Marcos Tecora Teles

Marcos Tecora Teles

Wednesday, August 24, 2016

Depois Daquele Beijo

Foto: Internet


Depois Daquele Beijo


   Hoje, exatamente hoje, faz vinte anos que vivo na mais completa escuridão. Provavelmente, minha história não seja tão especial e nem signifique muita coisa. Provavelmente, minha história seja igual à história de milhares de outras pessoas. Mas esta é minha história. E uma coisa eu posso afirmar; ninguém recebe o primeiro beijo da vida de uma garota e passa incólume pela vida.

   Depois de longos, turbulentos e tristes anos, voltei ao bairro onde nasci e vivi parte de minha vida. Fui visitar alguns amigos de minha família.
   Era uma tarde fria de agosto, um sábado. Fui recebida com afeto e percebi a comoção que causei nos amigos, ao chegar amparada por Billy, meu cão – guia. Depois dos abraços afetuosos e beijos emocionados, nos sentamos e tomamos café. Tudo como nos velhos tempos.

   Mas  a campainha tocou...
   Enquanto alguém foi atender ao portão, continuávamos conversando eufóricos e sorrindo alto.
   A voz daquela visita inesperada fez abrir uma porta no tempo. E era a mesma voz, a mesma voz melancólica do menino bonito e tristonho por quem me apaixonei um dia.
   Nosso reencontro foi como deveria ter sido, emocionante, repleto de arrependimentos e pedidos de desculpas. Tínhamos muito o que falar,mas também tínhamos muito o que calar.
   Ele quis saber de tudo o havia acontecido comigo em todos esses anos, quis saber como me sentia e eu não lhe escondi nada. Contei a ele que foi em uma tarde de sábado como aquela, onde ficamos sozinhos. Ali, naquela mesma casa, naquela mesma sala, ouvindo Van Morrison tocar na vitrola, que trocamos um beijo. Meu primeiro beijo. Eu lhe contei que foi ali, que uma garota aos catorze anos se apaixonou por um rapaz bonito e romântico. Eu o fiz lembrar que, depois daquela tarde eu lhe ligava perguntando; e agora? E ele sorria do outro lado da linha.
    Lembrei a ele que, depois daquela tarde de sábado,durante meses,todas as tardes de sábado foram mágicas,dançávamos colados e trocávamos beijos apaixonados.Sentávamos no tapete daquela sala,ele já adulto bebia vinho e eu bebia Coca- Cola.
   Eu contei a ele sobre minha tristeza. Sobre a humilhação na minha festa de quinze anos. Contei que contava os dias, ansiosa e insone, esperando o dia chegar para poder dançar com ele, eu queria dançar a valsa com meu príncipe. Mas ele não apareceu. Sem se despedir, desapareceu e nunca mais voltou. Não podia deixar de lhe contar sobre toda minha tristeza e decepção.
   Também falei que anos depois me casei com uma pessoa que quase acabou com minha vida. Eu falei que me casei com um homem que parecia me amar, mas só me trouxe dor e tristeza. Um homem violento e viciado. Um homem habituado apenas à boemia e aos prostíbulos. E não pude esconder que esse homem contraiu o vírus da AIDS e que por sorte ou sei lá, a única coisa que me passou foi sífilis e perdi completamente a visão. Talvez por piedade de mim, Deus o tenha levado pouco tempo depois.
   Contei sobre a perda de meus pais e que, desde então vivo quase só.
   Eu falava e ele só ouvia. Eu pedi para ver seu rosto com minhas mãos.Ele aproximou seu rosto do meu e lhe toquei a face.Era o mesmo rosto delicado,o mesmo perfume e o mesmo hálito que exalava vida.Eu toquei seu rosto e podia ver o passado,via as luzes das tardes ensolaradas.Eu tocava seu rosto e a mesma música chegava em meus ouvidos.Eu tocava seu rosto e nas pontas dos meus dedos ainda podia sentir a tristeza daquela alma doce,que por muito e muito tempo viveu atormentada pelo abandono na infância,pela pobreza e pela fome.Eu tocava em seu rosto e suas lágrimas escorriam por entre meus dedos e pude, enfim,saber que aquele menino bonito e tristonho também me amou um dia.
   Ele me contou que teve medo e fugiu de tudo, mas nunca se esqueceu daquela tarde de sábado. Ele também descobriu que ninguém dá o primeiro beijo da vida de uma garota e passa incólume pela vida.

   Hoje, também é sábado e minha sobrinha está me fazendo companhia. Ela vai passar o final de semana aqui em casa. Minha sobrinha não conhece toda minha história, mas ela ligou o som e colocou uma música pra tocar. ”Sweet Thing”, Van Morrison...


