Marcos Tecora Teles
Saturday, November 07, 2020
Uma Foto do Futuro
Uma foto do futuro.
Ontem, no Bar da Joana, na Rua Batalha Reis, encontrei essas figuras. Eles chegaram, puxaram uma mesa, pediram uma Coca-Cola e uma porção da batatas fritas. Conversavam sobre os estudos, jogos eletrônicos e outros assuntos importantes.
Não tive dúvidas, pedi para a Joana fazer a foto.
Eu me encontrei com o futuro!
Monday, September 21, 2020
Tuesday, July 28, 2020
Perdidos no Espaço
Imagem:Internet
O Covid- 19 veio nos dar uma grande lição,a lição de que ainda não sabemos de nada.
Estamos todos girando no espaço,dentro de uma bola de terra,ferro e água.
Ainda buscamos as respostas para as três questões que nos afligem desde os primórdios;de onde viemos,se estamos sozinhos no universo e para onde vamos.
Uma lição aprendemos nos últimos tempos,certamente,não estamos sozinhos no universo;estamos perdidos no espaço.
Estamos todos girando no espaço,dentro de uma bola de terra,ferro e água.
Ainda buscamos as respostas para as três questões que nos afligem desde os primórdios;de onde viemos,se estamos sozinhos no universo e para onde vamos.
Uma lição aprendemos nos últimos tempos,certamente,não estamos sozinhos no universo;estamos perdidos no espaço.
Tuesday, May 12, 2020
Wednesday, November 13, 2019
As Luvas do Goleiro
Imagem:internet
As
Luvas do Goleiro
“
O tempo passa, torcida brasileira! ”
Fiori
Gigliotti
Quando
ainda éramos crianças, no Jardim São Bento, não acreditávamos que o tempo
passaria tão depressa.
Nossa
vida era brincar, a rua era o melhor lugar do mundo, mas quando chegavam as
férias escolares, aí os dias não tinham fim.
Acordávamos
cedo, a gente empinava pipa, rodava pião, jogava bolinha de gude; coisas
normais naquele tempo. Na verdade, nossa maior paixão era a bola, os campinhos
que improvisávamos, nossa paixão eram as partidas inesquecíveis, o sanduíche de
mortadela e a tubaína depois dos jogos.
No
fundo, sabíamos que nossa vida não era perfeita, muitos daqueles meninos não
tinham nada, às vezes, nem o que comer. A miséria também vivia entre nós, era
uma companheira constante e indesejada. Mesmo com nossa inocência, sabíamos que
de algum modo, chegaria a hora do grande jogo e que teríamos que driblar a
vida.
De
todos nós, Topinha era o menino mais pobre, vivia com a mãe em um barraco no
final da Rua Um, na beira do córrego.
Topinha
também era o melhor goleiro do mundo, mesmo sem possuir as chuteiras, o
uniforme e as luvas. Em toda e qualquer partida, era sempre o primeiro à ser
escolhido. Com ele no gol, a chance de vencer era garantida. Ele era um menino,
alto, magro, com reflexos rápidos e muita elasticidade nos movimentos. Topinha
dizia que incorporava os grandes goleiros. Em alguns jogos, tornava-se Emerson
Leão, da seleção brasileira, em outros, o argentino Fillol e nas grandes
decisões ele se transformava em Sepp Maier, o grande goleiro da Alemanha.
A
periferia crescia desordenadamente, era raro um final de semana em que não
chegassem novos moradores no bairro. Até que um dia, com a chegadas de alguns
novos moradores, também chegou o crime e percebemos que muitos de nós, perderiam
a inocência.
Eram
os anos setenta e inevitavelmente, também chegou a febre da discoteca e muitos
meninos queriam ser John Travolta e assim as coisas foram tomando outro rumo. Os
garotos com “cabelo bom”, queriam usar brilhantina, mas não tinham dinheiro
para comprar. Um dos novos moradores, o Enéas bolou um plano e formou uma
turma, foram roubar os vidros de brilhantina no Mercadinho do Shozu. Para o
azar de Topinha, o plano deu certo.
Incentivado
por Enéas, Topinha resolveu roubar um par de luvas de goleiro na Loja da
Japonesa. Ele conseguiu, mas não contava com a presença de Naldo, um policial
violento que fazia bicos no comércio do Capão Redondo.
Topinha
escondeu as luvas sob a blusa enquanto Enéas e Romildo tiravam a atenção da
japonesa. Ao sair da loja, correu beirando a barranco, Naldo colocou o pé na
sua frente, Topinha perdeu o equilíbrio, caiu na ribanceira e ficou trespassado
pelas vigas de aço que saiam de uma casa em construção.
Meses
depois, Topinha voltou para casa em uma cadeira de rodas, nos olhou com
vergonha, arrependimento e imensa tristeza.
Quando
crianças, sempre soubemos que vivíamos um sonho. Tínhamos medo de acordar e perder
aquele estado permanente de felicidade. A gente vivia para sonhar. Hoje, depois
de tantos anos, depois da infância, a gente descobre que é obrigado a sonhar para
continuar vivo.
E
como dizia o saudoso locutor: “ O tempo passa, torcida brasileira! E fecham-se
as cortinas e termina o espetáculo! ”
Saturday, May 25, 2019
A Rainha da Fofoca
Foto:internet
A
Rainha da Fofoca
É sabido que a fofoca sempre existiu desde os primórdios,
mas o Brasil foi o país onde este artifício mais se expandiu.
Se existisse uma olimpíada de fofoca o brasileiro
seria medalha de ouro em todas as modalidades, principalmente em fofoca à distância,
arremesso de fofoca, fofoca em altura, salto triplo em fofoca, maratona de fofoca
e muitas mais.
Também é do conhecimento de todos que em toda e
qualquer rua do Brasil, reside pelo menos uma pessoa fofoqueira. Na minha rua
não seria diferente.
Quando vim morar aqui neste bairro, conheci a fama de
fofoqueira de Dona Dadá. A mulher sabia da vida de todo mundo. Tudo o que
acontecia nas casas, nos bares, nas igrejas, ela dava um jeito de descobrir e
espalhar aos quatro ventos. Dona Dadá não podia ver um grupo de pessoas que
logo se aproximava e perguntava com seu talento nato para a especulação da vida
alheia:
- O que é que vocês estão aprontando, hein?
E não adiantava esconder, em pouco tempo aquela
conversa já virava assunto em todo lugar.
Eu tinha “um pé” atrás com Dona Dadá, o máximo que
fazia era lhe dar bom dia, boa tarde e boa noite. Evitava ao máximo que ela
tentasse puxar conversa comigo. E assim se passou muito tempo.
Depois de alguns anos, passei a trabalhar à partir de
casa, então, comecei a receber muitos amigos, clientes e parceiros. Durante o
dia e até altas horas da noite, pessoas entravam e saiam de minha casa.
Dona Dadá observava o entrai e sai de pessoas e cada
vez que passava em frente à minha casa, dava um jeito de diminuir o passo para
tentar captar algo.
Eu sabia que chegaria o dia em que ela não resistiria
e viria especular, eu me esguiava dela, fingia mesmo não vê-la, só para não lhe
dar assunto.
Mas não dava para fugir de Dona Dadá a vida toda...
Foi em uma tarde em que eu me despedia de alguns amigos,
que Dona Dadá me pegou de surpresa. Acompanhada de uma amiga, veio caminhando
de mansinho, passou por mim, deu uma olhadinha, um sorrisinho amarelado, até
pensei que ela passaria direto, mas não.
Eu já me preparava para entrar e fechar o portão,
quando de repente, me virei e Dona Dadá já estava tocando em minhas costas e
perguntou:
-Tudo bem com você, rapaz?
Eu respondi que sim, que estava tudo bem. Mas ela já
estava com a artilharia armada e prosseguiu:
-Tanto tempo que você mora aqui e nunca paramos para
um papinho.
- Pois é - respondi.
Ela tinha uma técnica impressionante, poderia ser
repórter investigativa:
- Todo dia vem bastante gente em sua casa, desculpe eu
perguntar, mas você trabalha com o quê, filho?
Dona Dadá não imaginava que eu também havia me
preparado para aquela hora fatídica, que sabia, chegaria um dia e com ar de
vitória lhe respondi:
-Sou do crime! Sou o chefe do tráfico do bairro!
Para minha surpresa, Dona Dadá, deu um sorriso triunfal,
foi embora sem falar mais nada comigo, colocou o braço no pescoço da amiga e falando
baixinho, comentou:
-Não te falei “fia”! Ele é pastor da Igreja Universal!
