Marcos Tecora Teles

Marcos Tecora Teles

Monday, May 16, 2011

Sob o Azul do Céu.Livro Selo Povo


Título: Sob o Azul do Céu –Histórias das ruas
Autor: Marcos Teles

Editora: Literatura Marginal

Coleção Selo Povo
Revisão e preparação de texto: Alexandre Barbosa de Souza
Projeto gráfico: Paulo Vidal de Castro & Thais Vilanova
Coordenação: Marcelo Martorelli Vessoni
Formato: 10 x 16 cm
Número de páginas: 80
ISBN-13: 9788562848025

"A Literatura Marginal exige que alguns parâmetros críticos sobre a definição de cultura sejam revistos.Na intenção de transmitir as manifestações culturais da sociedade, a Selo Povo, com muita alegria, apresenta um novo contista.Marcos Teles."

Ferréz

Tuesday, May 10, 2011

Nós e o Tempo


P
Precisamos olhar para trás e ver quantas estradas ficaram sob nossos pés.Quantos muros por nós foram grafitados.
Precisamos olhar pra cima de novo,quantas vezes os nossos sonhos rasgaram o céu azul.
Olhar pra cima e lembrar por quantas vezes fomos importantes,por quantas vezes o mundo se preocupou com a gente?
Precisamos sentir de novo a brisa,quantos lamentos lançados e por ela espalhados.
Precisamos lembrar;vivemos intensamente,choramos.precisamos lembrar que também sorrimos muito,que estradas difíceis foram vencidas por nossos pés andarilhos e que nossa indisfarçável arrogância não foi contida pelos anos...
Sim,ainda somos jovens,com as aparentes marcas do tempo,ainda somos jovens e envelhecemos como montanhas.
Precisamos lembrar por quantas vezes passamos borracha no mal e contamos discos-voadores sobre nossas cabeças, quantas vezes fomos loucos e loucos tão lúcidos.O fato é que ainda somos...
Precisamos lembrar,nos jogamos de cabeça no mundo,quebramos a cara e sorrimos satisfeitos,um dia vencemos o mal...
Também não podemos esquecer,já vivemos em tribos,feito índios,vivemos em paz,sem trancas e sem fronteiras.nossas armas ,as palavras.qualquer música ,nosso hino.um sorriso,um irmão.Jamais podemos esquecer,soubemos ser odiados de bocas caladas,mas soubemos amar e amar e amar...
Quantas vezes nos jogaram pedras,em troca devolvíamos flores,cuspiram em nós,nos calamos.Mas hoje ainda somos jovens,com rugas e sem ódio.
Sim ,ainda somos jovens,ainda tiramos poesia das calçadas sujas de catarro,falamos de amor respirando o ar envenenado.
Ainda somos os mesmos, jovens e poetas, sem esquecer que um dia escrevemos sobre nossas dores,nossas esperanças e nossos amores nos muros da América do Sul.

Thursday, May 05, 2011

Livro Sob o Azul do Céu. Selo Povo.Sarau da Fundão!


Mais uma noite de lançamento do Livro Sob o Azul do Céu.Coleção Selo Povo.
Dia 12 de maio(quinta-feira) no Sarau da Vila Fundão.

Sarau da Vila Fundão.
Rua Glenn s/n-Travessa da Av. Sabin -Próximo ao metrô Capão Redondo.
Horário : A partir das 19 horas.

Tuesday, May 03, 2011

Onde Está Você?



  
Onde está você?
Que esqueceu seu prato
Ainda quente sobre a mesa do jantar
Que amou um cantor de blues
E dançou nua sob a luz do luar

Onde está você?
Que deixou seu amor
Esperando com uma flor na mão
Que saiu de casa e não lembrou
De desligar o fogão
Onde está você?
Que alimentou nossos sonhos
Que guiou pela contramão
Que chorava de saudades
Escrevia poesias e tocava violão
Onde está você?
Onde está você?
Que ninguém mais viu
Que ninguém mais vê
Você que desfilou num carnaval
Que protestou na capital
Buscou exílio no Nepal
Mas na verdade, de verdade
Só queria ser feliz
Onde está você?

Cara de Bandido

http://youtu.be/damTVO3u-cc

Thursday, April 28, 2011

Colombiana

http://mais.uol.com.br/view/2azz6tsgntm4/tecora--colombiana-04023964D0915326?types=A&

Clip com música da banda do Capão Redondo.