Saturday, June 25, 2016

Contos Quase Infantis - Com Chocolate nas Veias


Contos Eróticos Infantis
Com Chocolate nas Veias
Imagem:internet

Quando meu tio me levou para trabalhar em sua fábrica de sapatos femininos no Itaim - Bibi, muitas coisas mudaram em minha vida. Foi lá que aprendi, que às vezes precisamos  amadurecer antes da hora.
E foi lá também que conheci muitas pessoas bacanas. Com algumas daquelas pessoas, fiz amizades duradouras, com muitas outras sempre tive um pouco de receio de me aproximar.
Foi lá, na fábrica de sapatos de meu tio que me tornei quem sou.
Meu tio sempre foi muito generoso e também se encarregou de arrumar um emprego para Miltinho, na Esfiharia do Jaber, na Rua Tabapuã.
No edifício ao lado da esfiharia, morava Lili, uma menina gordinha, sorridente, simpática, de olhos castanhos e...linda!
Como eu já imaginava, Miltinho apaixonou – se platonicamente por ela. Durante meses, Lili era a única palavra que saía da boca de Miltinho.

Na fábrica de sapatos, uma das minhas responsabilidades era comprar materiais para a confecção dos calçados. Três vezes por semana, eu tinha que ir até a Rua Maceió comprar couros.
 Meu trajeto até o ponto de ônibus, era da Rua Bandeira Paulista até a Avenida Cidade Jardim, onde eu embarcava no Trólebus que subia a Rua Augusta.
Lili também tomava o mesmo ônibus e fazia o mesmo trajeto que eu. Acabamos ficando amigos. Lili fazia curso de fotografia no centro da cidade. Ela também ficou amiga de Miltinho.
Ainda me lembro do primeiro assunto ente Lili e eu. Conversamos sobre a notícia que mais se comentava naqueles dias. Naquela época, no início dos anos oitenta, muita gente desaparecia misteriosamente na cidade de São Paulo. No Itaim – Bibi, havia confirmações de que muitas garotas desapareceram sem deixar vestígios. A polícia dizia para as famílias que, provavelmente, elas haviam fugido com os namorados...

Uma das figuras mais estranhas que conhecemos no Itaim – Bibi foi Guido. Ele era o mestre chocolateiro da fábrica de chocolates, na Rua Joaquim Floriano. Guido não trabalhava todos os dias, ficamos sabendo que ele só trabalhava as noites em que formulava novas receitas para os bombons.
Na fábrica de chocolates, eram produzidos os melhores bombons do mundo. Nunca houve nada igual.
Logo descobrimos os dias em que Guido havia ido trabalhar. Assim que descíamos do ônibus na Avenida Nove de Julho, imediatamente, sentíamos o aroma que exalava das chaminés da fábrica de chocolates. Aquele cheiro inconfundível nos inebriava.

Guido era realmente um homem muito esquisito, parecia muito jovem, mas  ao mesmo tempo, também aparentava ser velho.Usava roupas pesadas e estava sempre vestindo um grande casaco preto.Usava cachecóis que lhe cobriam o pescoço e parte lhe escondia a boca.Guido também nunca retirava o chapéu.Parecia estar sempre tentando esconder alguma coisa.
Quando saía da fábrica, após seu turno de trabalho, ritualísticamente, ia tomar  café na padaria na Rua Doutor Renato Paes de Barros e ficava por lá, até o horário em que os alunos  saiam do colégio.Ele era conhecido dos jovens do bairro e gostava de conversar com eles,principalmente com  as garotas,todas,sem exceção,adoravam Guido.Ele sempre levava consigo,pacotes daqueles maravilhosos bombons.Quando chegava em gente ao colégio,era um alvoroço,as garotas já sabiam que ganhariam chocolate.

Miltinho não gostava de Guido, sempre que o via passar, comentava com  preocupação:
- Marquinhos... Marquinhos... Marquinhos, esse cara é louco.
- Que é isso, Miltinho? Deixa o homem em paz!
Miltinho insistia:
- Veja bem! Ele é jovem, usa essas roupas de idoso, todo estranho, não sei se você percebeu...
- Percebeu o quê?
- Ele vive com frio! E as mãos dele? Quando cumprimenta a gente, as mãos dele são geladas!
-Deve ser por causa da fábrica, lá tem muitas geladeiras.
-Marquinhos, na fábrica tem um monte de fogão gigante. Lá dentro deve ser um calor dos infernos.
Comecei a ficar encucado com Guido...

Miltinho esta cada vez mais apaixonado por Lili. Falava dos seus planos ao lado dela,chegava a imaginar a festa de casamento. Miltinho estava alucinado de amor e a todo instante me pedia opinião:
- Marquinhos, você acha que devo me declarar pra ela? Devo dizer que estou afim?
-Sei lá, você é quem sabe.
-Eu penso em falar pra ela, mas tenho medo.
-Ué! Medo do quê?
- E se Lili me der um fora? Vou perder a amizade dela. Você não acha melhor eu sofrer calado no meu canto e poder estar sempre perto dela, do que nunca mais poder vê-la?
Miltinho até que tinha alguma razão. Além do receio de perder Lili de uma vez por todas, ainda havia a diferença de classes. Lili era uma garota rica do Itaim- Bibi e ele, um garoto pobre do Capão Redondo.
Sempre soubemos que um garoto pobre do Capão Redondo era obrigado a sofrer calado.


Miltinho passou abertamente a odiar Guido, depois que o chocolateiro começou a galantear Lili. Todos os dias, Guido enviava bombons e bilhetes para Lili e ela parecia gostar de ser cortejada pelo chocolateiro.
Miltinho estava incomodado com aquela situação e ficava cada dia mais nervoso:
- Marquinhos!Vou matar esse cara!
Eu tentava lhe acalmar:
-Você está louco, Miltinho?Não tem nada demais, são amigos.
Miltinho se calava e eu sabia que sofria muito.