Thursday, May 23, 2019
Descobrindo os Segredos
Imagem:internet
Um dia você acorda e passa a ver o mundo de outra forma.Tudo o que você pensou saber ontem,não passa de fantasia,era apenas um sonho que você viveu toda sua vida.
Em um dia qualquer do ano de 2006,recebi uma mensagem no extinto ORKUT,era uma pessoa que se identificou como Justine,disse que fazia parte de um grupo de ativistas por direitos humanos e que gostaria de contar com minha colaboração,de alguma forma.
Passei a receber informações que jamais imaginaria.Passei a conhecer o mundo real.
Eu acreditava em muita coisa,no que via em reportagens, no que lia em livros,percebi que cada um defende sua verdade e busca somente privilégios e poder.
Minha primeira participação com o grupo foi na chamada Primavera Árabe,foi aí que vi um mundo novo se descortinando e entendi verdadeiramente que a informação é poder.
Eu não acredito em quase ninguém,as pessoas ouvem mas não escutam,enxergam e não veem.
Eu achava que Teoria da Conspiração fosse coisa de maluco.Mas não é bem assim.Minha forma de pensar e enxergar o mundo,mudou no dia em que recebi um arquivo,alguns filmes e documentos que me fizeram passar dias encabulado. O mundo real é diferente!
Sinto imensa tristeza em ter tanta informação e não poder passar para todos,saber como as coisas funcionam é doloroso.Saber que uma guerra é programada,uma crise econômica é deflagrada em jantares,onde reúnem-se meia dúzia de homens poderosos,sem escrúpulos e sem remorsos.Esses mesmos poderosos que nos escondiam o progresso,que guardavam segredos milenares.Mas hoje,hoje está diferente.Eles sabem que tem um grupo de "malucos" de várias partes do mundo que se juntam e que na frente de um computador e movem o mundo com as pontas dos dedos.Quantos governos caíram?Quantas verdades vieram à tona? E vem muito mais,acredite!
Talvez fosse interessante que todos conhecessem o mundo real, mas infelizmente,nem todos estão dispostos a sair do conforto da mentira que nos fazem engolir todos os dias.
Anonymous
Thursday, April 25, 2019
O Negro Pereira
Imagem :Internet
O Negro Pereira
O Negro
Pereira chegou no Jardim São Bento em um dia de sábado, era um dia nublado e
algumas pessoas corriam, trabalhando para terminar de cobrir o pequeno barraco
que ele iria morar com sua mãe e seu irmão mais velho.
Negro
Pereira era um rapazola, devia ter uns doze ou treze anos. Eu era mais novo.
Nos tornamos grandes amigos. Nós éramos fãs de futebol e gostávamos de jogar
bola.
O
barraquinho onde morava Negro Pereira era paupérrimo, sem energia elétrica, sem
banheiro, sem água encanada e o piso era de terra batida. Ele morava com sua
mãe e Pelé, seu irmão mais velho, que só vinha para casa a cada quinze dias.
Dona Maria,
mãe de Negro Pereira, era uma senhora negra, gorda, de fala meiga, de sorriso
tímido e olhos tristonhos. Eu a achava parecida com Tia Anastácia, personagem
de Monteiro Lobato, isso me fez nutrir ainda mais carinho por ela. Um dia, fui
procurar o Negro Pereira para jogar futebol e a encontrei chorando, ela me
disse envergonhada que chorava de fome. Depois desse dia, prometi a mim mesmo
que ela nunca mais ficaria sem comer.
A casa onde
eu morava, dava de fundos para uma viela. Sem que ninguém em casa notasse, eu
enchia uma sacola com alguns mantimentos, que hoje seria uma espécie de cesta
básica e entregava para o Negro Pereira.
Aos domingos
e nas datas festivas, minha casa estava sempre cheia, vinham os parentes e era
aquela comilança. Eu separava parte de tudo aquilo, que aliás, sempre sobrava,
e levava para Dona Maria. Agradecida, ela me abraçava e me beijava os cabelos.
O mais
interessante é que nunca, ninguém percebeu que eu tirava comida da dispensa.
Tempos mais
tarde, chegaram novos moradores, novos barracos foram sendo construídos. Muitos
jovens nas ruas do bairro e pouca atividade, logo formou-se uma quadrilha.
Quando alguns rapazes aparecem com carros, roupas
novas e dinheiro no bolso, muitos garotos sentiram-se atraídos, mas aqueles
eram tempos nebulosos. Eram os anos setenta.
Mesmo com
tão pouca idade, percebi que o Negro Pereira também estava disposto a encarar a
vida no crime. Eu gostava dele como se fosse um irmão e não poderia deixar que
fizesse besteira. Por ser de boa índole e ter um coração generoso, Negro
Pereira me ouviu.
Aqueles eram
tempos nebulosos. Anos setenta.
Era uma
manhã de abril e um helicóptero sobrevoava os Jardins São Bento e Soraya.
Viaturas e cavalos da polícia chegavam aos montes. Tudo estava cercado. Os
primeiros tiros causaram uma correria generalizada e poucos curiosos, como nós,
permaneceram observando o final da ação.
Negro
Pereira e eu, olhávamos assombrados os soldados em seus cavalos, arrastando
homens amarrados pelas mãos e pelos pescoços.
Quando
enfim, o silêncio tomou conta daquele lugar, pudemos ver muitos dos nossos
amigos. Todos mortos e mergulhados em sangue, estirados nos becos, nas ruas e
nas portas de algumas casas.
Depois de
presenciar tanta barbárie, Negro Pereira e eu, voltamos calados pra casa, não
trocamos palavras, ele só me deu um abraço.
Hoje, depois de tantos anos, mesmo com toda
aquela cena de guerra, com a tristeza de tantas vidas abatidas, me sinto
orgulhoso, acho que naquele dia, salvei uma.
Negro Pereira e Dona Maria, mudaram-se do
Jardim São Bento, Pelé, comprou uma casa no Grajaú.
Depois de
muitos anos, encontrei Negro Pereira, ele estava trabalhando em uma estamparia
na Vila Olímpia. Conversamos, bebemos uma cerveja e falamos da vida. E depois
nunca mais...
Hoje, fiquei
sabendo que meu amigo, Negro Pereira, faleceu há cinco anos, senti muito por
não ter me despedido.
Mas esses
também, são tempos nebulosos.
Tuesday, March 26, 2019
Sangue nos Olhos
" O namorado estava de joelhos e sob a mira da arma de Toinho. Lágrimas de impotência escorriam misturadas ao sangue que caía do supercílio ferido. Num gesto de desespero agarrou-se a perna de Toinho, tentando derrubá-lo.
O tiro covarde ecoou na noite trágica e sangrenta de domingo no Capão Redondo. Toinho impiedosamente puxou o gatilho e à queima roupa executou friamente o rapaz com um tiro na nuca.
A moça continuava desmaiada, o corpo machucado, vilipendiado e manchado pelo esperma dos dois estupradores. Com a boca cortada e um filete de sangue que ainda escorria pelo nariz.
Toinho, sob o olhar dos irmãos caminhou até onde estava a moça e atirou no rosto dela.
Toinho, sob o olhar dos irmãos caminhou até onde estava a moça e atirou no rosto dela.
Sem serem vistos, os Ratinhos partiram em disparada para esconderem-se na mata do Colégio Adventista.
Em mais um final de semana de violência extrema e gratuita, duas famílias iriam chorar para sempre a morte de um jovem casal inocente que só queria se amar e se divertir. "
Monday, March 04, 2019
Contos Quase Infantis – Doutor Chicão
Imagem internet:
Lembro que era uma sexta-feira de um mês de abril, não
me lembro qual foi aquele ano, acho que 1976 ou 1977, foi o dia em que ficamos
sabendo que um médico iria começar a atender as pessoas do nosso bairro, seria
inaugurado um ambulatório, perto do campo do Águia Futebol Clube.
O dia da inauguração foi um acontecimento.
Uma verdadeira procissão se encaminhou para lá, todos
queriam conhecer o médico, Doutor Francisco das Chagas, ou como ele mesmo se intitulava,
Doutor Chicão.
O Zenon foi com seu trio de forró, teve cachorro-quente,
pipoca e distribuição de Cibalena.
Doutor Chicão era um homem alto, forte, jovem, estilo bonachão,
gostava de conversar e contar piadas, conquistou todos nós.