Tuesday, April 26, 2011

Sob o Azul do Céu.Livro Selo Povo



Sob o Azul do Céu.Livro Selo Povo

À venda!

Thursday, April 14, 2011

Aniversário Coopermusp!

Hà um ano inauguramos nossa sede.
Agora vamos fazer uma grande festa e você é nosso convidado!

Thursday, April 07, 2011

O Que Está Acontecendo Com a Gente?


Foto internet
O que nos faz correr tanto atrás de tão pouco?O que nos faz abandonar amigos, família, por coisas que sabemos, não nos farão mais felizes.O que buscamos com nosso vício, nossa má vontade, nossa preguiça?
Também não tenho certeza, mas acho que é a pressa, pressa de ser feliz, pressa de ser perfeito, belo e genial.
Estamos abandonando o bom senso, preocupados com os índices de alta ou baixa da Bovespa, preocupados demais com as taxas de juros.
Não temos tempo de lembrar das baixas taxas de afeto e carinho que temos dedicado aos nossos filhos.Também não estamos preocupados com os altos índices de maldade que espreitam nossos jovens em cada esquina de cada cidade.
Estamos muito preocupados com quem será o próximo dirigente da nação, o próximo deputado, o próximo senador.Mas as ruas continuam se enchendo de órfãos e as cadeias cada vez mais lotadas de solidão e ódio.
Estamos pouco preocupados com a vida, matamos todo dia, pouco a pouco nosso futuro.Dias atrás mataram um pouco do nosso futuro numa rua no bairro da Saúde, um tiro na cabeça.O futuro tinha dezenove anos e estava vindo da faculdade...
Ontem perdemos mais um pouco do futuro, aos dezessete anos Natália, se matou ao ingerir grande quantidade de remédios controlados. Natália era amiga de minha filha.Fico pensando em quanta dor e incerteza deveria haver em tão jovem coração.
Nosso futuro está comprometido, nosso futuro está sem rumo, nosso futuro é vitima de um tempo em que um carro vale mais que uma criança. Natália tinha os olhos lindos e tristes...
O que está acontecendo com a gente?
Marcos Teles

Onde Encontrar?

Livros Selo Povo

Tuesday, March 15, 2011

Wednesday, March 09, 2011

Cachaça Brava





 Imagem:Internet

Larga logo dessa vida João
vai procurar o que fazer
Teus meninos estão em casa
estão procurando o que comer
Dona patroa aturdida
puta da vida com você

Sai da porta do boteco João
acha um jeito pra viver
Sua barriga avantajada
mostra bem quem é você
mais um bebum de pé inchado
só acorda cedo pra beber

Deixa logo dessa vida João
vê se planta pra colher
Trem da vida vai passando
e ele vai te atropelar
A história nunca perdoou
quem se sentou pra reclamar

Tua cabeça tá à prêmio João
não vale um litro de dendê
Fila do inferno vai crescendo
já tem reserva pra você
e o capeta tá sorrindo João
esperando pra brindar
essa tua alma de otário
que viu na porta de um bar.

Tuesday, March 08, 2011

Zé Azul do Rio de Janeiro


   
Zé Azul do Rio de Janeiro


    Me lembro bem de como vim parar aqui. Foi depois de uma briga com meu pai. Meu pai? Meu pai era um homem violento e espancava todos em casa por qualquer motivo. Era proibido olhar no rosto de meu pai, ele não gostava. Meu pai não sorria, não chorava, nunca demonstrava emoção alguma, era impassível. Nunca o compreendi direito e confesso que também nunca quis fazê-lo.
    Meu pai bebia muito, aí as coisas ficavam um pouco piores. Humilhava minha mãe, dizia-lhe impropérios, ofensas e constantemente, agressões físicas.


    Foi em uma noite de São João que saí de casa.

