Marcos Tecora Teles

Marcos Tecora Teles

Wednesday, August 28, 2013

A Bolsa de Guardar Estrelas



A Bolsa de Guardar Estrelas

Existe um tempo em nossa infância que muitas coisas inexplicáveis acontecem com a gente. E no fundo, quem quer explicar?Apenas vivemos...e também, depois que crescemos nossa memória não consegue mais nos trazer as imagens da primeira infância.

Não me recordo muito bem. Nem quando,nem como. Sei que já fui pequenino.
Uma vez viajei para a casa dos meus avós ,no interior da Bahia. Passei alguns dias maravilhosos por lá. No dia da viagem de volta,minha avó Idalina me chamou lá nos fundos da casa e me deu de presente uma velha bolsa de couro.
Recebi aquele presente sem entender direito a utilidade de tal objeto.
Minha avó Idalina ,sorriu entendendo minha dúvida e inquietação e me disse com voz delicada:
- Essa é uma bolsa valiosa,ela é para guardar estrelas.
Fiquei ainda mais curioso e lhe perguntei:
-Como assim,vó? Pra guardar estrelas?
-Quando a noite estiver muito,muito estrelada fique de olhos bem arregalados,você vai poder ver as estrelas caírem do céu.
-Estrelas caem? Porquê vó?
-No céu nem sempre tem espaço para tantas estrelas. Elas crescem e vão empurrando umas às outras. As mais fraquinhas por não terem forças para se segurar,sempre se soltam. Por isso você tem que ficar atento,quando alguma cair,corra depressa,pegue-a com cuidado e coloque-a na bolsa. A bolsa não deixa que elas se apaguem.

Lembro que a noite era clara. E eram tantas as estrelas, que pareciam querer encobrir todo aquele céu. Lembrando das palavras de minha avó,fui lá dentro de casa e peguei a velha bolsa que eu havia deixado debaixo da cama.
Fixei os olhos lá no alto e uma luz veio descendo,descendo até cair no meio do taboal que existia em frente a minha casa. Corri como louco,peguei a pequena estrela e a coloquei rapidamente na bolsa.
Durante algum tempo,pegar e guardar estrelas era minha distração.
Logo a notícia se espalhou e pessoas de todos os cantos do mundo vinham até minha casa,somente pra ver as estrelas que eu guardava na velha bolsa.

O tempo passou muito rápido,eu cresci e guardar estrelas, era para crianças,não para rapazes. Mesmo assim,de vez em quando eu ia lá,abria a velha bolsa e olhava o brilho que vinha de dentro.
O tempo continuava passando rápido demais e, guardar estrelas era coisa para crianças,não para homens.
Um dia fui olhar a velha bolsa,lá não havia estrela alguma. Elas se apagaram e até a velha bolsa parecia ainda mais velha...parecia triste.

Quando crianças sempre temos algo para guardar alguma coisa.Alguns possuem um baú,uma caixa, ou mesmo uma velha bolsa para... guardar estrelas.
Quando crescemos,sem saber, ganhamos um pequeno vaso invisível,onde a gente guarda as lágrimas que choramos nos nossos dias mais tristes,mas também, o sorriso mais feliz que demos em nossa infância.

E hoje chegou uma notícia. De que uma garotinha na Palestina,possui uma velha bolsa... De guardar estrelas...

Monday, August 05, 2013

O Brasil é o País do Crime

O Brasil é o País do Crime!



Imagem internet


O crime é o maior empreendimento do Brasil.Não há neste país nenhum outro investimento tão lucrativo e seguro. Não há nenhuma fábrica de bens de consumo, nenhuma rede de venda a varejo, nenhuma empresa prestadora de serviços, de telecomunicações ou qualquer outra atividade lícita que dê tanto lucro quanto o crime. O crime é uma instituição genuinamente brasileira.Nenhuma outra nação conseguiu adotar de forma tão competente esta atividade.


Para começar a dissertar sobre este assunto terei que voltar lá nos primórdios, na época do descobrimento, quando Pedro Álvares Cabral aqui chegou, trazendo sua corja de genocidas e estupradores.

Depois de tomada a posse destas terras tropicais, a coroa portuguesa, temendo invasões estrangeiras, preocupou-se em povoar a nova colônia. Mas lá na corte eram poucos os que queriam aventurar-se na travessia do oceano atlântico, por não saberem o que os aguardavam em lugar tão distante e misterioso.Não restando alternativa, a aristocracia resolveu fazer acordos com a marginália de Portugal.Viriam para o Novo Mundo e aqui começariam nova vida.Muitos receberiam títulos e terras.O que seria absolutamente conveniente, pois resolveriam dois problemas ao mesmo tempo, se livrariam da escória e conseguiriam tomar posse de verdade das novas terras conquistadas.Os acordos foram feitos.E o Brasil começou assim...

Não vou me dar ao trabalho de relatar aqui o que já temos como registros históricos de pilhagem na época da colonização, pois quero entrar no assunto que é o título deste texto.