Miltinho e eu, demoramos alguns dias para conhecê-lo, até
Miltinho furar o pé em um prego nas caixas de banana do Mané Bananeiro.
A mãe de Miltinho correu para levá-lo ao ambulatório e
eu, claro, também fui com eles.
Quando entramos no ambulatório, ficamos um pouco decepcionados,
a gente achava que seria igual a um hospital, igual aos das novelas, com
enfermeiras bonitas e tudo o mais, era só a casinha da Dona Valda que foi
adaptada para ser o ambulatório. Mas era bacana!
- O que aconteceu meu rapaz? -Doutor Chicão,
sorridente, perguntou para Miltinho.
- Furei o pé no prego do Mané!
Enquanto o médico fazia o curativo eu olhava o seu gabinete.
Não havia muita coisa ali. O que realmente me chamou a atenção foi uma grande
seringa com uma agulha enorme, um taco de sinuca e uma chuteira suja de barro,
que ficavam no balcão, atrás da cadeira.
Ao reparar minha surpresa, o Doutor falou sorrindo
- Essa é a seringa da sorte e ninguém escapa dela.
Doutor Chicão só abria o ambulatório às sextas-feiras,
durante o resto da semana, trabalhava em outros hospitais, nós, do bairro, ele
atendia de graça. Doutor Chicão tratava de qualquer doença, resfriado, caganeira,
pano branco, vertigem, hemorroidas e tirava lombrigas da bunda das crianças com
papel higiênico. Até hoje, lembro do filho do Tomé de Lúcia, correndo com uma lombriga
pendurada na bunda e Doutor Chicão correndo atrás dele para puxar.
Toda sexta-feira, quinze para às seis da tarde, ele
olhava o relógio e gritava lá de dentro do gabinete:
- Todo mundo pra casa! Tenho compromisso no Bar de
Ceará, sinuca, cerveja e mocotó me esperam! Até semana que vem!
Quando alguém reclamava, ele saía do gabinete com sua
seringa da sorte e falava bem alto:
-Dona Mariquinha! Benzetacil pra todo mundo!
Era aquela correria porta afora.
Aos domingos, Doutor Chicão jogava no time do Nacional
Futebol Clube. Era um zagueiro bruto, perna-de pau, suas únicas especialidades
em campo eram, fazer pênalti e gol contra. Doutor Chicão não tinha piedade dos
atacantes do time adversário e quando dava uma “entrada “mais dura e o pobre do
adversário reclamava ele logo gritava:
- Se ficar reclamando, vai ter Benzetacil 1.200 na
sexta-feira!
O coitado do jogador adversário, com a canela toda
ralada, diante de tamanha ameaça, abaixava a cabeça e lhe pedia desculpas.
Depois de algum tempo, Miltinho me chamou a atenção
para um fato curioso e que se tornaria corriqueiro:
- Marquinhos, você já percebeu que todo mundo que
entra no gabinete do doutor sempre sai com a bunda doendo e a perna dura?
-Sim, eu sei.
-Porque será que só a Maria do Bundão é a única que
sai sorrindo?
Maria do Bundão era na verdade, Maria do Rosário, por
motivos óbvios, nós lhe demos esse carinhoso apelido, mas ela não sabia, ou
fingia não saber. O que importa mesmo é que ela era linda, a moça mais bonita
do bairro, sempre sorridente, simpática, educada. Maria do Rosário era fonte de
inspiração para todos os marmanjos do bairro. Era nossa musa.
Todos foram percebendo a cumplicidade entre Maria do
Rosário e o Doutor Chicão. Quando ele a via, abria um sorrisão. Ela também.
O mais interessante é que ela sempre era a última
paciente do doutor, sempre a última a sair do ambulatório. E quando saía,
arrumava a roupa e retocava o batom, enquanto o doutor trancava as portas.
Maria do Rosário era cobiçada pelo Sargento Pestana,
um policial militar que também morava no bairro.
O Sargento Pestana era casado com Matilde, uma
gordinha simpática que quando caminhava parecia uma minhoca rebolando. Matilde
organizava festas para os rapazes mais velhos do bairro, mas só quando o
sargento estava trabalhando, fazendo ronda. O sonho meu e de Miltinho era de um
dia poder ir em uma festa da Matilde.
O Sargento Pestana vivia seguindo Maria do Rosário.
Quando a via na rua, dirigia a viatura bem devagar e lhe fazia gracejos e propostas,
vivia tentando puxar conversa, sem sucesso. Ninguém gostava do Sargento Pestana,
acho que nem mesmo a Matilde.
O Sargento Pestana ficou furioso quando soube que a Maria
do Rosário estava de namoro com o doutor.
Não sei se era por causa do tempo que era mais frio
aquela época, mas ficávamos gripados constantemente. Minha prima tomava Xarope
São João, ela adorava. Miltinho e eu também queríamos tomar. Um dia fomos ao
Doutor Chicão e ficamos forçando a tosse até ele nos receitar Xarope São João.
O xarope não era muito bom para curar tosse, mas nos deixava alegres, leves, sorridentes e com uma preguiça deliciosa, talvez pelo excesso de álcool que continha.
Quando Doutor Chicão descobriu o verdadeiro motivo de gostarmos tanto do tal xarope,
nos aplicou Benzetacil.
Doutor Chicão gostava muito do Duílio, com ele o
doutor era complacente. Duílio era o artilheiro do Nacional Futebol Clube, como
bebia demais, o doutor lhe receitava Pedialyte, soro infantil, para curar a
ressaca e poder jogar no domingo.
Nunca esqueci desta receita...
Em uma tarde de sábado, um rapaz apareceu no Bar do Ceará.
Disse que seu nome era José. Chegou sorridente, pagou refrigerante, cerveja e
petiscos para todos, disse que acabara de se mudar para o bairro. Era um homem
bem jovem, tinha uma cabeça enorme, grandes orelhas, os olhos também eram
grandes e saltados, mas tinha uma boca miúda que não combinava com o resto do rosto.
Miltinho tacou-lhe imediatamente um apelido, Zé Boquinha.
Zé Boquinha era solteiro, morava em uma casa bonita na
Rua Alfredo Ometecidio, atrás da igreja São José Operário e tinha um SP2
amarelo. Logo começou a fazer festas em sua casa, festas estas que são inesquecíveis.
Ás vezes, convidava alguns amigos e até Miltinho e eu fomos algumas vezes.
Lembro de um carnaval. Doutor Chicão organizou uma
batucada e saímos em cortejo pelo bairro, depois fomos todos para a casa de Zé Boquinha.
Foi uma grande festa e ainda sinto como se ela nunca tivesse terminado.
Meses depois do carnaval, não me lembro o motivo pelo
qual Miltinho e eu fomos ao ambulatório. Sei que lá, encontramos Dona Julieta.
Dona Julieta tinha quatro filhas, todas bonitas, um
pouco assanhadinhas, é verdade. Ouvimos quando Dona Julieta falou com tristeza
para o doutor:
- Doutor Chicão, minhas meninas não estão muito bem, estão
com as barrigas inchadas, acho que é barriga d´água. O que o senhor pode fazer?
Doutor Chicão ouviu atentamente o lamento de Dona
Julieta e lhe falou:
-Fique tranquila. É a água do poço. Antes de beber,
ferva. Mas de qualquer forma, traga suas meninas aqui.
Enquanto o doutor tranquilizava Dona Julieta, Miltinho
me cutucava e dizia baixinho:
- Marquinhos.
- O que é Miltinho? Eu lhe perguntava.
Percebi que Miltinho estava preocupado e que estava
querendo falar com o doutor. Ele não resistiu e gritou:
- Doutor! Elas beberam a água da casa do Zé Boquinha!
- Como é, Miltinho? Que conversa é essa? Perguntou o doutor,
olhando para o rosto já pálido de Dona Julieta.
Incentivado pela pergunta do doutor, Miltinho contou
um terrível segredo:
-Sim, doutor, a água da casa do Zé Boquinha! Nós
ouvimos ele falar para as meninas de Dona Julieta, “vamos tomar uma aguinha, lá
em casa, quem bebe da água lá de casa, nunca mais esquece”.
Silêncio, silêncio, silêncio e mais silêncio...
Tempos depois, para nossa tristeza, alguns homens
vieram com jipes, tratores e caminhões, chegaram na surdina, em uma madrugada e
derrubaram o ambulatório do Doutor Chicão.
O Sargento Pestana falava com cara de mau, sorrindo e orgulhoso
que acabou com o médico comunista e subversivo.
