sua porta.Quer que eu troque o botijão pra
senhora?
Surpresa, logo pensei em Gustavo, achei que ele deveria ter aparecido e
conversado com o senhorio.Mesmo assim eu quis confirmar:
- Quem pagou tudo isso?
-Os aluguéis, depositaram em minha conta, o resto eu não sei dizer.
O senhorio trocou o botijão, fui tomar um banho e me preparei para fazer um
café.
A incerteza de meu futuro já começava a me atormentar, eu sabia que não teria
muito tempo de vida, ouvi os médicos falando baixinho que eu só resistiria durante
cinco e seis meses. Não chorei. Só pensava naquela vida que estava dentro de mim.
Um pensamento me confortou um pouco.A criança tinha um pai, Gustavo tinha
família e poderiam criar meu bebê. Mesmo depois que eu partisse, um pedaço de
mim continuaria a existir.
Coloquei o café no copo e fui tirar minhas coisas da mochila. Retirei lá de dentro a
blusa, o estojo de maquiagem, um par de tênis e o telefone descarregado. Também
havia algo que tinha certeza não ter colocado na mochila, uma caixinha de
madeira forrada de veludo.Pensei até que alguém trocara minha mochila no
hospital, não houve engano, era a minha mesmo, exceto a caixinha, as outras coisas
me pertenciam, alguém a colocou lá.
A caixinha era linda, feita com capricho, era um artefato antigo. Havia uma
pequena peça que a trancava, um segredo de cofre, com letras no lugar dos
números.Novamente aquele calafrio e aquela luz intensa me atingiram.
Tive certeza, foi a garotinha do trem quem a colocou em minha mochila.Também
tive certeza que se tratava de um presente.
Intrigada com a caixa, não consegui pegar no sono, segurava a caixinha, olhava a
riqueza dos detalhes, até que me lembrei das palavras da menina.
Devarinho fui colocando os dedos na pequena fechadura, fui digitando letra a letra
a palavra; D-E-S-T-I-N- O.
A pequena caixa se abriu, dentro dela um lindo colar, um par de brincos, um
pequeno lenço de seda e um caderninho.
Fiquei ainda mais surpresa com a capa do que parecia ser um diário, o pequeno
caderno tinha a capa de camurça vermelha, as bordas eram enfeitadas com filetes
dourados, havia uma plaquinha de ouro onde estava escrito; Ninoska.

O Caderno

Abri o diário de Ninoska, as palavras estavam escritas com tinta dourada e em
uma língua que demorei a identificar, era bósnio.
Folheei cada página, e aos poucos aquele idioma, de alguma forma, ia parecendo –
me familiar.
Eu estava exausta, muita coisa me aconteceu naquele dia, fui procurar o sono.
Não tenho certeza se já dormia, de repente, comecei a sonhar que lia aquele
caderno e no sonho eu podia ouvir a voz de sua dona lendo comigo em voz alta:
“- Me chamo Ninoska e minha história não é muito diferente da história de
qualquer garota. Apareci em uma manhã fria de dezembro. Fui encontrada dentro
de um cesto, na porta de uma casa humilde de um casal de operários em Sarajevo.
O tempo parece ter passado mais depressa pra mim do que para os outros.
Tive uma vida normal como quase toda garota.Perdi meus pais e irmãos em 1992,
na guerra dos Balcãs, nosso povo quase foi dizimado em um dos maiores
genocídios da história.
Nossa cidade foi bombardeada, perdemos nossas casas, nossa identidade e nosso
futuro.Foram tempos terríveis.
Eu era a garota mais bonita de Sarajevo, era a favorita no concurso de Miss que
organizaram para chamar a atenção do mundo, denunciando aquela guerra
desigual e estúpida.
Infelizmente não pude ser Miss, na semana do concurso fomos expulsos de nossa
terra, fugimos para os campos de refugiados na fronteira com Montenegro. Dias
de caminhada, frio, fome, medo e incertezas. Procurávamos uma nova pátria, um
país que nos acolhesse.A Europa nos fechou as portas, éramos um povo errante e
assim passaram-se meses para alguns e anos para outros.
Na fronteira com Montenegro, armou-se o acampamento, milhares de pessoas
acotovelam-se naquele lugar. O frio glacial, a falta de remédios, de roupas, comida
e água, nos atormentava o tempo todo.As tropas da ONU estavam lá, não sabíamos
se nos protegiam ou nos vigiavam, erámos prisioneiros da ganância e do poder.
A guerra me deixou sequelas psicológicas, passei a não distinguir a realidade da
fantasia.Estava ficando louca.Passava horas do dia procurando uma maneira de
acabar com minha própria vida, já não suportava viver daquela maneira. ”
Eu estava sentindo o que Ninoska narrava em sua história, podia sentir o frio, a
violência, também podia ouvir as metralhadoras vomitando chumbo e as bombas
caindo sobre as casas.Parecia que algo nos unia, talvez fôssemos parte de uma
mesma história:
“-A cada dia chegavam mais pessoas, mulheres, idosos, crianças, pessoas com
deficiência, sabíamos que muitos não sobreviveriam sem ajuda, ajuda que aliás,
quase nunca chegava.
Minha sanidade estava comprometida, muitas coisas começaram a acontecer a
minha volta e eu não conseguia distingui-las.
Em uma tarde de muita neve, me perdi na tempestade, comecei a gritar
desesperada, aquele foi um dos poucos dias em que não havia pensado em me
matar.
Na minha loucura, imaginei que passei a tarde comprando perfume em Paris, que
passeei pelas ruas de Milão experimentando os casacos, que também caminhei em
Nova Iorque e dei gorjetas para um belo rapaz que tocava saxofone na Quinta
Avenida, imaginei que fiz tudo o que uma garota sonha fazer.
Eu não consegui terminar meu passeio, minhas compras. A tempestade de neve me
envolveu, porém, senti uma pequena mão segurando a minha. Uma linda
garotinha me salvou, ela sorriu e falou no meu ouvido:
-Não se preocupe, Ninoska, tudo vai dar certo.
A tempestade acabou, tudo ficou calmo e pude ver um céu estrelado, igual ao céu
de Sarajevo. ”
A Flor Iluminada

