Marcos Tecora Teles

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Sunday, August 04, 2013

Sangue nos Olhos

Sangue nos Olhos

Um trecho.

   O Opala reluzente surgiu rodando devagarinho na descida depois da curva, na rodovia Régis Bitencourt, divisa das cidades de São Lourenço e Itapecerica da Serra.


   Os policiais recebiam a confirmação pelo rádio de que era mesmo esse veículo,um Opala 4.1 S, preto,placas AL 1018 de São Paulo.

  Acabara de ser  montado o bloqueio policial,várias viaturas e alguns caminhões fechavam os dois lados da estrada,os soldados estavam de prontidão,preparados para parar o veículo que parecia vir aumentando a velocidade a cada palmo de chão.
  
   O Opala começou a ganhar um pouco mais de velocidade e os primeiro tiros de advertência foram disparados,o veículo não parava.

   Os tiros já partiam em direção ao veículo e ele só rodava mais e mais depressa...Até se chocar em um dos caminhões que fechavam a rodovia.

   Os policiais se aproximaram e dispararam vários tiros,quebrando os pára brisas do carro.
   Um oficial aproximou-se lentamente do carro,empunhava uma pistola e gritava para que o ocupante saísse com as mãos na cabeça.

   Longos e tensos minutos passaram-se,nem uma movimentação ou barulho vinha de dentro do Opala,apenas o fogo que começou a se alastrar pelo interior do carro.
   Outros policiais juntaram-se ao oficial,abriram as portas do carro e lá dentro só havia as ferragens do que sobrara de uma cadeira de rodas...
 

Friday, June 07, 2013

A Noite e os Anjos






Essa  música da Banda Tecora  será umas das que estarão no álbum de estreia de Esther Ribeiro.

Quando a noite acabar
Me conta o que viu na rua
Tira o horror do olhar
Põe minha saliva na tua

Fala do andarilho gelado
Do fantasma na casa ao lado
Fala da força do vento
Mostra o palácio sem telhado
E o sangue escuro no calçamento

O mundo se acabando e eu cantando
Alguém está matando os nossos anjos


Pode olhar pela janela
Mais mil corações despedeçados
Olha a fúria de um menino bandido
Não confie na justiça que mata
Por que ela nunca está errada


O mundo se acabando e eu cantando
Alguém está matando os nossos anjos

O mundo se acabando e eu cantando
A droga está matando os nossos anjos

Rua das Lembranças


Já é mais um dia e aí venho eu de volta
Caminhando pelas ruas, as ruas da periferia
Pensando aqui comigo mesmo
Quantos sonhos, desejos impossíveis
E nos pontos de ônibus
Manadas humanas de cabeças baixas
Esperando o trem da vida passar

Sigo olhando os carros velhos, as mesmas pedras encostadas
Um trem que viaja solto e vazio
Vou olhando as veias expostas
As fraturas expostas e os sorrisos tristes
Desses guerreiros e guerreiras
Dessa gente que caminha procurando um rumo
Pelas ruas, sempre as mesmas ruas
Ruas empoeiradas da periferia

Na memória vou buscando os amigos
Todos os que partiram pra última viagem
Todos os que foram empurrados pros infernos
Os mesmos amigos que ouviam Dafé e Tim Maia
Que procuravam comigo os bailes nos sábados á noite
Sempre caminhando pelas ruas, ruas empoeiradas da periferia

Um anjo sem asas passa por mim
De olhos molhados, com lágrimas vermelhas
Expulso do paraíso, como tantos, como tantos
Também veio morar aqui, na rua das lembranças
Mata o tempo olhando os rostos marcados de minha gente
Dessa gente que sonha e caminha
Dessa gente que sonha e caminha
Pelas ruas, sempre as mesmas ruas, ruas empoeiradas da periferia.