    Meu pai estava descontroladamente bêbado. Estávamos em volta da fogueira na casa do Biquinha, na Rocinha, era uma festa agradável. Todos bebiam, dançavam forró e pareciam felizes. Aquela gente fazia questão de manter a tradição que traziam de suas cidades do nordeste.
    De repente sem nenhum motivo, como de costume, meu pai se levantou, dirigiu-se até a cadeira onde minha mãe estava sentada e deu-lhe um soco violento no rosto. Minha mãe caiu e meu pai ainda a chutou na barriga.
    Meu sangue ferveu, meus olhos se encheram de fúria e meu coração de ódio. Um ódio vivo e cristalino. Com o pedaço de madeira que eu estava alimentando o fogo, desferi-lhe um golpe na cabeça. Meu pai caiu na fogueira e não conseguiu se levantar.
    Algumas pessoas correram pra socorrer minha mãe, outras meu pai, eu fique ali, sem rumo, sem falar nada.
   Coloquei o pedaço de madeira na fogueira, dei um beijo em minha mãe e saí andando.

   Nunca mais voltei pra casa. Nunca mais fui a mesma pessoa. Carrego na alma um pouco de culpa, de revolta e principalmente solidão.
  Vivo nas ruas usando roupas feitas de saco de lixo azuis. Me chamam Zé Azul.Sou o Zé Azul do Rio de Janeiro.
  Sobrevivo desde então, comendo sobras que me dão. Durmo nas marquises, nas praças, nas praias e onde me for conveniente. Não cobro nada da vida e a vida nada me cobra também.
  Sofro demais com minha opção de viver por aí... Principalmente pelos meus iguais. Irmãos e irmãs de rua, cada um com sua resposta pra sua condição. E são tantas histórias, histórias de violência, doença, vícios e desistência.
  Não luto por mais nada, não quero nada além do próximo resto de comida como refeição.
 Sou só, caminho só, durmo só, choro só também. Não aceito dividir esta minha dor de existir. Ela é só minha e de mais ninguém.

  Passo os dias olhando as árvores que mudam de lugar todas as noites. Homens, mulheres e crianças que passam o dia nos parques e se recolhem a noite pra morrer um pouco.

  A Arlete morreu ontem. Arlete era uma andarilha com problemas mentais. Foi estuprada e morta por um bando de meninos que pararam um carro embaixo do viaduto em que ela dormia. Acho que ela nem sofreu muito. Nós que vivemos desta maneira aprendemos a morrer calados sem chamar a atenção.

  Passo meses sem pronunciar palavra alguma. Não tenho o que dizer, nem tenho quem me escute. Acho que não precisamos usar as palavras, usamos nossos olhos solitários.
 Tenho que confessar que morro de medo da noite. Ela me assusta, vejo fantasmas em todos os cantos. Quando durmo e consigo sonhar, vejo imagens de minha casa. Vejo sempre a casa vazia, não há ninguém nela. É vazia como meu coração.

   Não entendo como ainda nascem pessoas nas ruas todos os dias. E já nascem com várias idades, alguns até já nascem velhos e caquéticos. Outros tantos nascem bem vestidos, mas nascem todos mudos.
   Não tenho mais vontade de sair dessa condição. Me sinto livre, porém, me sinto só. É uma solidão sem fim, sem dor, sem sentido algum, apenas solidão. Nem triste, nem dolorida, apenas e tão somente solidão. Aprendi a me proteger da noite, dos fantasmas do passado, aprendi a me proteger de mim. 

   Meu coração joguei na fogueira, naquela noite de São João, junto com minha ira, meu ódio e minha emoção. Sou o Zé Azul, o Zé Azul do Rio de Janeiro. É assim que chamam nas ruas. Sou só, caminho só, durmo só. Os caminhos que percorro me ensinaram que não devo fazer escolhas. É só dizer sim e não. É só procurar a luz da lua nas ruas vazias do Leblon e ver o sol nascer por trás das pedras do Arpoador, e sempre antes de todos.

  Não sei por que motivos, passei em frente a casa no morro em que vivi.Meu pai estava sentado na porta, de cabeça baixa.Vi que chorava. Sei que não me reconheceria nessas roupas de sacos de lixo. Lá dentro da casa tenho certeza de ter ouvido alguém pronunciar meu nome. Ouvi alguém dizer: “- Lylian”.