Eu tentava acordar, mas as palavras escritas em dourado e a voz de Ninoska
continuavam em minha cabeça:
“- Fazia alguns meses que eu estava no acampamento, e até o acontecimento da
neve, ainda não tinha cruzado com aquela garotinha, mas eu tinha plena certeza de
que ela sempre esteve ali.
Ela ficou muito próxima de todos, estava sempre alegre, sempre limpa,
definitivamente, ela não fazia parte daquele lugar. Ela conversava com os
soldados, com os poucos médicos e enfermeiros que de vez em quando aparecia por
lá. Ela sempre desaparecia por horas e depois voltava trazendo alguma coisa,
trazia uma garrafa de água, um pão e até flores. Aquela garotinha nos contava
histórias fantásticas, todos acreditávamos que tudo era fruto de sua imaginação
infantil.
Uma de suas histórias era sobre sua casa e sua rua. Nos dizia que morava em uma
pequena rua de Sarajevo e que em sua rua só havia sua casa.Nos contava sempre
que quando anoitecia, sua rua se iluminava, os paralelepípedos ficavam coloridos e
brilhavam, como uma iluminação de um grande espetáculo, e que no jardim de sua
casa havia uma árvore que brotava uma flor que era iluminada e que tinha um
perfume que só existia naquela única flor. Dizia que através daquela flor, sua mãe
surgia todas as noites.
Algumas pessoas diziam a ela que tal lugar não existia em Sarajevo. Ela sorria e
desaparecia novamente.
O nome dela era Nina. ”
Por um momento, tenho certeza ter sentido o perfume daquela flor, que só nasce
no quintal da casa de Nina, em Sarajevo:

Toby o Cachorro Andarilho

“-Sabíamos que chegaria a hora de voltarmos para nossas casas ou que restara
delas, mas cada vez mais a presença de Nina se tornara indispensávavel para todos
os acampados, Nina era nossa única e verdadeira fonte de alegria.
A senhora Auguta era a pessoa mais idosa do acampamento,tinha problemas de
saúde,pouco se locomovia,vivia triste e chorosa,dizia ser fruto de um
arrependimento.No bombardeio que destruiu sua casa,deixou seu cão,Toby,preso
embaixo de uma coluna de madeira,ela não teve coragem de voltar para tirá-lo de
lá,o pobre cão ficou latindo de dor até perder os sentidos.A senhora Augusta dizia
sofrer em saber que poderia ter socorrido seu amigo inseparável,ela dizia que
Toby era na realidade a única companhia que tivera em muitos anos.
Ela às vezes até esboçava um sorriso quando nos contava das traquinagens do seu
cão.Falava que Toby lhes buscava as sandálias, lhe acordava para avisar que o
entregador de leite estava chegando, entre tantas outras coisas que os cães fazem e
nos surpreendem.Mal começava a falar sobre Toby, a senhora Augusta, logo
desabava a chorar.
Não sei se imaginei ou presenciei, porque logo que aconteceu o fato, a senhora
Augusta desapareceu do acampamento, acho que a levaram para outro lugar.Ela
falava sobre Toby, Nina se aproximou da senhora Augusta e começou a pentearlhe
os cabelos, falou algo em seu ouvido e como de costume, desapareceu por horas.
Estávamos em volta da fogueira quando ouvimos latidos, um cachorro magrinho,
sujo, faminto e cansado, pulou no colo da senhora Augusta, era Toby. Ninguém
nunca explicou como um cãozinho sozinho, passando por campos de guerra,
acampamentos de refugiados, passando pelo frio intenso. Como explicar que um
cãozinho conseguiu caminhar setecentos quilômetros para encontrar sua dona. Só
pode ser amor incondicional.
O amor, o amor é como um rio, o rio corre ao encontro do mar. ”

A Volta do Capitão

Àquela altura, eu não tinha mais certeza de nada. Talvez aquele dia não tivesse
existido. A doença, a gravidez, o presente. Nada mais fazia sentido, e eu não
conseguia acordar
A narrativa do diário de Ninoska me deixava mais curiosa, a fantástica história de
Nina me comovia cada vez mais:
“-Eu me sentia bem, o acampamento estava ficando mais vazio, mais e mais
pessoas estavam voltando para casa.Há dias eu estava completamente lúcida,
minha mente estava tranquila. Existia uma coisa que nos deixava tristes, o choro e
os gritos de um rapaz, Denys. Ela era sofria de múltiplas deficiências, inclusive,
mental. Ele passava dias e noites chamando pelo pai.
O pai de Denys era capitão do exército Bósnio, as forças de paz tinham certeza de
que ele havia morrido no começo da guerra.
As pessoas tentavam distrair o rapaz, era impossível, quanto mais se tentava
consolá-lo, mais ele chorava e gritava pelo capitão.
Não tínhamos muito o que fazer, a maioria das pessoas afastavam-se por piedade.
Não era fácil presenciar o sofrimento do rapaz.
Denys conheceu Nina.O sorriso encantador da garotinha o conquistou. Nina
brincava com Denys, lhe contava histórias, era a única que lhe deixava calmo.
Uma nova leva de refugiados fora autorizada a entrar em Montenegro, Denys
também seria aceito.O rapaz pressentiu que iria embora, todos sabíamos que ainda
imaginava que o pai ainda estivesse vivo e viria lhe buscar e queria estar lá quando
ele chegasse.
Estávamos preparando o pouco de alimento que teríamos naquele dia, quando um
homem chegou no acampamento, usava uma tipoia, tinha as barbas grandes e
procurava pelo filho, era o capitão.
Ele estava confuso, falava coisas desconexas, dizia que uma garotinha lhe levou
uma mensagem, dizendo onde seu filho se encontrava, disse que caminhou por
dias, sem comer e sem beber nada e que mesmo assim, não estava cansado.
Denys chorou nos braços do pai, o capitão chorou, todos choramos. ”