Ficamos profundamente entristecidos quando Suzi desapareceu. Suzi era uma garota bacana, ela trabalhava na loja da Levi´s na Rua João Cachoeira. Ela sempre nos ensinava sobre política. As pessoas diziam que, como tantos outros, Suzi havia sido presa pela ditadura.

Meses depois do desaparecimento de Suzi, fomos à festa de aniversário do Nego Teta, estávamos  animados,todos os nossos amigos compareceram,o pessoal do colégio,da Favela da Funchal e até o pessoal do Clube do Mé.Guido também estava na festa do Nego Teta.
Miltinho não se sentia confortável, estava encabulado e não tirava os olhos de Guido e Lili.
Guido falava ao ouvido da garota,ela sorria,parecia bem à vontade com a conversa do chocolateiro.
Vindo rapidamente em minha direção, Miltinho decidiu:
- Marquinhos, vou falar com ela, vou me declarar! Que se dane!
Miltinho atravessou o salão e foi até onde estavam Lili e Guido, chamou Lili em um canto, disse - lhe algo e voltou:
-Pronto! Falei pra ela.
- E o que ela disse?
- Que vai pensar...
A festa acabou naquele instante para Miltinho e eu, saímos do salão sem que ninguém nos visse. No caminho para o ponto de ônibus, resolvemos parar no Jack in The Box para comermos hambúrguer e tomarmos Coca-Cola, era uma maneira de esfriar a cabeça e aplacar um pouco da tristeza e Miltinho.
Mas aquela noite ainda estava longe de acabar...
Quando saíamos da lanchonete, vimos um casal que entrava na rua que dava para os fundos da fábrica de chocolates, reconhecemos Guido, que vinha segurando o braço de Lili.
Miltinho me puxou e me convenceu a seguir os dois.
Ainda de longe, observamos Guido e Lili entrarem na fábrica de chocolates. Depois de algum tempo em que os dois já se encontravam lá dentro, nos aproximamos da porta e encostamos nossos ouvidos para tentarmos captar qualquer barulho que pudesse vir lá de dentro.
Miltinho estava morrendo de ciúmes e sentia-se derrotado. Era nítido seu olhar de angústia e decepção.
O tempo passava e só ouvíamos o barulho de metais. De vez em quando escutávamos bem baixinho a voz de Guido sussurrando palavras ininteligíveis. Apuramos um pouco mais nossa audição e enfim, ouvimos claramente a voz de Guido, que falava  em um idioma que até então não conhecíamos.

Tentei convencer Miltinho  a sairmos daquele lugar, disse – lhe que aquilo era perder tempo, que não adiantava mais sofrer,que era melhor partir pra outra.
Miltinho já havia se convencido em irmos embora, Mas um grito de pavor nos congelou a espinha. Desesperada, Lili pedia socorro, gritava alto e chorava aterrorizada.
Miltinho e eu não tivemos dúvidas, começamos a gritar, chutar e tentar arrombar a porta.
Repentinamente, fez – se um brevíssimo silêncio e em seguida, ouvimos passos apressados se afastando lá dentro.

Do lado de fora, Miltinho  eu continuávamos tentando arrombar a porta da fábrica de chocolates.Pensei em pedir ajuda,mas a rua estava completamente deserta aquela hora da noite.Também pensei em ir até a delegacia,mas Miltinho achava que talvez não desse tempo de salvar Lili.
Miltinho raciocinava rápido e viu um pequeno vitrô sobre a pequena porta e me falou;
- Sobe nas minhas costas, vai!
Miltinho se abaixou, coloquei meus pés em seus ombros e pulei. Com muito esforço alcancei a borda do vitrô. Dei um soco com todas as minhas forças, o vidro se quebrou e me esgueirei para passar pelo vão ínfimo.
Caí dentro da fábrica de chocolates e abri a porta para que Miltinho também entrasse. Lá dentro, caminhamos por um pequeno corredor e acabamos dentro de uma grande cozinha, repleta de caldeirões fervendo leite e chocolate, máquinas e utensílios diversos. Sobre uma bancada, amarrada e nua, encontramos Lili.


A polícia foi até a casa onde Guido morava. Uma mansão sombria na Rua Mário Ferraz. Lá, encontraram um verdadeiro tesouro. Obras de artes de valor incalculável. Quadros tão antigos quanto se podia imaginar, impossível  datar quando foram pintados,talvez milênios.
O que realmente chamou a atenção da polícia foi a quantidade das belas estátuas espalhadas por toda a casa. Estátuas esculpidas com chocolate e em tamanho natural. Elas exalavam aquele aroma inconfundível  que saía das chaminés da fábrica.
Um caminhão foi chamado para transportar tudo o que fora  apreendido na  casa de Guido.
Quando começaram a carregar as estátuas, a surpresa foi aterradora, as estátuas eram feitas para esconder os cadáveres das garotas desaparecidas.