Friday, February 18, 2011

Jorge e Célia

Tudo é tão estranho sem você aqui
Parece que foi ontem que desapareceu
As coisas ainda estão no mesmo lugar
No mesmo lugar em que você deixou
A roupa passada pra dançar
os pratos na mesa, lembrando o último jantar
No copo o vinho que sobrou
Nos lábios o gosto de um beijo seu
E nunca me senti assim tão só
E nunca me senti assim tão só
E nunca me senti tão só, assim...
O vento anuncia o temporal
As folhas caídas no quintal
As flores sentem dó de mim
Não sei mais o que fazer com essa dor
que não consigo esconder
Não acredito mais em dias de sol
e nem nas claras noites de luar
O teu jardim me faz acreditar
que o céu se esqueceu de mim
E nunca me senti assim tão só
E nunca me senti assim tão só
E nunca me senti tão só assim...
Me pego olhando pra você
Naquela foto de frente pro mar
E seu sorriso de cristal
me dá a certeza de que nunca há chance pro amor
Vou levar flores pra você
e também a garrafa com a carta
que encontramos na praia
Perdoe se eu nunca mais voltar
porque é sempre difícil perder alguém
É sempre difícil suportar uma dor sem fim
É sempre dolorido cuidar de um amor
De um único e grande amor que um dia o vento levou
E sempre vou viver assim tão só
E sempre vou viver assim tão só
Pra sempre vou viver tão só, assim...

Trecho da Peça Sombras no Jardim



Trecho da peça Sombras no Jardim

Foto:Ana Paula Silva(retirada da internet)

Recebi uma carta de uma velha amiga, me contando sobre seus dias no asilo em que mora.
Me conta que às vezes ri, confessa que às vezes chora.
Diz que sente saudades dos tempos idos, mas que não se arrepende dos amores vividos.
Revela sem pudor sua carência de carne, que ainda sonha com homens viris.
Que tem pena dos parentes que se sentem obrigados a visitá-la de vez em nunca.
Reclama que todos os seus ossos doem, porém, descobriu que sempre foi masoquista.
Fala das plantas do lugar em que vive, das palmeiras, das primaveras, que lhe fazem lembrar de uma velha mangueira no quintal de sua infância, que nas tardes de sol fazia sombras no jardim.
Afirma amar a solidão, companheira nos campos de batalha, conselheira nas noites insones.
Me garante que todos somos sós, sempre fomos e que sempre seremos. Que seremos sempre como uma velha mangueira, fazendo sombras no jardim de nossa de infância...