O Casamento de Kalinka e Tivy

O diário de Ninoska estava chegando ao fim, eu podia sentir a respiração dela. Eu
podia sentir seu coração:
“-Depois de meses no campo, havia a possibilidade de voltar para casa, eu estava
alegre, sabia que não haveria casa, apenas escombros e que teria que recomeçar do
nada.Mas o que é a vida? Não é um recomeçar infinito?
Fomos informados que o transporte chegaria em breve, voltaríamos para a Bósnia.
Só depois de começar a esvaziar o acampamento, foi que me encontrei co
Kalinka.Ela também foi uma das candidatas ao Miss Sarajevo, esteve mudando de
lugar durante meses.Quando começou a guerra ela estava de casamento marcado
com Tivy, um jovem e promissor jogador de futebol. A guerra adiou o sonho deles.
Eles estavam esperançosos em conseguirem uma nova casa, mas havia um
problema, apenas um dos dois poderia sair naquele dia, não havia garantia de
outra data, poderia ser nos próximos meses ou nos próximos anos.
Apenas o nome de Tivy estava na lista.
Kalinka chorou, sabia que poderia pedir para que o noivo ficasse, mas seria injusto
com ele, Tivy tinha um sonho, seria um astro do futebol.A itália concedeu
cidadania ao rapaz, poderia se naturalizar italiano e defender a seleção. Ela
poderia ficar ali, esperar outra oportunidade.
Nina apareceu segurando na mão de um oficial, nunca saberemos onde ela o
encontrou ou o que ela lhe falou. O homem parecia ter saído de um filme, como um
personagem que entra em cena de forma triunfal, trazia uma garrafa de vinho e
Nina um pequeno buquê.
O oficial fez uma pequena reunião no acampamento, chamou Kalinka e Tivy e
proclamou:
-Senhoras e senhores, estamos aqui para celebrar o casamento de Kalinka e Tivy,
que nesse momento passam a ser cidadãos italianos.
Não me recordo de tudo o que vi, só me lembro de ter ouvido a voz de Kalinka,
repetindo dezenas de vezes: Sim, sim, sim...”

Os Escombros de Sarajevo

O dia estava clareando, percebi as pessoas caminhando na rua, já ouvia o barulho
dos ônibus. Pensei em deixar o restante da leitura para depois. Não consegui, eu já
entendia o que estava escrito:
“-Na manhã quente de junho, parti do campo de refugiados, voltava para
Sarajevo.
A cidade era escombros, entulho, lixo e marcas da guerra. As pessoas
trabalhavam, reerguiam suas casas e tentavam resgatar suas vidas.
Eu procurei por Nina. Durante meses, busquei sem sucesso o lugar onde ela disse
que morava.
Talvez eu ainda estivesse perturbada e tenha sonhado com tudo o que acho que vi.
Certamente, Nina era só uma fantasia de uma mente perturbada precisando de
conforto.
Depois de muitos anos, reconstruí minha vida, casei-me e tenho uma filha, uma
linda garotinha que dei o nome de Nina, homenagem ao sonho que me curou.
A gente não foge do destino.
Nina, minha filha se perdeu, saiu sozinha da escola e não voltou para casa.Entrei
em pânico, percorri Sarajevo, perguntei em todos os lugares, chamei a polícia,
bombeiros, paramédicos. Depois de horas, já a noite, encontrei um senhor idoso e
surdo, que acenava para mim e me indicava uma rua estreita.Rua Odredište.
Passei anos e anos procurando e sonhando com aquela rua, ela sempre esteve perto
de mim.Era exatamente como Nina me dissera no campo de refugiados, tudo
brilhava, a única casa da rua estava toda iluminada. No jardim, a flor que tem um
perfume, que só existe nesse lugar do mundo.
Encontrei minha filha Nina, ela olhava a flor e sorria, parecia ouvir alguém lhe
contar uma linda história.
Meu nome é Ninoska e agora sei que nasci em uma pequena rua de Sarajevo. ”
Eu não tinha compromisso naquele dia, pensei em levantar, mas voltei para a
cama.Fiquei pensando na história mágica que acabara de ler.

A Surpresa

Os dois dias se passaram eu tinha que voltar ao hospital, conversar com os médicos
sobre o meu tratamento. Com muito medo entei na sala do oncologista, ele me
recebeu com um sorriso que irradiava alegria e espanto, me disse apressado:
-Ninoska, por favor, me perdoe!
-Perdoar o quê doutor?
-Sim! Nós cometemos um grande equívoco.
Fiquei ainda mais assustada.
-Não sei onde erramos, você não tem doença alguma! É só gravidez!
Chorei, chorei, chorei...
Depois do susto, em poucos dias comecei no novo trabalho, Gustavo apareceu,
estava bonito como da primeira vez que o vi.Ficou feliz em saber que seria pai.
Disse a ele que seria uma menina.Ele lhe deu o nome; Nina.