 Ficamos ainda mais chocados e assustados quando soubemos a forma com que o chocolateiro assassinava suas vítimas. Guido colocava entorpecentes - que ele  mesmo sabia preparar - dentro dos bombons que oferecia para as garotas que escolhia como vítimas.
Guido levava as garotas já dopadas para a fábrica de chocolates, depois de violentá-las e cometer todo tipo de crueldade, usava a máquina de filtrar o leite para lhes retirar completamente todo o sangue. Depois, injetava  nas veias das meninas,calda quente de chocolate. Com o sangue das garotas, ele produzia o ingrediente secreto que colocava em seus bombons.


O tempo passa mais rápido, quanto mais vamos amadurecendo.
Para decepção de Miltinho, Lili foi morar na Alemanha e não tem intenção de voltar.
Guido desapareceu, não deixou nenhum rastro.


Ah! Quase me esqueci de falar sobre Sara...
Sara era neta do judeu, dono da loja de couros, aonde eu ia três vezes por semana fazer compras. Miltinho conheceu Sara e claro, também ficou completamente apaixonado por ela.
Com Sara ele não quis perder tempo, em uma festa na casa do Nego Teta, Miltinho decidiu declarar seu amor infinito a ela. Preparou-se e foi todo confiante e com ar de conquistador experiente. Chegou perto da moça e não teve dúvidas, disparou:
- Sara, você é linda, eu te amo e estou afim de namorar contigo!
Ao ouvir a declaração de Miltinho, Sara, do alto de seus vinte e sete anos, não pensou duas vezes:
- Se enxerga moleque! Você acha que tenho cara de babá?

Miltinho e eu, até hoje, até hoje, odiamos chocolate.




Friday, June 03, 2016

Je Suis Rio

Vem aí!
Je suis Rio,antologia, lançado na França.Me sinto muito orgulhoso em fazer parte desta obra.No livro, um conto meu,Zé Azul do Rio de Janeiro.Além de mim,tem Ferréz,Marcelino Freire, Alexandre De Maio, entre outros autores!
Editora Anacaona.

Sunday, May 29, 2016

Um Mendigo, Um cigarro e Um Chope

Foto: Internet

Um Mendigo, Um cigarro e Um Chope

Aquela tarde de dezembro estava imensamente quente, o verão havia chegado com todo seu calor e majestade.
As ruas estavam vazias naquela tarde de domingo quando nos sentamos no Bar Brahma, na esquina da Avenida São João com a Avenida Ipiranga. Léa e Mauro, meus amigos, que quando vinham do interior, marcavam nossos encontros ali, no coração da cidade.
Os dois estavam mais calados que o habitual. Léa com seu jeito sempre aristocrático reclamava da crise, da queda nos investimentos, dos preços das roupas de grife e dos preços das passagens para a Europa, onde viajava de férias a cada seis meses.
Mauro estava preocupado com a queda do valor das ações, da baixa liquidez do mercado.
Eu apenas os ouvia, não entendia muito bem o significado daquelas conversas, meu mundo era outro. Eu era apenas um moço da periferia... apenas os ouvia.
Tomávamos Chope, comíamos porções das mais variadas e íamos deixando o tempo passar.
Mas naquela tarde foi diferente.
Meus amigos estavam mais calados do que de costume, cada um de nós absorto nos próprios pensamentos e não nos demos conta de que há tempos um mendigo nos observava. Ele estava ali o tempo todo, parado, com suas roupas esfarrapadas, uns trecos amarrados à cintura e calçava uma velha sandália que mal lhe cabia as solas dos pés.
Léa o viu e assustou-se, pensou em chamar a segurança, lhe acalmei dizendo que estávamos seguros. Estávamos sentados dentro do cercado que limitava o bar das avenidas.
O mendigo continuava lá, nos olhava atentamente, olhava o rosto plastificado de Léa, o rosto endurecido de Mauro e parecia desnudar nossas almas esfarrapadas e cansadas. Eu o olhei nos olhos e por um instante vi refletir a miséria que cada um de nós carrega. Ele nos olhava e nos tornava a pequenos.
Léa me pediu para que oferecesse um trocado àquele homem, para que ele nos deixasse em paz. O mendigo sorriu e caminhou lentamente em nossa direção, não podíamos mais escapar de sua presença incômoda. Ele se aproximava, não dava mais tempo de contê-lo. Léa parecia querer sair correndo dali, apavorada com a presença daquele andarilho.
Não deu tempo.
O mendigo se aproximou e surpreendentemente se apresentou:
- Boa tarde, senhora e senhores. Me chamo Sivaldo,sou viciado em drogas,mas não as consumo mais todos os dias. Não sou ladrão, nunca roubei e nem preciso. Não há nada mais para mim no mundo de vocês. Sou apenas um vagabundo, maltrapilho.
O mendigo nos calou com sua voz calma, serena e pacífica. Ele sabia que éramos pobres humanos, perdidos em nosso mundo egoísta, solitário e doente. Ele sorria pra mim, sabia que eu ainda tinha um pouco do que sobrou da minha própria infância, de alguma forma, me enxergou como igual e dirigiu a palavra a mim
- Irmão, posso te pedir um favor?
Eu permanecia mudo, apenas sorri e ele continuou:
- Irmão, sabe de uma coisa? Há muito tempo que vivo por estas ruas. Há muito tempo não me sinto gente, não me sinto humano. Sabe por quê? Porque as pessoas me fazem acreditar que não sou. Eu vi vocês aqui e pensei em pedir um trocado, um pouco de comida, mas eu quero me sentir gente, me sentir humano, sabe? Eu só quero um cigarro, desses, dos bons e um chope, o irmão pode pagar um pra mim?