Friday, September 09, 2011

Só Pra Falar do Meu Avô


Em uma noite clara, no começo dos anos 70 eu desembarquei na rodoviária Julio Prestes. Chegava em São Paulo, trazido por meu avô.
A noite era quente e estrelada.Entramos num velho táxi DKV e seguimos para o Capão Redondo.Rua Humberto Pascale,onde eu vim morar.
Meu avô era um homem do sertão. Amava o trabalho, amava gente e plantas. Meu avô era apaixonado pela vida, mas a vida não foi tão justa com ele.
Meu avô levou uma queda e teve um ferimento na perna.Durante anos sofreu com a ferida e nunca esmoreceu.Prosseguiu trabalhando, até que um dia teve que amputar a perna. Foi um tempo difícil pra mim. Ele passou meses internando e fiquei todo esse tempo sem vê-lo.
Em uma tarde de domingo uma ambulância parou na porta de casa.Quando a porta do carro se abriu ele estava lá dentro,sorrindo e com o rosto iluminado... Estava sendo transferido para um centro de recuperação em Itapecerica da Serra, agora eu ia poder vê-lo todos os dias.
Meu avô era um ser diferente. Desses raros, que nascem a cada mil anos e nos faz entender o sentido exato da vida. Me ensinou a amar o trabalho e a respeitar o suor que cai do rosto de quem luta.
Por amar gente e plantas, não podia ver um terreno vazio que logo ia pedir para o proprietário deixar que ele limpasse e cultivasse alguma plantação. E era isso que ele fazia, juntava a molecada, e íamos todos cuidar do pequeno pedaço de terra. Ali ele plantava milho, mandioca, batata-doce, hortaliças e depois que tudo crescia ele saía distribuindo para as pessoas da vila. Confesso que também gostava de fazer aquilo...
Ele gostava de contar histórias, de reunir pessoas ao seu redor, gostava de distribuir carinho e atenção. Ele dizia que tinha um sonho. De um dia poder ver brotar homens da terra. Tinha o sonho de plantar uma semente mágica e ao invés de uma árvore, surgir gente.
Meu avô morreu em julho de 1985. A última horta que plantou foi na Rua John Adams número 50, ele não viu brotar.
Sinto muito a falta dele, penso nele todos os dias. Às vezes quando as coisas não caminham bem,me pergunto o que ele me diria para fazer.Por tudo que me ensinou,por todo o amor que me deu,ele sempre será minha bússola e meu porto seguro.
Meu avô sonhava em ver homens brotando da terra. Exatamente onde plantou sua última horta é a sede de nosso projeto. Pena ele não estar aqui pra ver... Onde lançou sua última semente, vamos colher cidadãos.

Tuesday, July 26, 2011

Sultans of Swing


O primeiro disco que comprei na vida.Custou cinquenta mil cruzeiros,valeu à pena...
Um dia de trabalho em uma revista(meu primeiro trabalho foi em uma revista,agora que me dei conta!)
Ainda me recordo da felicidade,quando o vendedor o colocou pra tocar na vitrola da loja.Levei pra casa,como se tivesse levando cristais,com medo que caísse,que quebrasse...
Quando coloquei na vitrolinha(nem me lembro mais a marca,sei que abria e a tampa era o alto-falante)foi uma emoção ouvir os acordes de Sultans of Swing,inesquecível...

Thursday, June 24, 2010

Carta na Garrafa



Lake Worth, Flórida, 14 de fevereiro de 1968.

Baby me perdoe, sei que não fui o que você pensou ou queria que fosse.
Nunca fui como um farol de estrelas que brilha somente para iluminar o teu caminho, nem como um dia de sol pra te aquecer, nem como uma lua cheia pra te trazer inspiração.
Tenho a certeza de que não fui o caminho certo que você pudesse seguir, porque fui uma estrada cheia de pedras, um caminho tortuoso, difícil de se caminhar.
Sei que não fui companhia para suas tardes de sonho e ternura.Sei também que não fui como a flor que você acaricia e encosta ao peito, porque muito de mim era só espinhos, ao menor descuido eu poderia te ferir.
Baby me perdoe, por achar que pra você fui apenas um caso, algumas noites de amor e mais nada.
Me desculpe baby,por não ter conseguido demonstrar o quanto te amo e isto te afastou mais e mais de mim.
Sei que nossas diferenças atrapalharam sim, fingimos não notar, mas no fundo dói demais saber que elas existem.Você tão jovem baby, não sei se deveria insistir, um amor tão complicado assim, talvez nem possa existir. É pena que exista e só eu perceba.
Baby, baby, tenho muito mais pra te dizer, é que o silêncio no meu quarto me amedronta e sinto tua falta no travesseiro ao lado do meu.Tenho passado noites em claro, também confesso que tenho chorado, rezando pra ter você pra mim.
Se puder perdoar minha fraqueza e quiser voltar, estarei aqui pronta pra recomeçar, e desta vez prometo, sem pedras nas mãos.Te espero com o coração cheio de certeza, certeza que nunca deixarei de te amar.
Vou colocar esta carta dentro daquela garrafa de vinho, do último que brindamos, talvez em um outro canto do mundo, um casal de namorados a encontre em uma praia deserta e descubra um dia que alguém amou alguém e teve medo, que não se arriscou pra viver um amor.Um amor imenso e verdadeiro.

Com amor.

Susan.


A garrafa foi localizada trinta anos depois na Prainha Branca em Bertioga São Paulo. Foi encontrada por um casal de namorados que acampava em uma bela noite de verão e lua cheia...