Boa Noite, Mamãe

- Parabéns, mamãe! -O médico me falou colocando minha pequena Nina em meus
braços.
A família de Gustavo estava toda lá.
Aos poucos o quarto foi se enchendo de presentes e chegavam de vários lugares e
por fim, chegou um envelope, dentro, uma passagem para Sarajevo.
Seis meses depois embarquei para a Bósnia, fui só, Gustavo ficou com nossa Nina.
A viagem seria rápida.
Cheguei em Sarajevo em um dia quente e chuvoso, instalei-me em um hotel perto
do centro. Logo, arrumei minhas coisas nos armários e fui caminhar pela cidade.
Nada me parecia estranho em Sarajevo, era como se eu já conhecesse aquele lugar.
Fui procurar a Rua Odredište. Ninguém conhecia. Senti-me triste, como eu
poderia ter imaginado que tudo aquilo fosse real? Alguém estava me pregando
uma peça.
Voltei ao hotel e pedi para que me ajudassem a antecipar minha passagem de
volta.
Já que estava ali, fui ver o céu estrelado de Sarajevo e caminhei por alguns
quarteirões. Avistei um velho magro me pareceu familiar. Era ele mesmo! Ele
estava com a garotinha no Metrô!
Ele saiu caminhando depressa, como pedindo para que eu seguisse, eu o segui, na
entrada de uma pequena rua, parou, me apontou a placa e desapareceu. A rua
existia!
Entrei na rua e tudo se iluminou, exatamente como descreveu Ninoska em seu
diário.
Realmente, só havia uma única casa e estava maravilhosamente iluminada
também. Circundei o muro, era tudo tão bonito. A rua parecia que havia sido
encerada, preparada para uma grande festa. O jardim era incrível, um banco
grande, uma mesa de madeira, como preparada para acomodar uma grande
família.
A flor que só brotava naquela árvore, naquele lugar do mundo, estava brilhando e
exalava um perfume maravilhoso e aquele perfume, tive a certeza já tê-lo sentido.
Sentei-me no banco e fiquei olhando e lembrando de tudo, a garota do trem que
me curou era a mesma garota que curou a outra Ninoska no acampamento. Nina
curou todos naquele campo de refugiados. Nina era nossa mãe, nossa irmã.
Nina é o que alguns chamam de anjo, outros de seres de luz. Só tenho uma certeza,
existem milhares de Ninas espalhadas pelo mundo. Sempre vai existir uma Nina
que deixa dinheiro sobre um banco de alguma estação para que uma pobre alma
possa pagar sua passagem de volta pra casa. Sempre vai existir uma Nina que ama
e dedica a vida para proteger animais indefesos. Sempre vai existir uma Nina que
é acometida por malária nos confins da África, cuidando de homens e mulheres
vítimas do abandono e da violência.Eu sei que existem muitas Ninas que caminham
pelas ruas desertas e geladas das grandes cidades oferecendo carinho e alimento
aos sem-teto. Todas as Ninas sabem que nós humanos não temos nada, que um ser
humano é dono apenas daquilo que carrega dentro de si.
Para alguns Nina é um milagre, eu prefiro acreditar que Nina é uma magia da
natureza. Nina é a vida.E o que é a vida senão uma grande mágica?
Agora eu estava ali, tinha certeza que aquele era o meu lugar.Dentro da casa ouvi
diversas vozes. Aos poucos as luzes da casa foram se apagando, uma voz delicada e
doce desejava boa noite:
-Boa noite, meninas!
Eu podia ouvir muitas daquelas vozes e sabia que as conhecia:
-Boa noite, mamãe!
Novamente uma voz respondia:
-Boa noite, mamãe!
E novamente:
-Boa noite, mamãe!
Até que só restou acesa a luz da flor e pude ouvir claramente a voz:
-Boa noite, Ninoska!
Fez-se um breve silêncio e novamente aquela voz insistia em querer a resposta:
-Boa noite, Ninoska!
Demorei um pouco para perceber que aquela voz se dirigia à mim e com o coração
cheio de amor e a garganta trancada pela emoção, então, timidamente respondi:
-Boa noite, mamãe.
A luz da flor apagou.
Meu Nome é Ninoska e nasci em Sarajevo.
FIM

Sunday, February 12, 2017

Contos Quase Infantis O Padre Bianca

Contos Eróticos Infantis
O Padre Bianca
Imagem:Internet


   Todos nós, sem exceção, carregamos por toda a vida fatos marcantes de nossa infância. Um dia, lá na frente,vamos sentir saudades de lugares que visitamos,choraremos por coisas e pessoas que deixamos pra trás. Mas também, em algum momento, vamos sorrir das traquinagens e das loucuras infantis. A infância parece nunca ter fim e quando percebemos, somos adultos , amadurecemos, vemos que tudo valeu à pena e passamos a entender melhor a vida.

   Era o ano de 1978 e era época de Copa do Mundo na Argentina. Saíamos do Colégio Mário Rangel e corríamos para o campo do Águia, que ficava do outro lado da rua, na lateral da Igreja São José Operário. No campo, formávamos os times e disputávamos nossa copa do mundo particular.
   Somente aos domingos entrávamos na igreja, íamos à missa e depois, nos reuníamos no campo para nosso jogo sem fim.
   Miltinho e eu não gostávamos de ir à missa, só íamos aos domingos na missa das sete horas, por causa de Cleonice. Miltinho como sempre, desta vez apaixonara-se por ela, aliás, ele se apaixonava por uma nova garota a cada sete dias, sem nunca ter sucesso.
   Cleonice morava no Jardim Lilah e Miltinho me fazia andar quilômetros para passarmos pela rua detrás da casa dela para jogarmos pedra em seu telhado, era a maneira que ele achava que chamaria atenção. O que acabou também não dando certo. O Luiz do bar, percebendo nossa insistência, colocou Duque, seu cachorro pastor alemão para nos dar uma carreira. Miltinho, enfim, para o bem de minha saúde, desistiu de Cleonice.
   Miltinho eu e a turma do futebol, não éramos bem-vindos nas missas. O padre Emílio nos marcava sob pressão, nos vigiava o tempo todo e quando falávamos mais alto nos chamava à atenção. Foi em um desses domingos que o Padre Emílio apresentou uma nova pessoa para nossa comunidade, era Eliel. Eliel lhe ajudaria nas celebrações. Ele seria o novo diácono.
   Eliel lia os folhetos, cantava e também usava uma roupa igual a do padre. Ao ver Eliel falando para as pessoas na igreja, Miltinho perguntou em voz alta:
   - Padre Emílio, esse é o novo padre?
   Padre Emílio, rindo da pergunta de Miltinho e explicando calmamente, disse:
  - Não meu filho, ele é diácono, vai me ajudar nas coisas da igreja.
   Para surpresa de todos e nossa vergonha descomunal, Miltinho, lá do fundo da igreja gritou para o coitado do Padre Emílio:
   -Ele é padre sim! Ele usa vestido, igual ao senhor!
   O domingo foi de sol.