O céu começava a ficar escuro, a tempestade se aproximava e o vento já varria as ruas do velho centro. Com um cigarro em uma das mãos e o copo de chope na outra, Sivaldo arrastava as pernas,como se desfilasse em uma escola de samba,fantasiado com suas roupas de mendigo. Gesticulava e seguia de olhos fechados, como se ouvisse uma bateria de escola samba que tocava um samba enredo divino.
Léa, Mauro e eu, acompanhávamos com nossos olhos incrédulos Sivaldo desaparecer perto do Boulevard.
Sentados de frente para a avenida,com os braços apoiados na pequena cerca,permanecemos em silêncio, tentando entender o que acabara de acontecer, o que tínhamos vivido naquele breve instante.
A chuva veio e me levantei para sair.
- Não vai esperar  a chuva passar? - me perguntou Léa.
A pergunta de Léa me fez lembrar que há tempos eu não percebia como era bonita uma tarde de chuva. Há tempos eu não caminhava na chuva. Quando criança me diziam que, andar e chorar na chuva nos lavava a alma.
Me despedi de meus amigos e atravessei lentamente as avenidas,deixei que as lágrimas chegassem.

Eu também precisava me sentir humano novamente, eu também precisava me sentir gente.

Tuesday, December 01, 2015

Jovens Homens Pretos

Imagens:Internet

A Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro assassinou cinco jovens homens pretos.
A Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro não assassinou apenas cinco jovens homens pretos.
A Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro assassinou o futuro de cinco jovens homens pretos.
A Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro,todos os dias, assassina o futuro.
A Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro,também não gosta de jovens homens pretos.

Wednesday, October 28, 2015

Contos Quase Infantis O Homem da Roupa Verde Que Encantava Prostitutas

Foto:Internet


Contos Eróticos Infantis
O Homem da Roupa Verde Que Encantava Prostitutas

   Nós humanos, passamos a vida inteira tentando entender como somos, o que somos e como e por que o tempo passa. E tentamos nos aceitar.
   No nosso caso não havia muito o que entender,era só aceitar. Para Miltinho e eu, o tempo também passou...
   Agora, éramos dois rapazolas e eu estava indo para o meu primeiro dia de emprego. Emprego que Miltinho arrumou para mim. O trabalho era em uma empresa de mala direta, nosso trabalho era colocar as cartas nos envelopes e levar aos correios. Confesso, era divertido. Éramos uma turma de jovens de vários bairros da cidade e trabalhávamos apenas três dias por semana.
   Naquele velho edifício do centro da cidade, no mesmo andar em que envelopávamos as cartas, havia um escritório de contabilidade, lá trabalhavam algumas pessoas, dentre elas, uma mulher jovem chamada Ester, uma loira que tinha um mau hálito dos infernos, um rapaz careca e mal humorado e um velhinho bem vestido e muito educado, Seu Henrique.
   Com tantos moleques trabalhando juntos, era inevitável a algazarra, a zoeira e a diversão. Depois de algumas semanas, Seu Henrique passou a visitar nossa sala. Ficava na porta ,nos observando,sorria. Ele se divertia também.
 
    Seu Henrique tinha a mania de esfregar as mãos, era a forma de demonstrar excitação, contentamento, mas Miltinho ficava encucado com Seu Henrique:
   - Marquinhos, esse velho é bicha!
   -Acho que não. Ele é bacana. Deve ser o jeito dele, ele é quieto.
   Miltinho insistia em tentar me convencer:
  - Marquinhos, olha só. Esse velho só anda vestido com roupa chique, sapato lustrando, com essa gravatinha borboleta, fica olhando pra gente, sorrindo e esfregando as mãos.E é educadinho demais.
  Miltinho repetia as mesmas palavras toda vez que via Seu Henrique.
  Ester, a jovem mulher, elucidou de uma vez por todas as dúvidas. Ela ouviu um dos comentários de Miltinho, dizendo que achava que Seu Henrique era homossexual. Ester chamou Miltinho e eu em sua sala e nos contou:
  -Eu sei que vocês ficam preocupados com o jeito de Seu Henrique. Por favor, não tenham medo dele, ele é apenas uma criança, envelheceu somente o corpo. Seu Henrique tem um ligeiro retardo mental.
   Nós ouvimos atentos a explicação de Ester, Miltinho me olhava e demonstrava remorso. Foram tantas as ofensas veladas ao velhinho... Nossos corações doeram...
   Enquanto Ester falava conosco, Seu Rômulo entrou na sala. Seu Rômulo era o irmão mais velho de Seu Henrique e dono do escritório de contabilidade. Seu Rômulo ajudou Ester a terminar a explicação:
   -Eu não pude deixar de ouvir a conversa, mas só pra encurtar, vou dizer uma coisa pra vocês, meu irmão nunca se sentiu tão feliz. Ele nunca conviveu com outros jovens. Henrique tem um tumor no cérebro desde que nasceu, ficou com esse retardo e teve um trauma quando perdemos nossa mãe.
   Miltinho e eu apenas escutávamos e Seu Rômulo nos disse mais:
   - Meu irmão, tem muito apreço por vocês. Aproveitem a amizade dele. Ele está com sessenta e cinco anos, não tem muito tempo.