Friday, February 11, 2011

Clube do Coração Solitário


Como em quase todos os dias, acordei cedo, tomei banho , engoli um pedaço de pão e saí correndo. Já estava atrasada para o trabalho.
A distância de casa até minha loja não era assim tão grande, mas o trânsito era imprevisível.E eu me sentia péssima, não dormira bem, as constantes discussões com meu marido estavam me deixando cada dia mais deprimida. Depois de muitos anos de convivência, esta fase que estávamos passando parecia arrasadora e definitiva.
O trabalho na loja da família me distraía, as meninas que trabalhavam comigo haviam se tornado companheiras e a elas eu relatava meus sentimentos e angústias.E elas me ouviam, me deixavam chorar e me consolavam.
Sempre fui recatada.Sempre fui o retrato de uma mulher criada em um universo machista. Deixei a casa de papai para me casar...E por isso, talvez, o respeito excessivo, o medo de expressar minhas ideias, minhas dúvidas e a serviliência quase auto - escravizante.
Minha vida estava uma porcaria, minha vida se resumia em somente cuidar da loja, do “senhor” marido e de dois filhos adultos preguiçosos. Durante anos vivi assim. Até aquela quarta-feira...
O dia começara preguiçoso, eu estava como sempre cansada, triste, decepcionada com a vida, a família, os amigos...Eu queria mesmo era morrer.
Claudia, uma de minhas funcionárias me trouxe um café forte e disse que era pra me ajudar a encarar mais um dia. Me aconselhou a procurar novas amizades,mesmo que fossem virtuais,me incentivou a entrar em salas de bate-papo para pessoas maduras.Hesitei no início, relutei e por fim tive coragem.
Digitei um apelido e entrei na sala.Fiquei observando e lendo as “conversas”. Não queria páginas com conteúdo pornográfico, por isso precisava sondar o território.Fui ficando ali, achava engraçado algumas perguntas, as frases feitas, as paixões instantâneas que as pessoas expressavam...E gostei...
Um apelido me chamou atenção, CCS, quase todas as mulheres na sala “conversavam” com ele, eu não sabia o que ele respondia. Então lhe enviei um tímido olá!
A resposta veio demorada, porém carregada de educação e gentileza, ele perguntou de onde eu teclava, me “disse” coisas bonitas, me senti feliz.Teclamos por um longo tempo, ele se despediu e prometeu “voltar” mais tarde.Voltei ao meu trabalho.
No final da tarde, novamente entrei na sala, lá estava ele, eu disse boa tarde, ele me respondeu com letras maiúsculas um outro boa tarde.Teclamos, ele falou sobre sua vida, falei da minha (escondendo muito do que vivia realmente), ele parecia ser confiável.Gostei de sua conversa, da maneira que ele via o mundo, de como entendia as pessoas, de como respeitava as ideias alheias e da solidariedade que parecia lhe ser inerente.
Foi com certa melancolia que me despedi de meu novo amigo aquela tarde.Tive vontade de acelerar o tempo, amanhã estava muito longe...
Mais um dia de trabalho, nem bem arrumei minhas coisas rotineiras, sentei na frente do computador e lá estava ele.Não tive coragem de lhe confessar que sonhara com aquele apelido, que eu havia passado a noite em claro contando as horas para o dia clarear.Tudo que ele havia dito sobre relacionamento, solidão...Era como se já me conhecesse...
Passamos o dia teclando, ele me convidou para usarmos o "Messenger", fiquei um pouco receosa, assim mesmo aceitei o convite.Não havia uma foto, no lugar apenas um avatar com três letras.CCS.Passamos quase o dia inteiro teclando, até que ele me deu o número do seu telefone.Disse a ele que não poderia ligar, que eu era uma mulher casada, madura, com filhos, lhe dei todos os motivos possíveis para escapar daquela “armadilha”.Não consegui, a curiosidade, a vontade de conhecer a voz por trás do apelido, de ouvir o som daquelas palavras doces que ele escrevia me encorajaram e liguei.