   Eliel gostava de futebol e junto com o Genésio, resolveu montar para nós um time de futebol. E era um time com uniformes e etc.
   Genésio não tinha uma boa reputação no bairro, diziam que ele era “macho e fêmea”. Usavas as unhas pintadas e quando conversava afeminava a voz.
   Eliel ficou muito amigo de Genésio, começou a passar várias horas por dia em sua casa,os dois eram fãs de Ney Matogrosso.Aquela súbita e estreita amizade despertou a curiosidade da molecada.Os meninos mais velhos faziam campana ao lado das janelas da casa de Genésio,tentando ver ou ouvir o que se passava lá dentro...

   Finalmente chegou o dia de estrearmos o time e os uniformes, estávamos ansiosos para a disputa de nossa primeira partida “oficial”. Genésio e Eliel nos davam as últimas instruções.
   O jogo começou e nada dava certo pra nós, só na metade do primeiro tempo, já perdíamos por três á zero! Manezinho, um conhecido malandro do bairro, também assíduo frequentador da casa de Genésio, gritava do lado do campo:
   - Ô Genésio! Ô Bianca! Arrumem esse time!
   Ouvimos os gritos de Manezinho, Miltinho olhou pra mim, olhei pro Alemão que olhou para o Adir,que olhou pro Ciro e ao mesmo tempo,tomados pela surpresa, nos perguntamos uns aos outros:
   - Bianca?!!
   Bianca era o nome de “guerra” de Eliel. Depois de nosso espanto, Manezinho nos revelou que ele, Genésio e Eliel, ganhavam um dinheiro extra, “conversando” dentro de carros com velhos ricos, lá na Avenida São Gabriel.

   O último domingo de novembro de 1978 foi o último dia em que vimos Eliel. Antes que a missa terminasse o Padre Emílio informou que era aniversário do Diácono Eliel e todos cantaríamos parabéns para ele. A igreja esta cheia, toda a comunidade estava presente naquele dia, os times que jogariam depois da missa, até o Manezinho estava lá.
   A banda começou a tocar o Parabéns pra Você, o padre começou a cantar, tudo caminhava para um final feliz, até que...Miltinho com a voz esganada puxou outro coro:
   - E pra Bianca nada?
   Nem seria necessário dizer que não houve festa.

   O tempo passou, o time acabou e o famoso campo do Águia deu lugar ao comércio e a uma agência do Bradesco. Anos depois soubemos da morte de Genésio, com uma doença grave, teve medo de morrer só, atirou-se de uma ponte.
   Passamos muitos anos sem notícias de Eliel, até que Miltinho voltando depois de trinta dias de férias em Governador Valadares, bateu na porta de casa de madrugada e me contou eufórico:
   - Marquinhos!Sabe quem eu vi?
   - Sei lá!
   - Marquinhos, encontrei o Eliel!
   - Onde?
   -No circo!
   - Ele tava fazendo o quê lá? Miltinho, ele te viu?
   - Ele é artista agora! O nome dele é Bianca Matogrosso!
   Deveria ser obrigatório haver sol em todos os lugares do mundo, todos os domingos.


Wednesday, November 02, 2016

Análise Direta: Marcos Teles

O escritor e músico Marcos Teles fala sobre  o livro Palestra Lágrimas Futebol Clube e vários assuntos no Programa Análise Direta.

Monday, October 17, 2016

XXII Brooklinfest 2016

Escritor Marcos Tecora Teles do Capão Redondo Zona Sul da Cidade de São Paulo estará nas ruas do Brooklin. Com obras publicadas na França e no Brasil.
Tema Bildung(formação).
X
XII Brooklinfest 2016 nos dias 22 e 23 de outubro celebrará a obra de Marcos Tecora Teles,escritor da Literatura do Capão Redondo.
Livros:
O azul do Céu Histórias das Ruas
Je suis Rio Editora Ana Caoana França
Palestra Lágrimas Futebol Clube
Os eventos do Brooklin realizados pela Associação do Brooklin criam alinhamento
entre pessoas e suas obras.A cultura brasileira com dimensão universal.


Luiz Delfino Cardia.

Wednesday, August 24, 2016

Depois Daquele Beijo

Foto: Internet


Depois Daquele Beijo


   Hoje, exatamente hoje, faz vinte anos que vivo na mais completa escuridão. Provavelmente, minha história não seja tão especial e nem signifique muita coisa. Provavelmente, minha história seja igual à história de milhares de outras pessoas. Mas esta é minha história. E uma coisa eu posso afirmar; ninguém recebe o primeiro beijo da vida de uma garota e passa incólume pela vida.

   Depois de longos, turbulentos e tristes anos, voltei ao bairro onde nasci e vivi parte de minha vida. Fui visitar alguns amigos de minha família.
   Era uma tarde fria de agosto, um sábado. Fui recebida com afeto e percebi a comoção que causei nos amigos, ao chegar amparada por Billy, meu cão – guia. Depois dos abraços afetuosos e beijos emocionados, nos sentamos e tomamos café. Tudo como nos velhos tempos.