 
   Seu Henrique chamava qualquer pessoa, de qualquer idade de senhor ou senhora. Era extremamente educado, inteligente, um ser absolutamente doce. Usava roupas finas, feitas sob medida pelos melhores alfaiates da cidade. Amava livros e filmes. Pela falta de companhia nunca saía de casa.
   Seu Henrique gostava de usar roupas verdes e isso nos fazia brincar e deixá-lo apavorado:
 - Seu Henrique! Se o senhor passar na frente da pastelaria do chinês com essa roupa verde, eles vão cortar o senhor e servir para os clientes, viu? –Miltinho gostava de chateá-lo.
- É perigoso mesmo senhor Marquinhos? Seu Henrique me perguntava.
- Claro que é Seu Henrique. O senhor acha mesmo que o chinês compra toda aquela verdura? Eu também me divertia com a conversa.


  O fato é que Seu Henrique abandonou os ternos verdes, os sapatos de cromo alemão, a gravata borboleta e passou a se vestir como nós.
  Nós aprendemos a entender como seu Henrique pensava. No trabalho, era competente, compenetrado, assíduo e pontual. Quando se juntava a nós, era como um adolescente, sempre querendo saber coisas novas. Coisas que um homem aos sessenta e cinco anos ainda não havia vivido. Seu Henrique tinha pressa em aprender, tinha a necessidade de conhecer o mundo em que os garotos de minha idade viviam.

   Miltinho resolveu dar um presente para Seu Henrique, nós o levaríamos para sair conosco, à noite, pelo centro da cidade. Íamos levá-lo ao cinema, aos bares e aos inferninhos.
   Passamos dias combinando tão insano ato, Seu Henrique estava ansioso, preocupado em como fugir de casa em um sábado a noite, sem que ninguém o visse saindo e chegando.
   Tudo deu certo.

   Encontramos seu Henrique no sábado às sete da noite na Avenida São Luiz. Ele estava elegante como sempre. E feliz como nunca...
   Fomos direto para a boate Clube de Paris, onde nosso amigo Gérson era segurança. Pedimos cerveja e ficamos olhando as moças fazerem seus shows.
   -Seu Henrique?- Miltinho perguntou - Quer beber?
   -Não posso!
   - Quem falou que o senhor não pode?Miltinho perguntou novamente.
   -Meu pai! Respondeu seu Henrique.
   -Mas seu pai morreu faz tempo! Pode beber, ele não está vendo e ninguém aqui vai falar pra ele. Não é Marquinhos?
   Miltinho foi convincente. E eu confirmei balançando a cabeça e rindo escondido.

    Seu Henrique bebia aquele copo de cerveja e sorria. Sorria extasiado, como um condenado a morte, que no último instante recebeu o indulto.

   No outro sábado Miltinho resolveu aumentar a loucura e a irresponsabilidade. Levaríamos seu Henrique ao 69,o bordel mais famoso e fuleiro da cidade.
   - Miltinho, você é doido? Levar o Seu Henrique na zona? Eu perguntava preocupado.
   - Calma Marquinhos, calma! Deixa o velhinho se divertir, ele ainda é virgem! -Miltinho gargalhava - Seu Henrique precisa trocar o óleo!

   No dia fatídico chegamos ao prédio da Rua dos Andradas, um lugar estranho, homens que entravam e saíam. Todos preocupados em não serem vistos, descobertos. Nas escadas, mulheres seminuas convidavam para um momento de prazer.
   Miltinho já conhecia bem ali, fomos subindo até um andar intermediário onde havia um pequeno bar. Pedimos cerveja e resolvemos servir conhaque para Seu Henrique. Ele adorou.
   Ficamos ali, observando o movimento. A todo instante as mulheres se insinuavam e nos convidavam para um programa. Uma mulher madura se aproximou de nós e convidou Seu Henrique:
   - Oi gato!Vamos brincar?
   Seu Henrique nos olhou de um jeito engraçado, ficou confuso com a pergunta da prostituta e nos perguntou:
   - Os senhores acham que posso brincar com ela?
   - Claro! Estamos aqui pra isso, Seu Henrique. Explicou-lhe Miltinho.
   Seu Henrique ainda confuso perguntou para a mulher:
   - A senhora quer brinca de quê?
   - Brincar de quê gato? Brincar de fazer neném!
 
   A prostituta saiu do quarto com o rosto sereno, parecia muito mais jovem do que havia entrado. Seu Henrique sorria e esfregava as mãos.
   Tudo correu em paz. Voltamos para casa, Seu Henrique estava encantado com as luzes da madrugada, estava encantado com mais uma noite que estava chegando ao fim.

   Seu Henrique conheceu quase todos os prostíbulos do centro da cidade. Conheceu cada cinema e teatro de striptease. Foi para o quarto com muitas mulheres.
  