Passamos dias com infinita tristeza, com pena e
saudades do nosso médico e amigão.
Para nossa alegria, dias depois, vimos Maria do
Rosário, com uma mala, embarcando em um carro, lá dentro, além do motorista,
havia outra pessoa, Doutor Chicão. Ficamos tristes por ele ir embora, também
porque levou nossa musa, mas ficamos felizes por ter ido em paz e por ficarmos
livres de suas terríveis injeções de Benzetacil.
Nunca mais tivemos notícias de Doutor Chicão e Maria
do Rosário. Acreditamos que foram felizes. Eles mereciam e eram pessoas
especiais.
Zé Boquinha, encontrei muitos anos depois em um baile
de carnaval do Arakan Clube, estava fantasiado de Adão rodeado por um grupo de
garotas vestidas de Eva.
Hoje, sei que nós humanos também somos movidos pela
saudade.
Mas como dizia Doutor Chicão: “não há medicina, nem
esparadrapo, nem bandagem ou Penicilina que possa curar uma ferida que se chama
saudade”.
Tuesday, February 05, 2019
Exclusivo! Adélio Bispo Falou
Adélio Bispo de Oliveira falou com o repórter Pedro Riveros e relatou todo o plano para matar Bolsonaro.
Logo mais,neste blog.
Friday, November 23, 2018
A Incrível Orquestra da Floresta
A Incrível Orquestra da
Floresta
No princípio,
antes do homem habitar a terra, só haviam os animais. Eles também já eram
organizados. Tinham seus reinos e suas leis.
No princípio, não existiam países e nem
fronteiras, somente os rios, as montanhas e os oceanos separavam a terra.
A terra não se chamava terra, chamava-se
Grande Vale, e à cada lugar dava-se um nome que se adequava aos animais que lá
viviam.
O Vale da Alegria era governado pelo Rei
Alfeu, o mais inteligente dos elefantes. O Rei era casado com a Rainha Débora, uma
elefanta linda e amorosa.
O Vale da Alegria estava se preparando para
uma grande festa, Depois de vinte e dois meses, estava chegando a hora de se
conhecer o Príncipe herdeiro, a Rainha Débora iria dar à luz.
Os moradores do Vale da Alegria esperavam
ansiosos pelo anúncio do nascimento do bebê real. Mas mesmo com toda alegria, também
havia a preocupação com a reunião do Grande Conselho dos Mais Velhos.
Segundo a lei do Vale da Alegria, todo bebê que
nascia e logo que conseguisse ficar de pé, deveria ser imediatamente
apresentado ao Grande Conselho, pois os que nasciam com alguma imperfeição, seriam
enviados para o exílio no Vale da Tristeza.
O vale da Tristeza era um lugar terrível, feio,
era somente o lugar em que os pobres animaizinhos eram deixados sozinhos para
morrer.
- O Príncipe nasceu!
Anunciou
o Mestre Gorila Orador.
Gritos e vivas ecoaram durante toda a noite
no Vale da Alegria.
Depois da grande noite de festa, era chagada
a hora mais tensa, o momento de apresentar o bebê real ao Grande Conselho.
Reunido o Grande Conselho, a Rainha Débora
apresentou seu bebê:
-Senhores! Apresento-lhes meu filho, o Príncipe
herdeiro do trono do Vale da Alegria.
Ao ver o Príncipe caminhando, a Hiena
Carlos, um dos inimigos do Rei Alfeu, em tom alarmante e com indisfarçável
satisfação, gritou:
- O Príncipe é manco! Está condenado ao
exílio no Vale da Tristeza!
A rainha pôs-se a chorar e seu choro comoveu
a todos, que também não resistiram e choraram com ela, exceto, a Hiena Carlos.
Foi
estabelecida a data da partida para o exílio, seria em três meses.
Durante
muitos dias, a tristeza era imensa, a Rainha continuava seu choro dolorido e
infinito.
O Rei estava
quieto, pensativo e envolto em profunda tristeza.
Após
conversar durante dias com a Rainha, o Rei convocou todos os moradores do vale
para uma reunião e anunciar uma decisão que haviam tomado:
-Senhores do
Grande Conselho e todos do Vale da Alegria, como não podemos deixar de cumprir
a lei antiga, eu e a Rainha, abdicaremos do trono e partiremos com nosso filho
para o Vale da Tristeza!
Imediatamente, logo após a renúncia do Rei,
a Hiena Carlos assumiu o trono, mesmo sob muita briga e discórdia.
O Rei,
a Rainha e o Príncipe, preparavam-se para partirem sozinhos para o exílio, mas
foram surpreendidos pelo Macaco Gabriel:
- Meu rei! Vossa Majestade e sua família não
irão sozinhos, montamos um grupo e partiremos com vocês!
Tigres, rinocerontes, girafas, pássaros
entre tantos outros animais acompanharam a família real para o Vale da
Tristeza.
Foi um longo caminho, uma jornada difícil, dias
e mais dias com frio, fome, sede e cansaço.
Depois de dois meses, enfim, entraram no tão
temido Vale da Tristeza. Tudo era desolador, animais doentes, muito choro e
amargura. Animaizinhos tristes, indefesos, inocentes e abandonados eram os
únicos habitantes daquele lugar tão feio.
O Rei Alfeu, usando toda sabedoria e amor, logo
declarou:
- Aqui, somos e sempre seremos todos iguais,
somos todos irmãos! Vamos no proteger e cuidarmos uns dos outros! Vamos viver
em paz e igualdade até o fim de nossos dias!
E assim foi feito.
Nos primeiros dias, somente os animais saudáveis
caminhavam longas horas em busca de água e comida, o que não era fácil
encontrar. No começo era pouca água e comida, mas foram descobrindo novos
lugares.
O Macaco Gabriel era engenheiro, logo
começou a construir coisas para ajudar os deficientes, com pedaços de árvores
fez uma prótese para alongar a perna do Príncipe, que nunca mais teve que andar
mancando. O Macaco Gabriel fez coisas incríveis, reconstruiu com galhos e
folhas asas para os pássaros e fez muito mais maravilhas.
Pouco tempo depois, todos os animais já
podiam sair em busca de água e comida. O caminho era longo, mas cada um, à sua
maneira conseguia trazer um pouco.
Um dia, O Príncipe, observou que grande parte
da água que traziam ia ficando pelo caminho e falou com sua mãe:
- Mamãe, a
água está caindo no chão.
A Rainha sorriu, pediu para que todos
prestassem atenção e explicou:
-A água que vai ficando pelo caminho, vai
deixar nossa caminhada mais suave, a terra ficará mais fresca.
A Girafa Eurides perguntou:
-Rainha, então a senhora tem o trabalho de
trazer tanta água para depois ir deixando cair no chão, de propósito?
Novamente sorrindo a Rainha voltou a
responder com ternura:
-Sim, é preciso. Este lugar é quente, feio, triste,
sombrio e escuro. Essa água que deixamos cair, vai fazer brotar plantas, vai
trazer os insetos, vai fazer nascer as flores, as flores nos trarão as
borboletas e as borboletas nos trarão a primavera.
A primeira borboleta, enfim, bateu suas asas
no Vale da Tristeza.
Depois de muito, muito tempo, o Vale da
tristeza foi ficando cada dia com mais claridade, as nuvens escuras
dissipavam-se, brotaram plantas, flores, surgiram as nascentes com água pura. Todos
sentiam-se felizes.
A Girafa Eurides sugeriu:
- Vamos mudar o nome deste Vale, o que
acham?
Todos concordaram alegres.
-De hoje em diante vamos chamar de Vale da
Felicidade.
Houve muita festa e alegria.
O Príncipe, além de ter nascido com uma pata
menor, também tinha outra coisa que chamava a atenção, sua tromba era marcada
por pontos azuis verticais.
O tempo realmente passava devagar no Vale da
Felicidade, os mais novos, todas as tardes iam se reunir em uma grande pedra, ninguém
no vale sabia exatamente o que eles faziam ou conversavam, até que um dia...
Como de costume, os adultos estavam
reunidos, preparando a refeição e fazendo planos para o dia seguinte, mas um
som mágico, como se estivesse vindo do céu lhes chamou a atenção. Todos ficaram
em silêncio, de olhos fechados e emocionados. Era um som tão maravilhoso e
lindo que esqueceram do tempo. Quando deram por si, a música havia parado,
curiosos, correram em direção a grande pedra, o Príncipe e os outros
animaizinhos formavam uma linda orquestra, com harpas feitas de cipós, flautas
de bambu, tambores de casca de frutas e xilofones de pedras de quartzo. As
manchas azuis na tromba do príncipe faziam soar notas musicais, melodias
mágicas, como o som de um oboé encantado.