   Mas  a campainha tocou...
   Enquanto alguém foi atender ao portão, continuávamos conversando eufóricos e sorrindo alto.
   A voz daquela visita inesperada fez abrir uma porta no tempo. E era a mesma voz, a mesma voz melancólica do menino bonito e tristonho por quem me apaixonei um dia.
   Nosso reencontro foi como deveria ter sido, emocionante, repleto de arrependimentos e pedidos de desculpas. Tínhamos muito o que falar,mas também tínhamos muito o que calar.
   Ele quis saber de tudo o havia acontecido comigo em todos esses anos, quis saber como me sentia e eu não lhe escondi nada. Contei a ele que foi em uma tarde de sábado como aquela, onde ficamos sozinhos. Ali, naquela mesma casa, naquela mesma sala, ouvindo Van Morrison tocar na vitrola, que trocamos um beijo. Meu primeiro beijo. Eu lhe contei que foi ali, que uma garota aos catorze anos se apaixonou por um rapaz bonito e romântico. Eu o fiz lembrar que, depois daquela tarde eu lhe ligava perguntando; e agora? E ele sorria do outro lado da linha.
    Lembrei a ele que, depois daquela tarde de sábado,durante meses,todas as tardes de sábado foram mágicas,dançávamos colados e trocávamos beijos apaixonados.Sentávamos no tapete daquela sala,ele já adulto bebia vinho e eu bebia Coca- Cola.
   Eu contei a ele sobre minha tristeza. Sobre a humilhação na minha festa de quinze anos. Contei que contava os dias, ansiosa e insone, esperando o dia chegar para poder dançar com ele, eu queria dançar a valsa com meu príncipe. Mas ele não apareceu. Sem se despedir, desapareceu e nunca mais voltou. Não podia deixar de lhe contar sobre toda minha tristeza e decepção.
   Também falei que anos depois me casei com uma pessoa que quase acabou com minha vida. Eu falei que me casei com um homem que parecia me amar, mas só me trouxe dor e tristeza. Um homem violento e viciado. Um homem habituado apenas à boemia e aos prostíbulos. E não pude esconder que esse homem contraiu o vírus da AIDS e que por sorte ou sei lá, a única coisa que me passou foi sífilis e perdi completamente a visão. Talvez por piedade de mim, Deus o tenha levado pouco tempo depois.
   Contei sobre a perda de meus pais e que, desde então vivo quase só.
   Eu falava e ele só ouvia. Eu pedi para ver seu rosto com minhas mãos.Ele aproximou seu rosto do meu e lhe toquei a face.Era o mesmo rosto delicado,o mesmo perfume e o mesmo hálito que exalava vida.Eu toquei seu rosto e podia ver o passado,via as luzes das tardes ensolaradas.Eu tocava seu rosto e a mesma música chegava em meus ouvidos.Eu tocava seu rosto e nas pontas dos meus dedos ainda podia sentir a tristeza daquela alma doce,que por muito e muito tempo viveu atormentada pelo abandono na infância,pela pobreza e pela fome.Eu tocava em seu rosto e suas lágrimas escorriam por entre meus dedos e pude, enfim,saber que aquele menino bonito e tristonho também me amou um dia.
   Ele me contou que teve medo e fugiu de tudo, mas nunca se esqueceu daquela tarde de sábado. Ele também descobriu que ninguém dá o primeiro beijo da vida de uma garota e passa incólume pela vida.

   Hoje, também é sábado e minha sobrinha está me fazendo companhia. Ela vai passar o final de semana aqui em casa. Minha sobrinha não conhece toda minha história, mas ela ligou o som e colocou uma música pra tocar. ”Sweet Thing”, Van Morrison...


Friday, June 03, 2016

Je Suis Rio

Vem aí!
Je suis Rio,antologia, lançado na França.Me sinto muito orgulhoso em fazer parte desta obra.No livro, um conto meu,Zé Azul do Rio de Janeiro.Além de mim,tem Ferréz,Marcelino Freire, Alexandre De Maio, entre outros autores!
Editora Anacaona.

Wednesday, June 03, 2015

Trecho de Sombras no Jardim-Dona Isolda



 Imagem:Internet


Eu nasci em uma grande fazenda de café.Eram tempos de fartura.Minha família era grande e feliz.Papai, mamãe e mais três irmãos.
Cresci tomando banho no riacho que corria em nossa fazenda, dançando nas festas que eram frequentes lá em casa, andando em belos e dóceis cavalos.Que saudade...
Cresci, conheci o primeiro namorado e a infância ficou lá atrás.Me casei com o homem que amava...
Minha felicidade ficou completa quando veio meu filho.Um lindo menino sorridente e de olhos grandes.

Essa é a parte boa de minha vida, pena que já faz tanto tempo...
A felicidade é sempre muito curta, a gente sempre acredita que vai ser feliz pra sempre, ledo engano.A felicidade é breve.

Tudo mudou quando papai começou a ter constantes problemas financeiros.Foi em uma época em que choveu muito, perdemos a lavoura de café e as dívidas se acumularam.Sem pensar muito papai vendeu a fazenda e com o pouco que sobrou da venda comprou uma casa na cidade. Meu marido arrumou uma colocação como administrador em outra fazenda e nos mudamos.

Foi difícil me acostumar, sentia dor de tanta saudade. Meu marido ficava dias longe de casa, eu estava distante de meus pais e meus irmãos, tudo fazia sentir-me só. Incontáveis vezes sequei minhas lágrimas no cobertor de meu filho, ele não entendia porque eu chorava e sorria docemente pra mim. E isso me doía tanto...

Tenho a impressão que o tempo passou mais depressa pra mim do que para os outros.Fui acompanhando o desaparecimento de todos que amei.Foram morrendo um à um. Sobramos somente eu e meu filho. A felicidade é muito breve.

Os anos se passaram, meu filho cresceu tornou-se um homem e foi trabalhar fora.Como o pai passava dias sem dar notícias.Foi vender enciclopédias em cidades do interior. Até que um dia nunca mais voltou.Fiquei definitivamente só.

Voltei pra fazenda que pertencia a minha família, fui contratada para trabalhar na colheita do café.Passei anos ali novamente, claro que sem o conforto de quando era filha do dono da fazenda.

Eu já estava com os anos pesando nas costas, não aguentei mais o trabalho e me demitiram.Saí sem nada,sem dignidade,sem direitos.Sem nada.
Com a ajuda de uma conhecida cheguei em São Paulo, fui morar em Parelheiros. E era tão longe.

Uma pessoa me aconselhou a vender espetinhos nas ruas, era um trabalho simples, que não precisava fazer força.Para uma mulher idosa era a única coisa possível, eu poderia me sustentar assim.