   Foram meses mágicos. Seu Henrique aprendeu conosco o que era perdição e nós aprendemos com ele a maneira que nos salvaria da miséria do mundo. Seu Henrique não tinha medo de caminhar pelas ruas imundas e fedorentas, não tinha preconceito em se relacionar com a ralé. Ele contava lindas histórias, muitas delas retiradas dos livros que lia e dos filmes que assistia, mas muitas da lindas histórias surgiam de sua mente inocente. Ele nos contou sobre sua doença, sobre o pouco tempo que tinha pra viver, sobre o trauma por ter visto na infância sua mãe se afogar.
   Seu Henrique nos falou de sua namorada, que ela morava no mar e vinha visitá-lo e que, um dia ficariam juntos para sempre.
   Seu Henrique nos falava com imensa tristeza que quando sentia dores de cabeça tinha que ficar quieto, porque aquele poderia ser seu último instante. Seu Henrique nos contou que as dores que chegavam como choques em sua cabeça, estavam aumentando.


   O aviso de luto na porta do escritório de contabilidade nos pegou de surpresa.

   Dias depois Seu Rômulo nos deu a triste notícia. Seu Henrique desapareceu. Foi visto pela última vez em frente ao mar no Guarujá. Uma pessoa relatou que viu um velhinho vestindo um lindo terno verde, usava uma gravata borboleta, calçava brilhantes sapatos pretos e carregava nas mãos um enorme buquê com maravilhosas rosas amarelas. A pessoa relatou que o velhinho parecia esperar alguém, pois a todo instante olhava o relógio,até que ele gesticulou,abriu os braços e como se segurasse na mão de alguém foi desaparecendo mar adentro.

   Tempos depois encontramos a primeira mulher que levou seu Henrique para o quarto, ela estava trabalhando em uma loja de bijuterias na Rua Vinte e Cinco de março. Nos contou que abandonou a profissão depois que saiu do quarto com seu Henrique naquela noite.Nos contou que ele pediu pra que ela apenas se deitasse ao seu lado,que fechasse os olhos, ela nos disse que ele lhe contou lindas histórias. Afirmou que enquanto ele lhe contava aquelas lindas histórias, era como se estivesse encantada. Falou que ouvia e parecia estar em cada uma daqueles lugares que o velhinho narrava. Que quando acordou se deu conta de que aquele não era seu lugar.

   Descobrimos que Seu Henrique nunca teve relações sexuais com nenhuma daquelas mulheres. Seu Henrique as amava, amava os seres humanos e os entendia, sentia pena da miséria em que vivia cada uma delas. E ele também as salvou.

   Miltinho e eu de vez em quando, usávamos roupas verdes, passávamos correndo em frente a pastelaria do chinês na Ladeira Porto Geral,para que ele não nos cortasse e servisse para seus clientes.

Tuesday, October 06, 2015

A Rua dos Suicidas

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Há muitos anos em nosso bairro,haviam duas ruas muito estranhas.Uma era chamada de Rua dos Suicidas e a outra,era a Rua dos Assassinos.
Os nomes faziam jus a realidade.Na Rua dos Suicidas,cinco moradores haviam se matado em menos de três anos.Na Rua dos Assassinos,oito moradores estavam na penitenciária por terem executado várias pessoas.
As duas ruas eram sombrias,as crianças do bairro evitavam ao máximo passar por elas.
Na Rua dos Suicidas,morava Malu,uma moça loira e bonita que não falava com ninguém.Malu usava maquiagem escura,vestia somente roupas pretas e usava um véu,também preto.
Na Rua dos Assassinos,morava Angélica,irmã gêmea de Malu...
Continua amanhã...

Monday, October 05, 2015

Igreja Universal do Reino do Lula


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Igreja Universal do Reino do Lula

Nunca antes na história deste país se usou tanto ardil para se apossar de corações e mentes. O governo Lula em comunhão com a Igreja Universal formam uma grande e perigosa facção. O governo aprendeu com os Bispos da Universal a arte da prestidigitação, também aprendeu a disseminar a Teologia da Prosperidade, oferecendo aos pobres o paraíso e criando legiões de ignorantes. Lula é o mágico, que esconde no bolso do paletó o nosso futuro. Alardeia aos quatro cantos coisas que nunca fez e nunca fará, mas o prestidigitador tem esse poder, a ilusão como arte. Nos discursos aprendidos na Universal, revela como é fácil colocar quase toda uma nação em catarse.
O povo que ainda passa fome, que ainda vive de forma indigna e perturbadora, não doa seu dízimo ao Lula, doa seu voto. Nunca antes na história da humanidade um país foi governado por um ilusionista. O Brasil é o primeiro.
Marcos Teles