Era a incrível orquestra da floresta.
Tudo corria bem até que um dia chegou o
Pardal Mensageiro, ele vinha do Vale da Alegria, trazia a mensagem do Grande
Conselho, pedindo para que o Rei retornasse urgentemente. O Vale da Alegria
estava em convulsão, brigas, miséria e a ganância da Hiena Carlos, destruíram o
Vale da Alegria.
O Vale da Alegria já não era mais alegre.
Por um instante, todos os animais ficaram
preocupados, se o Rei partisse, todos voltariam a sofrer.
Mas o Rei Alfeu era muito, muito sábio e
respondeu ao mensageiro:
- Diga ao Grande Conselho que já não sou
mais rei do Vale da Alegria. Diga que aqui, todos somos iguais. Diga também, que
aqui, todos somos reis, rainhas príncipes e princesas. Aproveite e diga ao
Grande Conselho que agora, o Vale da Tristeza não existe mais. Diga ao Grande
Conselho que aqui é o Vale da Felicidade.
A primavera chegou novamente e a orquestra
da floresta se preparou para o grande espetáculo, o grande espetáculo da vida.
FIM.
Friday, April 27, 2018
Thursday, March 08, 2018
Apenas Escrevo
Apenas Escrevo
Escrevo porque gosto
de escrever.Gosto de contar histórias.Gosto das coisas simples.
Não escrevo para
receber prêmios.Quando escrevo,fujo das palavras rebuscadas,do floreio
literário.Não perco tempo tentando criar novas palavras.Não quero parecer
intelectual,nem preciso.Não faço parte de grupos,nem quero.
Não quero fazer parte
da elite literária,que foge do povo,que não quer vender livros para o povo.
Eu escrevo para quem
não lê.Também escrevo para as prostitutas,para os operários,para os
encarcerados.Eu escrevo para mim, eu escrevo para o povo!
Marcos Tecora Teles
Monday, March 05, 2018
Elis e Eu
Foto:Internet
Não me lembro bem qual foi o mês,talvez final de outubro ou novembro do ano de 1980.Nessa época eu trabalhava na fábrica de sapatos do meu tio,no Itaim - Bibi,Creazione Grazia,na Rua Bandeira Paulista.A fábrica ficava nos fundos e na frente,a loja.
Meu tio fazia os sapatos mais lindos e os mais disputados pelas celebridades e mulheres da alta sociedade brasileira e era comum receber quase todos os dias uma visita ilustre na loja.
Era um final de tarde quente,eu me preparava para ir embora quando vi aquela mulher olhando a vitrine.Eu estava de cabeça baixa,arrumando as gavetas do balcão,levantei novamente a cabeça e ela continuava olhando os sapatos e sorria.Eu a reconheci,era Elis Regina!
Ela percebeu minha surpresa,sorriu de volta,apagou o cigarro e entrou na loja e sem falar nada, cantou para mim: " De tanto levar frechada do teu olhar,meu peito até parece sabe o quê? Táubua de tiro ao álvaro,não tem mais onde furar,não tem mais..."
Meu tio tirou as medidas dos pés de Elis e lhe fez dois lindos pares de sandálias,no dia em que ela foi buscar eu não estava.Mas ela me deixou um convite para vê-la em um show inesquecível.
Saudades de Elis!
Thursday, October 05, 2017
Ninoska E As Garotas de Sarajevo
Morte e Vida
Fui encontrada dentro de uma caixa de papelão, na porta de uma casa de um casal
de agriculturoes em uma pequena cidade de Santa Catarina. Dentro da caixa,
sobre meu corpo, havia um pedaço de papel com uma única frase: “ O nome dela é
Ninoska. ”
Tive uma infância normal como qualquer menina, não me lembro de muita coisa,
lembro que nunca chorei.
Sei que o tempo passou depressa pra mim. Quando me dei conta, eu já era uma
garota com um metro e oitenta de altura, cabelos negros e olhos azuis.
Nunca encontrei meu lugar no mundo.Mas sempre fui uma garota forte.
Perdi meus pais adotivos ainda na adolescência. Um louco, dirigindo bêbado em
alta velocidade os matou atropelados, enquanto caminhavam, pelo acostamento da
estrada. Meus pais vinham do sítio, onde passaram o dia trabalhando.
Fui morar com uma tia, irmã de meu pai, uma mulher interesseira e cruel, roubou
tudo o que me restou. Depois de me explorar de várias formas, me inscreveu em
um concurso de Miss e depois me entregou para duas mulheres, que me disseram
que eu seria modelo de sucesso.Nem preciso dizer que não foi nada do que me
prometeram.
Cheguei em São Paulo e fui apresenada à uma agência de modelos, o trabalho?
Demonstrar produtos em lojas e supermercados. Aquilo não era nem de longe o
que eu havia imaginado.
O dinheiro era pouco e tinha os malditos convites indecentes.
Larguei tudo e fui procurar um emprego fixo.
Durante um tempo, até que as coisas andaram bem.Estava morando em uma
kitinete no bairro da Bela Vista, conseguia pagar as contas em dia e até me divertia
na noite.
Nunca entendi porque a vida passava mais depressa para mim do que para os
outros.
Perdi o emprego e tive que deixar a quitinete, fui morar no Capão Redondo.Um
rapaz que conheci, Gustavo, me arrumou uma casa lá.Era um cubículo úmido, em
um quintal com outras seis casinhas. A rua era cheia de bares, dia e noite, carros
com som alto. Os meus vizinhos também pareciam surdos, ouviam suas músicas no
último volume e cada um escutava um estilo musical, um inferno.
Às vezes, Gustavo aparecia por lá, somente nos dias em que estava bem, ele era um
rapaz bonito, educado, parecia ser de família classe média alta, mas não tinha total
sanidade mental.Mas eu gostava dele, me sentia segura e protegida em sua
companhia.O problema é que ele sempre arrumavava um motivo para
desaparecer, às vezes saia sem destino, viajava para vários lugares que chamava de
místicos, para vender artesanato.
Quando tudo está ruim a gente acha que não pode piorar, engano, as coisas
ficaram horríveis para mim.
Eu já não tinha trabalho fixo, dia sim, dia não, eu não acordava bem, e depois de
um tempo comecei a ter febre todas as tardes.Eu não tinha plano de saúde,
dependia do serviço público, porém, me faltava dinheiro para sair.
Comecei a atrasar o aluguel, a empresa de energia cortou a minha luz, também
não tinha mais gás no fogão.
Mesmo me sentido mal, saía cedo e voltava tarde da noite, para que o senhorio não
me cobrasse os meses de aluguel atrasados.Perambulava pelas ruas até que
encontrei uma oportunidade em uma empresa de cobrança.
Preparei um currículo e no outro dia cedo fui entregar e passar por uma entrevista
de emprego. Deu certo, seria contratada, bastava fazer o exame médico
admissional.
O rapaz da empresa me deu o endereço da clínica, meu coração estava aos
sobressaltos, ansiosa, enfim, um trabalho. Vida nova.
A recepcionista da clínica me chamou e me pediu para entrar no consultório, um
médico jovem e simpático me convidou a sentar e começou a fazer perguntas:
-Você sente alguma coisa?
-Não.Me sinto ótima.-respondi titubeante, há dias não me sentia bem.
-Vamos medir sua pressão, sua temperatura, tudo bem?
-Tudo bem.
O médico colocou a mão em meu rosto e me falou:
- Você está com febre.
Tentado convencê-lo, lhe falei:
-Deve ser o calor, vim correndo.
Ele não acreditou no que lhe disse, saiu da sala e depois voltou com outro
médico.Os dois converasarm baixinho por alguns instantes, aproximaram-se de
mim e me disseram:
-Vamos precisar fazer alguns exames, é para o seu bem.
Naquele momento eu só queria um laudo me liberando para o trabalho, não sabia
da gravidade de minha situação.
Os médicos me deram um remédio, pouco tempo depois duas enfermeiras me
pediram para subir em uma maca, me levaram para a porta da clíncia onde uma
ambulância estava me aguardando.
Cheguei ao Hospital das Clínicas e fui atendida imediatamente, me levaram para
uma sala e começaram a me examinar, foi demorado. Eu estava assustada como
nunca estivera antes.