Eu me sentia solitária e infeliz,até conhecer as pessoas que passavam por minha banquinha todos os dias. E eram pessoas de todas as idades, todos tinham um pouco de infelicidade também.
Eu trabalhava todos os dias. Eu trabalhava muito e ganhava muito pouco.
No inverno eu sofria demais, as pessoas estavam sempre mais apressadas, por isso não paravam para comer do meu churrasco, então eu tinha que ficar na rua até mais tarde.
Sofri muito, passei muito frio e nunca me esqueci do meu filho, eu o buscava na memória todos os momentos do dia e a noite sonhava com um menino lindo e sorridente.

Chegou o dia em que pensei que enfim iria morrer. Desmaiei ao lado da minha banquinha. Acordei no hospital.
Fiquei meses internada, não sabiam para onde me mandar.A amiga com quem eu morava foi embora pra Bahia e vendeu a casa.

Todo sofrimento um dia abranda. Conseguiram um lugar para mim em um asilo.
Aqui onde estou, fiz amigos, mas sou muito só.Tenho comigo apenas as lembranças, faço questão de guardar apenas as boas.Nossa fazenda, o riacho, os cavalos.

Não guardo mágoas, mas não entendo porque a pessoa que mais amei, a única pessoa por quem eu daria minha vida, desapareceu, me esqueceu, como se eu nunca tivesse existido;meu filho.

Hoje acordei ansiosa, talvez poderei ter um pouco de alegria, não quero me decepcionar, acreditar em vão.Mas acho que o encontrei, me disseram que ele trabalha no rádio.Vou ouvir e depois escrever uma carta.Não quero me decepcionar. Mas preciso acertar as contas com o passado, com minha vida.

Friday, January 23, 2015

Contos Quase Infantis – A Pecadora do Metrô

Fonte:Internet - Paula Romani



Contos Eróticos Infantis – A Pecadora do Metrô

   Miltinho e eu, pela primeira vez iríamos andar de Metrô. Passaríamos o final de semana no bairro de Santana, na casa de minha querida tia Diná. Só em sair do Capão Redondo e atravessarmos sozinhos a cidade, já seria uma aventura e mataríamos um pouco de nossa grande curiosidade.
   Fomos até o centro da cidade e de lá tomamos o Metrô na Praça da Sé.
   Era um sábado de manhã, a cidade estava vazia, pouquíssimas pessoas aguardavam na plataforma com destino à Santana. Felizes e excitados com a aventura, Miltinho e eu, embarcamos no penúltimo vagão.
   Ela entrou na Estação São Bento. Vestia um vestido curtíssimo, esvoaçante,que à medida em que caminhava,ia deixando à mostra parte dos seios e da bunda. Ela era uma mulher linda e parecia a Sônia Braga em uma cena de Gabriela.
   Ela sentou-se em um banco à nossa frente, um homem velho a acompanhava. Ele lhe fazia carícias e juras de amor. A cena era digna das que víamos nas revistas que meu tio escondia embaixo do colchão. Não conseguíamos tirar os olhos do casal. O homem, sem querer, vez outra, nos presenteava com uma visão privilegiada daquele corpo de mulher. Ele a abraçava e passava - lhe as mãos pelo corpo. A todo instante a barra do vestido dela subia até a barriga e as alças caiam até o colo. De vez em quando, parecia até mesmo estar nua.
   Miltinho e eu, inconscientemente, naquele momento, pensávamos a mesma coisa. Certamente, uma meia seria sacrificada naquela noite. A imaginação é realmente uma coisa inexplicável...
   A cena prosseguia, mas a mulher não demonstrava muito interesse no velho. Percebíamos que ela fingia. Ela também mostrava-se ansiosa,parecia querer livrar-se logo dele.À todo instante olhava o relógio,como se estivesse atrasada para algum compromisso muito importante.
   Depois de uma longa e tórrida despedida, o velho desembarcou na Estação Carandiru. Ela lhe sorriu, ele retribuiu com um sorriso estranho e um tanto maldoso.
   A voz nos alto – falantes nos informava que estávamos em Santana. Ela saiu apressada do vagão. Miltinho e eu fomos a observando desaparecer na estação e pensávamos na meia...
   Minha tia havia pedido para a esperássemos na lanchonete ao lado da estação. Como chegamos mais cedo, sentamos em uma mesinha do lado de fora e pedimos uma Laranja Pop. Enquanto bebíamos nosso refrigerante, Miltinho e eu falávamos sobre a moça no Metrô. Minutos depois ela reapareceu...
   Miltinho e eu olhávamos incrédulos. Agora ela vinha acompanhada de um homem jovem e bem vestido. Não entediamos mais nada. Há poucos minutos ela se desmanchava de desejos com o velho. Agora, estava maravilhosa e feliz ao lado do homem jovem. O Homem jovem a levou para dentro da lanchonete. Miltinho eu, de vez em quando a ouvíamos gargalhar.
   A moça nem nos notou.

   Minha tia demorava a chegar. A todo instante,íamos até a esquina olhar se ela estava chegando, poderia ter se desencontrado de nós.
   Em uma dessas idas e vindas, ouvimos pipocos, pensamos que fossem rojões. Formou-se um tumulto em frente da lanchonete.
   Miltinho e eu vimos o homem jovem caído em uma grande poça de sangue. Entre o balcão e o corredor, estava ela, estirada no meio do salão. Seu corpo seminu mostrava os furos feitos pelas balas. Os tiros foram certeiros.
   O homem velho não havia desembarcado na Estação Carandiru, apenas mudou de vagão. Seguiu a moça e vingou-se da traição.
   Miltinho e eu ficamos estarrecidos, apavorados com aquele crime. A moça que parecia a Sônia Braga, agora é só um lindo corpo sem vida.
  Depois do acontecido, passamos muito tempo sem levar meias para debaixo do cobertor.