Eu disse um alô inseguro e esperei a voz que viria do outro lado da linha.Tremi e transpirei, me senti com quinze anos, com o coração na boca.Curiosa e com medo.Medo do que estava sentindo naquele instante.Foi libertador...
Quinze dias depois da primeira ligação, já me sentia envolvida por aquele homem, já tínhamos nos visto pela web cam.Parecia inacreditável, ele já era parte da minha vida.
Ele queria me conhecer de forma real, me falou que queria me dizer olhando nos olhos tudo que dizia na vida virtual.Eu relutava, morria de medo de que me vissem em companhia de um completo desconhecido, mas as meninas me incentivaram, e marcamos um encontro.
Ele me esperava na rua paralela a estação, encostei o carro, buzinei, minhas pernas tremiam, eu podia ouvira as batidas do meu coração.Ele veio se aproximando devagar, colocou a cabeça pra dentro do carro e me beijou.Um beijo longo que me fez estremecer e esquecer minha condição de esposa fiel e mãe presente.Abri a porta do carro ele entrou, rodamos por algumas ruas e sem consultá-lo entrei em um motel.Ele não pareceu surpreso, apenas me perguntou se eu tinha certeza se queria realmente fazer aquilo. Respondi que lá dentro decidiria.
Entramos no quarto, ele sentou-se na cama e me olhava, eu permaneci em pé olhando dentro dos seus olhos.Abri os botões de minha blusa e coloquei sua mão sobre meio seio, lhe pedi pra sentir meu coração, ele sorriu e me acariciou.Seu toque me fez jogar fora todos os tabus que me privaram a vida inteira de ser mulher e humana. Seu toque me fez jogar fora todos os meus conceitos judaico-cristãos, de família, igreja e moral.Eu queria era ser amada, precisava me sentir mulher, amante, traidora, dominadora.Dona do meu mundo.Nos amamos sem medo do pecado e sem medo do inferno...
Na esquina em frente à estação ele desceu do carro, me beijou e partiu.Perguntei se nos veríamos de novo e ele disse que não.
Demorei um tempo pra entender sua afirmação.Primeiro me senti desprezada, achando que ele não gostou de ter feito amor comigo. Somente tempos depois pude perceber que ele me amou de verdade. Uma única vez, mas foi pra sempre.
Tive coragem e contei para meu marido e meus filhos, lhes falei que queria ir embora, que iria viver só.Meu marido mesmo sabendo de tudo, me permitiu ficar em casa, dizendo que eu não precisaria sair. No fundo, no fundo ele não me condenou.
No dia do nascimento do meu primeiro neto, meu marido me convidou pra tomar um drink, que fossemos comemorar.Há tempos não tinha bebido tanto, eu estava radiante e feliz de verdade, meu marido segurou minhas mãos e disse que nunca havia me visto tão linda.Falei que ele estava sendo gentil, ele disse que não,que era verdadeiro o que estava dizendo.Ele se ajoelhou e disse que ainda me amava.Fiquei emocionada e percebi que nunca havia deixado de amá-lo também.
Eu e meu marido estamos nos conhecendo novamente, descobrindo novos lugares e nos permitindo mais.
Nunca mais entrei em salas de bate- papo,ainda lembro do homem a quem amei eternamente por uma única vez. Sei que errei ao me envolver.O que me conforta é ter a certeza que ele mudou minha vida.Apaguei o CCS do meu computador, não faço mais parte do Clube do Coração Solitário.
Meu nome é Rita de Cássia e quero morrer de amor...