Depois dos exames, me colocaram em um quarto, lá fiz a primeira refeição do dia,
me disseram que os médicos viriam falar comigo, esperei, esperei...enfim, eles
entraram.
Um dos médicos começou a me fazer perguntas:
-Quantos anos você tem?
-Acho que 26.
-Acha? Como acha? -O médico perguntou surpreso.
Tive que lhe contar a minha história e ele teve pena de mim.Segurando em minhas
mãos me falou com imenso carinho e piedade:
-Olha, nós vamos cuidar de você, vamos fazer o possível para te curar.
Fiquei ainda mais assutada.
- Você está doente, com um tumor agressivo no pâncreas.
Eu tentei chorar, lembrei que sempre fui uma garota forte, mas meu mundo estava
desabando.
Quando tudo parecia ruim o médico me deu mais uma notícia que foi o nocaute
definitivo:
-Você está com uma gravidez de cinco meses.
Era tudo o que eu não precisava, um câncer letal e uma gravidez, sinceramente,
era muito azar para uma única pessoa.
Atordoada e sem rumo, me disseram para ir para casa e que voltasse dois dias
depois, iriam procurar a melhor forma para começar o tratamento.
Saí do hospital carregando minha sentença de morte.Eu estava só, não tinha com
quem desabafar, lamentar. Por horas só pensei na ponte mais alta de onde eu
poderia me atirar, saltar nos trilhos do metrô. Eu só pensava em morrer depressa,
seria melhor do que ficar trancada no quarto de um hospital esperando a morte
me cerrar os olhos.
A chuva caia forte e silenciosa, caminhei até a estação do Metrô, minhas roupas
estavam encharcadas. Uma de minhas tias, por não ver chorar me disse um dia:
“Chega uma hora em que você sentirá tanta tristeza, que lágrimas escaparão de
seus olhos e escorrerão pelo teu rosto cansado, algumas gotas ficarão depositadas
por alguns segundos em teus lábios, então você sentirá o gosto das emoções que
passou a vida inteira tentando esconder. ” Minha tia tinha razão.
O trem encostou na plataforma, àquela hora da noite, não estava muito cheio,
ainda havia um assento vago, sentei e me entreguei aos pensamentos. Eu pensava
em como a vida é injusta, carregava no ventre as duas coisas mais importantes
para os seres humanos. Eu carregava ao mesmo tempo uma nova vida e a morte.
Ainda entregue aos pensamentos e sentimentos diversos, não havia percebido que
uma garotinha entrara na estação anterior. Ela segurava na mão de um senhor
muito idoso. Como não me sentia fraca, cedi-lhes o lugar.
A garotinha pediu para segurar minha mochila, eu fiz um gesto dizendo que não
precisava, ela insistiu:
-Me dá! Eu levo, você é educada! - Depois completou: -Você é linda!
Retribui os elogios com um esboço de sorriso.
A garotinha e o velhinho não tiravam os olhos de mim.Olhando pelo reflexo da
janela do vagão, os via cochichando e sorrindo em minha direção.
Os altos –falantes do metrô anunciaram a próxima estação, a garotinha fez um
sinal com o dedo, me chamando para que eu colocasse o ouvido perto de sua
boca.Quando encostei, ela me fez um carinho e disse baixinho em meu ouvido:
-Não se preocupe, Ninoska, tudo vai dar certo.
Por um milésimo de segundo, senti um calafrio, uma luz intensa invadiu meus
olhos.
A garotinha desceu na estação. Quando ela entrou com aquele velhinho no trem,
achei que estavam juntos, mas para minha surpresa, ao desembarcarem na
estação, cada um tomou uma direção. Tentei acompanhar à distância o caminhar
lépido da garotinha, a perdi de vista, ela desapareceu na escada rolante.
As palavras dela me deixaram curiosa, ela sabia meu nome. Talvez, também
soubesse o que eu estava sentindo.
Quem era aquela garotinha? Fiquei horas me perguntando.
O que ela viu em mim? Minha beleza? Meu tamanho?
O que sei é que por um tempo ela me fez esquecer um pedaço do dia triste que
estava vivendo.
Quando o trem começou a fechar as portas, para minha surpresa ela surgiu
novamente e gritou para mim:
-Ninoska! O segredo é Destino!
A Caixinha
tão intensa, andei depressa para tomar o ônibus para o Jardim Comercial. Queria
chegar em casa e já não estava tão preocupada em encontrar o senhorio, iria dizer
logo pra ele, que não se preocupasse com os aluguéis, porque eu estava condenada
e em poucos dias ele poderia alugar a casa para outra pessoa.
O ônibus não demorou, a viagem foi rápida, pouco mais de dez minutos.
Desci no ponto na entrada da rua, normalmente, àquela hora os bares estavam
sempre abertos e lotados de bêbados e desempregados, mas naquela noite não,
estavam fechados. Achei incrível, eu podia ouvir o som do silêncio que jamais
poderia imaginar haver naquele pedacinho do inferno.
Ao abrir o portão dei de cara com o senhorio, respirei fundo e quando me
preparava para lhe dar a minha terrível notícia ele me falou contente:
-Boa noite! Quitaram seus aluguéis, viu? Outra coisa, religaram sua luz e o
caminhão do gás deixou um botijão na sua porta.Quer que eu troque o botijão pra
senhora?
Surpresa, logo pensei em Gustavo, achei que ele deveria ter aparecido e
conversado com o senhorio.Mesmo assim eu quis confirmar:
- Quem pagou tudo isso?
-Os aluguéis, depositaram em minha conta, o resto eu não sei dizer.
O senhorio trocou o botijão, fui tomar um banho e me preparei para fazer um
café.
A incerteza de meu futuro já começava a me atormentar, eu sabia que não teria
muito tempo de vida, ouvi os médicos falando baixinho que eu só resistiria durante
cinco e seis meses. Não chorei. Só pensava naquela vida que estava dentro de mim.
Um pensamento me confortou um pouco.A criança tinha um pai, Gustavo tinha
família e poderiam criar meu bebê. Mesmo depois que eu partisse, um pedaço de
mim continuaria a existir.
Coloquei o café no copo e fui tirar minhas coisas da mochila. Retirei lá de dentro a
blusa, o estojo de maquiagem, um par de tênis e o telefone descarregado. Também
havia algo que tinha certeza não ter colocado na mochila, uma caixinha de
madeira forrada de veludo.Pensei até que alguém trocara minha mochila no
hospital, não houve engano, era a minha mesmo, exceto a caixinha, as outras coisas
me pertenciam, alguém a colocou lá.
A caixinha era linda, feita com capricho, era um artefato antigo. Havia uma
pequena peça que a trancava, um segredo de cofre, com letras no lugar dos
números.Novamente aquele calafrio e aquela luz intensa me atingiram.
Tive certeza, foi a garotinha do trem quem a colocou em minha mochila.Também
tive certeza que se tratava de um presente.
Intrigada com a caixa, não consegui pegar no sono, segurava a caixinha, olhava a
riqueza dos detalhes, até que me lembrei das palavras da menina.
Devarinho fui colocando os dedos na pequena fechadura, fui digitando letra a letra
a palavra; D-E-S-T-I-N- O.
A pequena caixa se abriu, dentro dela um lindo colar, um par de brincos, um
pequeno lenço de seda e um caderninho.
Fiquei ainda mais surpresa com a capa do que parecia ser um diário, o pequeno
caderno tinha a capa de camurça vermelha, as bordas eram enfeitadas com filetes
dourados, havia uma plaquinha de ouro onde estava escrito; Ninoska.
O Caderno
uma língua que demorei a identificar, era bósnio.
Folheei cada página, e aos poucos aquele idioma, de alguma forma, ia parecendo –
me familiar.
Eu estava exausta, muita coisa me aconteceu naquele dia, fui procurar o sono.
Não tenho certeza se já dormia, de repente, comecei a sonhar que lia aquele
caderno e no sonho eu podia ouvir a voz de sua dona lendo comigo em voz alta:
“- Me chamo Ninoska e minha história não é muito diferente da história de
qualquer garota. Apareci em uma manhã fria de dezembro. Fui encontrada dentro
de um cesto, na porta de uma casa humilde de um casal de operários em Sarajevo.
O tempo parece ter passado mais depressa pra mim do que para os outros.
Tive uma vida normal como quase toda garota.Perdi meus pais e irmãos em 1992,
na guerra dos Balcãs, nosso povo quase foi dizimado em um dos maiores
genocídios da história.
Nossa cidade foi bombardeada, perdemos nossas casas, nossa identidade e nosso
futuro.Foram tempos terríveis.