Friday, January 16, 2015

Contos Quase Infantis - A Prostituta da Cidade das Andorinhas



Imagem: Internet



Contos Eróticos Infantis

A Prostituta da Cidade das Andorinhas

   Havia quatro meses que estávamos na estrada, e em cada lugar,cada comunidade que chegávamos,colocávamos em prática o que os padres nos ensinavam durante a jornada. Àquela altura, nossas mochilas já estavam mais leves,em cada lugar que parávamos,deixávamos um pedaço da biblioteca que carregávamos nas costas.
   Havíamos estado em muitos lugares. Agora estávamos em Anagé, uma pequena cidade no sertão baiano. Chegamos em uma tarde de calor intenso,sob aquele céu azul-claro do mês de maio de 1984.
   O céu da cidade era enfeitado por um bando de andorinhas.
   Nunca ficávamos muito tempo em cada lugar.  E ali, ali não seria diferente.
   Fomos alojados no quartel do Tiro de Guerra. Estávamos eufóricos, afinal, depois de meses, iríamos finalmente dormir em uma cama com colchão.

   Dias depois de acomodados na cidade, já havíamos nos habituado com a comunidade rural e com a rotina do lugar. E como de costume, os padres nos informaram que era hora de partir novamente.
   Os recrutas tornaram-se nossos companheiros e amigos. Também eram nossos guias por ali e nos levavam à quase todos os lugares onde podíamos nos divertir.
   Ficou combinado que partiríamos na segunda-feira. No sábado, combinamos de ir conhecer um prostíbulo que ficava na zona rural. A ansiedade era imensa, os hormônios de todos escapavam até pelos olhos.
   Enfim, chegara o momento.Enquanto os padres dormiam,escapamos pelas janelas laterais do velho prédio do quartel. Rapidamente ganhamos a rua e adentramos na mata. Depois de uma longa caminhada, avistamos a casa que ficava na beira de um riacho seco.
   O lugar tinha um aspecto de pobreza extrema. Era uma casa grande e velha, com quartos nos corredores e no quintal. A sala era ampla e havia um balcão improvisado, feito de adobão e uma geladeira Frigidaire caindo aos pedaços. A música saía de uma velha vitrola National, que não se cansava de tocar um disco do Wando. Não eram muitas as mulheres, contamos oito no total. Algumas eram até bonitas, outras nem tanto.
   Os rapazes, incentivados pelos recrutas, logo entraram na farra. Eu e Miguel Marinho ficamos sentados em um dos poucos bancos que havia na sala, bebíamos cerveja e fumávamos nosso cigarro. Foi quando ela entrou.
   Era como se ela tivesse saído de um daqueles filmes surrealistas. Ela era uma mulher de meia – idade, esquálida, tinha os cabelos desgrenhados, usava um batom carmim que lhe acentuava os lábios avantajados. Vestia uma combinação já muito gasta, com furos no sutiã. A calcinha, além de ser maior do que seu número estava costurada nas nádegas e mal escondia sua intimidade.Era grotesco. Mesmo com tudo isso, Zita era engraçada. Tinha bom astral e acabou nos revelando toda a tristeza e amargura por estar ali.
    Com tantas moças jovens e bonitas no prostíbulo, homem nenhum se interessava em ir para a cama com ela. Mesmo assim ficava por ali, limpava a casa, lavava as roupas e servia no bar. Tornou-se uma espécie de “clown”, divertindo os frequentadores.
   Miguel Marinho e eu ficamos curiosos com aquela figura. Zita era um personagem que insistia em querer ser real.
   Zita era realmente uma mulher triste, que fingia ser alegre para não morrer de fome naquele sertão.
   Zita também nos contou que havia saído do Crato, deixando para trás três filhos, só para tentar encontrar o marido que foi “buscar” ouro em Serra Pelada, e que sabia que ele jamais retornaria. Zita nos contou que depois de cinco anos, perdeu definitivamente as esperanças e começou a perambular pelo Norte e Nordeste, até chegar até ali.
   Zita sonhava em voltar para sua casa, no Ceará, queria ficar junto dos filhos que há tanto tempo não via. Talvez, se pudesse,montaria um pequeno negócio ou mesmo um cabaré, quem sabe?
    Zita era atormentada pelo remorso e pela saudade.
   Bebemos muita cerveja, os rapazes estavam felizes e satisfeitos. O dia começava a clarear, Zita dormia sentada em uma velha cadeira, a vitrola havia se calado. Fomos embora.
   No caminho, voltando para o quartel, falamos de Zita, de sua história, de sua dor e de sua saudade. Fomos abatidos por um profundo sentimento de pena e solidariedade. Nós iríamos ajudá-la de alguma forma. Nossos corações doíam. Os corações dos recrutas e os dos civis.
   Os padres nos esperavam na porta do Tiro de Guerra, levamos muitas broncas e os sermões foram quase intermináveis.
   Mais tarde, voltamos ao prostíbulo, fomos procurar Zita. Nós lhe entregamos um pacote com todo o dinheiro que levávamos conosco, dinheiro que nossas famílias nos enviavam e nunca tínhamos onde gastar. E não era pouco dinheiro.
   Na segunda – feira, estávamos prontos para seguir nosso rumo. Na frente da agência de passagens estava Zita, com suas malas surradas e com um sorriso enorme que lhe enfeitava o rosto marcado por anos de busca e incertezas. Antes de entrar no ônibus que a levaria de volta pra casa, Zita beijou e abraçou cada um de nós. Abraços tão cheios de gratidão que podíamos sentir o amor exalar do coração daquela pobre mulher.
   Em nossas viagens, aprendemos com os padres, que o dinheiro não traz felicidade, mas pode comprar um pouco de paz.
   Quando o ônibus que levava Zita começou a entrar na rodovia pudemos ver o bando de andorinhas lhe seguindo.
  De alguma forma, aquelas andorinhas chegaram ali ao mesmo tempo em Zita também chegara. E partiram juntas. Zita e as andorinhas.