Tuesday, September 22, 2015

É Que... Faltou Dizer Eu Te Amo



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É Que... Faltou Dizer Eu Te Amo
Eu reconheci aquele caminhar, aquele jeito de dar cada passo. A cada pedaço de rua que ela avançava, o tempo me levava de volta para trinta anos atrás. Ela conservava a mesma beleza.
Ela me reconheceu. Eu estava parado na porta da casa de meu irmão. Fui buscar Samira, minha pequena sobrinha, que iria fazer uma longa viagem.
Ela se aproximou, me olhou nos olhos e sorriu.Era o mesmo sorriso.Eu lhe estendi  a mão.Suas mãos estavam trêmulas e a voz conservava a mesma melancolia.
As palavras demoraram a sair:
- Como vai?
-Vou indo. A vida está cada vez mais corrida.
-Faz tempo que não aparece por esses lados.
-É verdade. Coisas acontecem e tudo muda muito de repente.
-Da última vez que esteve por aqui, e já faz muito, muito tempo,te vi de longe.
- E por quê não falou comigo?
-Você estava acompanhado.
-Não havia problema algum nisso.
-Não quis ser deselegante. Achei desnecessário criar um transtorno, trazendo um pedaço perdido do passado.
-Tudo bem.
Ela me olhava atentamente, como se buscasse algo escondido dentro de mim e falou:
-Você está muito bem, continua bonito.
-O tempo também tem sido generoso contigo. Você está linda também.
Eu tinha tanto para perguntar e as palavras insistiam em não querer sair, eu me esforçava:
-Como está sua família?
-Família?
-Sim, sua família.
-Nunca tive.
-Mas você se casou.
-Não durou muito tempo.
-E filhos?
-Não os tive.
-Não quis ser mãe?
-Durante um tempo, sim. Até que tentei.
Os olhos claros dela refletiam uma certa dor escondida na alma.
Fomos soltando as amarras e as palavras que deveriam ser ditas no passado, só agora vieram:
-Você ainda se lembra da última vez que conversamos?
-Sim, na missa de sétimo dia de seu pai.
-Você apareceu lá com seu marido.
-Nossa! O tempo passou rápido demais.
-Demais, demais, demais.
Ela tinha muitas perguntas e nunca tive as respostas.
-Olha, eu nunca tive a chance, talvez se tivesse tido, me faltaria coragem.
-Coragem, pra quê?
-O que aconteceu com a gente?Por quê você foi embora?
-Foi sua a culpa.
-O que eu fiz?
-Você nunca me deu certeza se gostava de mim. Nunca me deu certeza se queria ficar comigo.
-Não acredito que isto ouvindo isso de você. Você resolveu ir embora. Fiquei sabendo na manhã em que embarcou naquele maldito ônibus. Mesmo assim, ainda fui lá e vi de longe você indo embora.
-Eu te vi na rodoviária.
-E não se despediu de mim. Nem mesmo um único e mísero aceno.
-Eu esperei você me pedir pra ficar.
-Eu esperei você descer do ônibus, desistir de ir embora e me dar um abraço.
-Eu chorei durante toda a viagem. Quando começava a pegar no sono, acordava aos sobressaltos sentindo o teu perfume.
-Chorei muito. Chorei durante muitos meses.
-Eu pensei em voltar.
-Eu te esperei.
-Mas se casou com outro.
-Te esperei por muito tempo. Nunca recebi uma carta sua.
-Você nunca me deu certeza se gostava de mim.
-Você também não.
-Me fazia sentir ciúmes.
-Eu só queria chamar sua atenção.
Seus olhos claros se umedeceram, por baixo dos meus óculos escuros as lágrimas rolaram escondidas.
-Muitas vezes eu liguei na casa de minha mãe, exatamente na hora em que eu sabia que você estava passando em frente.
-Você nunca me enviou um recado.
-Eu pedia pra minha irmã me dizer que roupa você estava usando e se estava linda como sempre.
Ela queria dizer mais alguma coisa:
-Seus filhos são lindos.
-Sim, eles são lindos.
-Eles se parecem com sua mulher.
-Parecem muito.
-Sua mulher se parece comigo. Foi proposital?
-Como assim?Proposital?
-Se casar com alguém que se parece tanto comigo?
-Não. Foi o destino. O lugar em que a conheci, o coração precisando de abrigo.
-Você a ama muito.
-Amo. Amo de verdade. Aprendi a amá-la com todas minhas forças.
Ela estendeu a mão para me dizer adeus:
-Foi bom te ver.
-Foi um prazer. Me perdoa?
-Claro. Já te perdoei há muito tempo. Sem ressentimentos Já estamos velhos para desenterrar os erros do passado.
Ela ajeitou o lenço no pescoço, colocou o chapéu e se foi dizendo:
-Boa sorte e boa viagem.
-Boa sorte pra você também. Cuide-se.
Samira foi buscar suas malas e parou para ouvir a conversa atrás da porta entreaberta da sala que dá para a rua. Coloquei suas malas no bagageiro e ela sentou-se no carro. Depois de sair da avenida e entrar na estrada, Samira rompeu o breve silêncio:
-Você e ela já foram namorados, tio?
-Não sei se “namorados” é a palavra exata. Nós tentamos ficar juntos uma vez, já faz muito tempo.
-Ela te amou, tio. Ela vai te amar a vida inteira.
-Como você pode afirmar isso?Você só tem onze anos?
-Tio!Dá pra ver nos olhos dela, dá pra ouvir na voz dela.
-E você percebeu isso assim, tão depressa?
-Tio! Já entendo algumas coisas. Já sei o que aconteceu com vocês dois.
-E o que aconteceu?Pode me dizer?
-É que... Faltou alguém dizer, eu te amo.

A noite começava a cair, o sol estava vermelho, a linha do horizonte já ficava mais perto. E como há trinta anos atrás,o perfume dela me mantinha acordado.