Eu era a garota mais bonita de Sarajevo, era a favorita no concurso de Miss que
organizaram para chamar a atenção do mundo, denunciando aquela guerra
desigual e estúpida.
Infelizmente não pude ser Miss, na semana do concurso fomos expulsos de nossa
terra, fugimos para os campos de refugiados na fronteira com Montenegro. Dias
de caminhada, frio, fome, medo e incertezas. Procurávamos uma nova pátria, um
país que nos acolhesse.A Europa nos fechou as portas, éramos um povo errante e
assim passaram-se meses para alguns e anos para outros.
Na fronteira com Montenegro, armou-se o acampamento, milhares de pessoas
acotovelam-se naquele lugar. O frio glacial, a falta de remédios, de roupas, comida
e água, nos atormentava o tempo todo.As tropas da ONU estavam lá, não sabíamos
se nos protegiam ou nos vigiavam, erámos prisioneiros da ganância e do poder.
A guerra me deixou sequelas psicológicas, passei a não distinguir a realidade da
fantasia.Estava ficando louca.Passava horas do dia procurando uma maneira de
acabar com minha própria vida, já não suportava viver daquela maneira. ”
Eu estava sentindo o que Ninoska narrava em sua história, podia sentir o frio, a
violência, também podia ouvir as metralhadoras vomitando chumbo e as bombas
caindo sobre as casas.Parecia que algo nos unia, talvez fôssemos parte de uma
mesma história:
“-A cada dia chegavam mais pessoas, mulheres, idosos, crianças, pessoas com
deficiência, sabíamos que muitos não sobreviveriam sem ajuda, ajuda que aliás,
quase nunca chegava.
Minha sanidade estava comprometida, muitas coisas começaram a acontecer a
minha volta e eu não conseguia distingui-las.
Em uma tarde de muita neve, me perdi na tempestade, comecei a gritar
desesperada, aquele foi um dos poucos dias em que não havia pensado em me
matar.
Na minha loucura, imaginei que passei a tarde comprando perfume em Paris, que
passeei pelas ruas de Milão experimentando os casacos, que também caminhei em
Nova Iorque e dei gorjetas para um belo rapaz que tocava saxofone na Quinta
Avenida, imaginei que fiz tudo o que uma garota sonha fazer.
Eu não consegui terminar meu passeio, minhas compras. A tempestade de neve me
envolveu, porém, senti uma pequena mão segurando a minha. Uma linda
garotinha me salvou, ela sorriu e falou no meu ouvido:
-Não se preocupe, Ninoska, tudo vai dar certo.
A tempestade acabou, tudo ficou calmo e pude ver um céu estrelado, igual ao céu
de Sarajevo. ”
A Flor Iluminada
continuavam em minha cabeça:
“- Fazia alguns meses que eu estava no acampamento, e até o acontecimento da
neve, ainda não tinha cruzado com aquela garotinha, mas eu tinha plena certeza de
que ela sempre esteve ali.
Ela ficou muito próxima de todos, estava sempre alegre, sempre limpa,
definitivamente, ela não fazia parte daquele lugar. Ela conversava com os
soldados, com os poucos médicos e enfermeiros que de vez em quando aparecia por
lá. Ela sempre desaparecia por horas e depois voltava trazendo alguma coisa,
trazia uma garrafa de água, um pão e até flores. Aquela garotinha nos contava
histórias fantásticas, todos acreditávamos que tudo era fruto de sua imaginação
infantil.
Uma de suas histórias era sobre sua casa e sua rua. Nos dizia que morava em uma
pequena rua de Sarajevo e que em sua rua só havia sua casa.Nos contava sempre
que quando anoitecia, sua rua se iluminava, os paralelepípedos ficavam coloridos e
brilhavam, como uma iluminação de um grande espetáculo, e que no jardim de sua
casa havia uma árvore que brotava uma flor que era iluminada e que tinha um
perfume que só existia naquela única flor. Dizia que através daquela flor, sua mãe
surgia todas as noites.
Algumas pessoas diziam a ela que tal lugar não existia em Sarajevo. Ela sorria e
desaparecia novamente.
O nome dela era Nina. ”
Por um momento, tenho certeza ter sentido o perfume daquela flor, que só nasce
no quintal da casa de Nina, em Sarajevo:
Toby o Cachorro Andarilho
delas, mas cada vez mais a presença de Nina se tornara indispensávavel para todos
os acampados, Nina era nossa única e verdadeira fonte de alegria.
A senhora Auguta era a pessoa mais idosa do acampamento,tinha problemas de
saúde,pouco se locomovia,vivia triste e chorosa,dizia ser fruto de um
arrependimento.No bombardeio que destruiu sua casa,deixou seu cão,Toby,preso
embaixo de uma coluna de madeira,ela não teve coragem de voltar para tirá-lo de
lá,o pobre cão ficou latindo de dor até perder os sentidos.A senhora Augusta dizia
sofrer em saber que poderia ter socorrido seu amigo inseparável,ela dizia que
Toby era na realidade a única companhia que tivera em muitos anos.
Ela às vezes até esboçava um sorriso quando nos contava das traquinagens do seu
cão.Falava que Toby lhes buscava as sandálias, lhe acordava para avisar que o
entregador de leite estava chegando, entre tantas outras coisas que os cães fazem e
nos surpreendem.Mal começava a falar sobre Toby, a senhora Augusta, logo
desabava a chorar.
Não sei se imaginei ou presenciei, porque logo que aconteceu o fato, a senhora
Augusta desapareceu do acampamento, acho que a levaram para outro lugar.Ela
falava sobre Toby, Nina se aproximou da senhora Augusta e começou a pentearlhe
os cabelos, falou algo em seu ouvido e como de costume, desapareceu por horas.
Estávamos em volta da fogueira quando ouvimos latidos, um cachorro magrinho,
sujo, faminto e cansado, pulou no colo da senhora Augusta, era Toby. Ninguém
nunca explicou como um cãozinho sozinho, passando por campos de guerra,
acampamentos de refugiados, passando pelo frio intenso. Como explicar que um
cãozinho conseguiu caminhar setecentos quilômetros para encontrar sua dona. Só
pode ser amor incondicional.
O amor, o amor é como um rio, o rio corre ao encontro do mar. ”
A Volta do Capitão
existido. A doença, a gravidez, o presente. Nada mais fazia sentido, e eu não
conseguia acordar
A narrativa do diário de Ninoska me deixava mais curiosa, a fantástica história de
Nina me comovia cada vez mais:
“-Eu me sentia bem, o acampamento estava ficando mais vazio, mais e mais
pessoas estavam voltando para casa.Há dias eu estava completamente lúcida,
minha mente estava tranquila. Existia uma coisa que nos deixava tristes, o choro e
os gritos de um rapaz, Denys. Ela era sofria de múltiplas deficiências, inclusive,
mental. Ele passava dias e noites chamando pelo pai.
O pai de Denys era capitão do exército Bósnio, as forças de paz tinham certeza de
que ele havia morrido no começo da guerra.
As pessoas tentavam distrair o rapaz, era impossível, quanto mais se tentava
consolá-lo, mais ele chorava e gritava pelo capitão.
Não tínhamos muito o que fazer, a maioria das pessoas afastavam-se por piedade.
Não era fácil presenciar o sofrimento do rapaz.
Denys conheceu Nina.O sorriso encantador da garotinha o conquistou. Nina
brincava com Denys, lhe contava histórias, era a única que lhe deixava calmo.
Uma nova leva de refugiados fora autorizada a entrar em Montenegro, Denys
também seria aceito.O rapaz pressentiu que iria embora, todos sabíamos que ainda
imaginava que o pai ainda estivesse vivo e viria lhe buscar e queria estar lá quando
ele chegasse.
Estávamos preparando o pouco de alimento que teríamos naquele dia, quando um
homem chegou no acampamento, usava uma tipoia, tinha as barbas grandes e
procurava pelo filho, era o capitão.
Ele estava confuso, falava coisas desconexas, dizia que uma garotinha lhe levou
uma mensagem, dizendo onde seu filho se encontrava, disse que caminhou por
dias, sem comer e sem beber nada e que mesmo assim, não estava cansado.
Denys chorou nos braços do pai, o capitão chorou, todos choramos. ”
O Casamento de Kalinka e Tivy
podia sentir seu coração:
“-Depois de meses no campo, havia a possibilidade de voltar para casa, eu estava
alegre, sabia que não haveria casa, apenas escombros e que teria que recomeçar do
nada.Mas o que é a vida? Não é um recomeçar infinito?