Tuesday, January 11, 2011

The Motor “Music” Home - A Lendária Nave da Música


Foto:Internet

   A Estrada do M´boy Mirim estava alagada,havia caído um temporal dos infernos.Sofás ainda boiavam nas calçadas, o trânsito estava completamente parado. Buzinas, calor insuportável.
Apenas mais um fim de semana de verão em São Paulo.
   Com muita paciência, consegui levar o velho Fuscão até o Jardim Ângela. Entrei na Rua da Gaita de Foles e parei na esquina da Rua dos Clarins.
   A chuva não parava, o carro também não funcionava mais. A bateria tinha arriado, não havia mais condições de sair dali sem um mecânico. Reclinei o banco e coloquei uma fita pra rodar, encontrei a caixa de latas de cerveja. Fechei os olhos e acompanhei o ritmo da chuva com a música que saía dos alto-falantes. E por ali fiquei.
    Alguma coisa me fez abrir os olhos. Vi um grande veiculo estacionado na Rua do Fonógrafo, na esquina com a Rua das Flautas Transversais.Era o veículo mais “diferente” que vi na vida. Uma mistura de tudo o que a mente humana já havia projetado.Era uma parte submarino, parte navio, parte trem e outra parte, um ônibus gigante.
    Lembrei-me que certa vez um cara que bebeu comigo num boteco, lá no Parque do Lago, me falou sobre tal “nave”. Com todo respeito, ouvi sua história. E claro, não acreditei.
Parecia estranho, de repente o céu estava estrelado como nunca antes eu havia reparado.
   O estranho veículo estacionado, bem ali. Fiquei encantado! Uma força desconhecida me puxava em sua direção, era irresistível tamanha beleza.
Abri a porta do velho Fusca e caminhei em direção ao veículo. Meus olhos incrédulos buscavam os detalhes, era tudo muito perfeito.
   As dezenas de rodas eram douradas, os pneus tinham faixas prateadas, em todo o redor da estranha “nave” havia sacadas, como nas velhas “jardineiras”, que décadas atrás cruzavam a cidade.
   Fui me aproximando, entre curioso e cauteloso.Uma pequena porta se abriu, um senhor desceu lentamente segurando nos corrimões dourados.Ele veio em minha direção, sorrindo, acenando e já me convidando a embarcar na nave.Ele não pronunciou nada, mesmo assim entendi e aceitei o convite.Subi a pequena escada e entrei na mais incrível experiência de minha vida.
   A entrada pequena não demonstrava a exata medida daquele veículo espetacular, tudo era enorme e bonito, a decoração era luxuosa, belos tapetes forravam o assoalho, grossas cortinas cobriam as janelas e a luzes coloridas iluminavam delicadamente todo o interior.
   Logo na primeira sala três rapazes tocavam um jazz, aqueles dos primórdios, com baixo, pianola, um saxofone, um banjo e uma bateria dixie.Me cumprimentaram com sorrisos e acenos com as cabeças,gentilmente retribuí os cumprimentos e prossegui corredor adentro.
   Na sala seguinte reconheci muitas pessoas que ali estavam. Nat e Pixinguinha conversavam animadamente. Frank e Tom faziam um dueto ao som do lustroso Steinway e a cada pausa bebericavam um gole de champagne. Todos pareciam felizes, percebi que se tratava de uma grande festa.
   Chegamos ao bar e lá estava ela, usando um vestido de veludo azul, colado ao corpo, com um decote de pecadora e exibindo curvas libidinosas.Fixei meus olhos em seus olhos, nunca a havia visto antes, mas senti que ela me reconheceu de algum lugar do passado.
   O velho senhor segurou a minha mão e colocou sobre a mão dela, indicou o corredor em frente e nos incentivou a prosseguir “nave” adentro.
   Não queria parar pra pensar no que estava acontecendo, foi somente uma cerveja que tomei lá fora... Me sentia leve, feliz e sonâmbulo, me senti dentro de um sonho,personagem de um filme dos anos vinte, ou trinta, ou sei lá... Sei que estava vivendo algo misterioso e que tive medo que fosse mesmo um sonho.E tive medo de acordar.
   Ela me conduzia pelos corredores, curioso eu observava as cabines. Em uma delas John gesticulava para Raul e ambos sorriam.Encostados nas paredes do corredor Vallens e Marilyn trocavam carícias ao som do blues que saía do velho violão Martin de Johnson.
   Na passagem de um “vagão” para o outro ela se agarrou em meu pescoço e me beijou demoradamente. A lua e a brisa da madrugada foram cúmplices da mais bela cena de amor que vivi.
   Achei graça quando adentrei um grande espaço, que mais parecia uma sala de estar, sentados frente à frente Bob, Tim e Brown, gargalhavam enquanto acendiam um rechonchudo “baseado”.
   Ela me levou para uma pequena e confortável cabine e me amou...Me amou... Me amou...
   Percebi que tudo parecia estar chegando ao fim, todos se dirigiam ao grande salão. Foi uma correria, todos queriam os melhores lugares. Afinal, era hora do grande show da noite. No palco principal, depois da apresentação de Enrico, Callas e Fitzgerald, era a vez dos Kings of Stars.Nada mais nada menos que a maior banda de todos os tempos. Juntos pela primeira e última vez, Hendrix na guitarra, Bonhan na bateria, Pastorius no baixo e nos vocais Mercury, Janis e Presley.
   Na plateia, Jackson, Curt, George, Marvin, Holliday e muitos outros faziam um sonoro, animadíssimo e afinado coro.Um outro espetáculo à parte...
   O sol do meio dia já batia em meu rosto, quando um garoto bateu no vidro do carro, gritava pedindo para que eu tirasse o velho Fuscão da frente da garagem de seu pai.
   Uma profunda decepção me atacou. Pigarreei, tossi, esfreguei os olhos e não reconhecia o lugar onde estivera estacionado a noite toda. A placa no poste me trouxe de volta, Rua dos Clarins.
    A “nave’ foi um doce sonho. O Motor” Music” Home era só uma lenda da qual ouvi falar lá no Bar do Bal. E já era hora de ir embora, tentar aproveitar o resto do domingo no churrasco lá no Guaracy.
   Liguei o Fuscão 77, enfim, ele “pegou”. Subi a Rua da Gaita de Foles e entrei na Estrada do M´Boy Mirim.As imagens não me saiam da memória. Juro que ainda podia sentir o perfume dela, um pouco do que ficou em minha camisa. Nos meus ouvidos ainda ecoava a música mágica das guitarras, dos oboés e das flautas.
   O semáforo fechou, procurei a caixa de latas de cerveja, um pedaço de tecido veio no lugar. Era um cachecol, o mesmo que Presley usara no show dos Kings.
   Olhei no retrovisor, alguém de vestido azul entrou num táxi, ainda pude ver seus lábios se juntando, formando um beijo. E era pra mim.
   Até hoje não consegui saber se sonhei ou se vivi aquela noite, aquela festa.O que sei é que a velha “nave” nunca mais saiu de mim.
   Dia desses no Largo Treze entrei em um bar pra comprar cigarros, reconheci o cara que bebeu comigo no Parque do Lago.Ele sorriu e me convidou para uma cerveja.Me contou muitas histórias e por fim me confessou...Era ele quem pilotava o Motor“Music” Home.

Wednesday, November 10, 2010

A Capa do Livro!

Em breve,mais um lançamento da coleção Selo Povo.