Fomos informados que o transporte chegaria em breve, voltaríamos para a Bósnia.
Só depois de começar a esvaziar o acampamento, foi que me encontrei co
Kalinka.Ela também foi uma das candidatas ao Miss Sarajevo, esteve mudando de
lugar durante meses.Quando começou a guerra ela estava de casamento marcado
com Tivy, um jovem e promissor jogador de futebol. A guerra adiou o sonho deles.
Eles estavam esperançosos em conseguirem uma nova casa, mas havia um
problema, apenas um dos dois poderia sair naquele dia, não havia garantia de
outra data, poderia ser nos próximos meses ou nos próximos anos.
Apenas o nome de Tivy estava na lista.
Kalinka chorou, sabia que poderia pedir para que o noivo ficasse, mas seria injusto
com ele, Tivy tinha um sonho, seria um astro do futebol.A itália concedeu
cidadania ao rapaz, poderia se naturalizar italiano e defender a seleção. Ela
poderia ficar ali, esperar outra oportunidade.
Nina apareceu segurando na mão de um oficial, nunca saberemos onde ela o
encontrou ou o que ela lhe falou. O homem parecia ter saído de um filme, como um
personagem que entra em cena de forma triunfal, trazia uma garrafa de vinho e
Nina um pequeno buquê.
O oficial fez uma pequena reunião no acampamento, chamou Kalinka e Tivy e
proclamou:
-Senhoras e senhores, estamos aqui para celebrar o casamento de Kalinka e Tivy,
que nesse momento passam a ser cidadãos italianos.
Não me recordo de tudo o que vi, só me lembro de ter ouvido a voz de Kalinka,
repetindo dezenas de vezes: Sim, sim, sim...”
Os Escombros de Sarajevo
dos ônibus. Pensei em deixar o restante da leitura para depois. Não consegui, eu já
entendia o que estava escrito:
“-Na manhã quente de junho, parti do campo de refugiados, voltava para
Sarajevo.
A cidade era escombros, entulho, lixo e marcas da guerra. As pessoas
trabalhavam, reerguiam suas casas e tentavam resgatar suas vidas.
Eu procurei por Nina. Durante meses, busquei sem sucesso o lugar onde ela disse
que morava.
Talvez eu ainda estivesse perturbada e tenha sonhado com tudo o que acho que vi.
Certamente, Nina era só uma fantasia de uma mente perturbada precisando de
conforto.
Depois de muitos anos, reconstruí minha vida, casei-me e tenho uma filha, uma
linda garotinha que dei o nome de Nina, homenagem ao sonho que me curou.
A gente não foge do destino.
Nina, minha filha se perdeu, saiu sozinha da escola e não voltou para casa.Entrei
em pânico, percorri Sarajevo, perguntei em todos os lugares, chamei a polícia,
bombeiros, paramédicos. Depois de horas, já a noite, encontrei um senhor idoso e
surdo, que acenava para mim e me indicava uma rua estreita.Rua Odredište.
Passei anos e anos procurando e sonhando com aquela rua, ela sempre esteve perto
de mim.Era exatamente como Nina me dissera no campo de refugiados, tudo
brilhava, a única casa da rua estava toda iluminada. No jardim, a flor que tem um
perfume, que só existe nesse lugar do mundo.
Encontrei minha filha Nina, ela olhava a flor e sorria, parecia ouvir alguém lhe
contar uma linda história.
Meu nome é Ninoska e agora sei que nasci em uma pequena rua de Sarajevo. ”
Eu não tinha compromisso naquele dia, pensei em levantar, mas voltei para a
cama.Fiquei pensando na história mágica que acabara de ler.
A Surpresa
sobre o meu tratamento. Com muito medo entei na sala do oncologista, ele me
recebeu com um sorriso que irradiava alegria e espanto, me disse apressado:
-Ninoska, por favor, me perdoe!
-Perdoar o quê doutor?
-Sim! Nós cometemos um grande equívoco.
Fiquei ainda mais assustada.
-Não sei onde erramos, você não tem doença alguma! É só gravidez!
Chorei, chorei, chorei...
Depois do susto, em poucos dias comecei no novo trabalho, Gustavo apareceu,
estava bonito como da primeira vez que o vi.Ficou feliz em saber que seria pai.
Disse a ele que seria uma menina.Ele lhe deu o nome; Nina.
Boa Noite, Mamãe
braços.
A família de Gustavo estava toda lá.
Aos poucos o quarto foi se enchendo de presentes e chegavam de vários lugares e
por fim, chegou um envelope, dentro, uma passagem para Sarajevo.
Seis meses depois embarquei para a Bósnia, fui só, Gustavo ficou com nossa Nina.
A viagem seria rápida.
Cheguei em Sarajevo em um dia quente e chuvoso, instalei-me em um hotel perto
do centro. Logo, arrumei minhas coisas nos armários e fui caminhar pela cidade.
Nada me parecia estranho em Sarajevo, era como se eu já conhecesse aquele lugar.
Fui procurar a Rua Odredište. Ninguém conhecia. Senti-me triste, como eu
poderia ter imaginado que tudo aquilo fosse real? Alguém estava me pregando
uma peça.
Voltei ao hotel e pedi para que me ajudassem a antecipar minha passagem de
volta.
Já que estava ali, fui ver o céu estrelado de Sarajevo e caminhei por alguns
quarteirões. Avistei um velho magro me pareceu familiar. Era ele mesmo! Ele
estava com a garotinha no Metrô!
Ele saiu caminhando depressa, como pedindo para que eu seguisse, eu o segui, na
entrada de uma pequena rua, parou, me apontou a placa e desapareceu. A rua
existia!
Entrei na rua e tudo se iluminou, exatamente como descreveu Ninoska em seu
diário.
Realmente, só havia uma única casa e estava maravilhosamente iluminada
também. Circundei o muro, era tudo tão bonito. A rua parecia que havia sido
encerada, preparada para uma grande festa. O jardim era incrível, um banco
grande, uma mesa de madeira, como preparada para acomodar uma grande
família.
A flor que só brotava naquela árvore, naquele lugar do mundo, estava brilhando e
exalava um perfume maravilhoso e aquele perfume, tive a certeza já tê-lo sentido.
Sentei-me no banco e fiquei olhando e lembrando de tudo, a garota do trem que
me curou era a mesma garota que curou a outra Ninoska no acampamento. Nina
curou todos naquele campo de refugiados. Nina era nossa mãe, nossa irmã.
Nina é o que alguns chamam de anjo, outros de seres de luz. Só tenho uma certeza,
existem milhares de Ninas espalhadas pelo mundo. Sempre vai existir uma Nina
que deixa dinheiro sobre um banco de alguma estação para que uma pobre alma
possa pagar sua passagem de volta pra casa. Sempre vai existir uma Nina que ama
e dedica a vida para proteger animais indefesos. Sempre vai existir uma Nina que
é acometida por malária nos confins da África, cuidando de homens e mulheres
vítimas do abandono e da violência.Eu sei que existem muitas Ninas que caminham
pelas ruas desertas e geladas das grandes cidades oferecendo carinho e alimento
aos sem-teto. Todas as Ninas sabem que nós humanos não temos nada, que um ser
humano é dono apenas daquilo que carrega dentro de si.
Para alguns Nina é um milagre, eu prefiro acreditar que Nina é uma magia da
natureza. Nina é a vida.E o que é a vida senão uma grande mágica?
Agora eu estava ali, tinha certeza que aquele era o meu lugar.Dentro da casa ouvi
diversas vozes. Aos poucos as luzes da casa foram se apagando, uma voz delicada e
doce desejava boa noite:
-Boa noite, meninas!
Eu podia ouvir muitas daquelas vozes e sabia que as conhecia:
-Boa noite, mamãe!
Novamente uma voz respondia:
-Boa noite, mamãe!
E novamente:
-Boa noite, mamãe!
Até que só restou acesa a luz da flor e pude ouvir claramente a voz:
-Boa noite, Ninoska!
Fez-se um breve silêncio e novamente aquela voz insistia em querer a resposta:
-Boa noite, Ninoska!
Demorei um pouco para perceber que aquela voz se dirigia à mim e com o coração
cheio de amor e a garganta trancada pela emoção, então, timidamente respondi:
-Boa noite, mamãe.
A luz da flor apagou.
Meu Nome é Ninoska e nasci em Sarajevo.
FIM
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