No Brasil sempre houve apenas duas classes sociais, ricos e pobres. A chamada “classe média” surgiria anos depois com a revolução industrial no País.

Os ricos sempre fizeram as leis e sempre tiveram nas mãos os rumos de nossa nação.As leis sempre foram feitas pelos ricos para uso próprio como forma de proteção, já que no início do século XX até meados dos anos 50, os que mais cometiam crimes no Brasil eram fazendeiros, grileiros, posseiros e proprietários de manufaturas.Eram eles que encomendavam assassinatos, por questões de terras, estupravam mulheres e expulsavam trabalhadores de pequenas cidades.Quando por algum descuido eram pegos pega lei, o poder financeiro os livrava facilmente de qualquer empecilho penal.
O (atual?) código penal brasileiro data de 1940.E foi feito sob medida para as classes dominantes.
Durante o correr dos anos, algumas leis foram incluídas, outras alteradas, modificadas, porém, o código continuou a ter seu uso dirigido à mesma camada da sociedade e hoje, por ironia, também favorece o crime organizado.

Indubitavelmente o crime dá lucro, todos ganham muito com ele, em todos os setores da sociedade.A violência gera empregos diretos e indiretos.Seja contratando criminosos ou aos que vivem em decorrência de delitos.Como advogados, juízes, policiais, empresas de segurança privada, empresas de acessórios eletrônicos, traficantes, ”aviões”, “mulas”, sequestradores, assassinos, sindicalistas, imprensa,

políticos, empresários, publicitários,fiscais de prefeituras e de todas as instâncias de fazenda pública,entre tantas outras atividades.

O Brasil foi planejado para o crime!

Sem o crime o país não cresce!
Acredito que pelo menos 70% da população brasileira já tenha cometido um delito, mesmo sem saber.Muitos de nós já corrompemos alguém ou fomos corrompidos.

De onde vem todo este mal? Podem dizer que sou radical, etc, mas vou afirmar com convicção.O Crime também e principalmente, nasce dentro na lei (lei?)!


A POLÍCIA


A polícia brasileira é assassina e cruel, a polícia brasileira é quem corrompe o sistema inteiro.

A polícia no Brasil tem poder demais, muito mais do que deveria ter!
Dê uma carteira e um revólver na mão de alguém despreparado e veja o que acontece. No mínimo, truculência e abuso de poder.A polícia no Brasil é quem fomenta o crime, é quem dá a certeza de impunidade.A polícia sempre teve um preço.Antes era paga pelos senhores de escravos. Hoje é paga para proteger os mesmos senhores, mas ao mesmo tempo, também recebe do crime.
Desarme a polícia e diminuirá a violência! Ou você acredita
que quem arma os bandidos são os cartéis da droga?
Sabemos que é impossível combater o crime com tamanha desfaçatez.
Como acreditar numa polícia que acha que tem o poder de abordar, prender, julgar e punir um cidadão em uma rua de uma periferia qualquer? Como acreditar em uma polícia que constitui sociedade com traficantes?
Como acreditar em uma polícia que transforma delegacias em balcões de negócios?
Como acreditar em uma polícia que usa carros do estado pra recolher moedas em caça-níqueis, dinheiro em bordéis e em casas de jogos? Isso é só pra dizer o mínimo!

OS PRESÍDIOS


As cadeias estão sempre lotadas, por quê será? Muitos criminosos? Também. Mas será mesmo apenas isso? E os lucros das cadeias? Com quem fica? Sim! Cadeia dá lucro! Ou você acredita mesmo que um preso possa custar 1.700 reais ao estado? Vamos fazer uma conta?

Os restaurantes do governo do Estado de São Paulo, subsidiam refeições vendidas nos restaurantes Bom Prato, cada refeição custa 1 real.Um preso se alimenta em média três vezes ao dia, então no final de trinta dias ele consumirá 90 reais em média dos cofres do estado, sem falar que presos não recebem material de higiene, como sabonetes, pasta de dentes, etc.
Então, como pode um preso custar 1700 reais aos cofres do estado? Você ainda tem dúvidas de que o crime é um grande negócio?
O Brasil tem pressa em formar criminosos!
Qual o verdadeiro motivo de tanto descaso com nossas crianças? Por quê tanta maldade com nossos adolescentes?
A verdade está aí, nua e crua.O crime é o maior empreendimento deste país.

Uma outra pergunta: Por quê será que não reformam o código penal?Será que é porque as perdas (financeiras) serão muito grandes?Por quê será?


MÁQUINA DE FABRICAR CRIMINOSOS


Na história da humanidade sempre houve o uso da mão-de-obra de prisioneiros.Presos políticos, presos de guerra e etc, que foram designados para trabalhos forçados.Os Estados Unidos e muitos países europeus usaram e ainda usam muito desta “força de trabalho”.

Como citei anteriormente o código penal brasileiro não obriga o preso a trabalhar.Claro, por causa do código “caduco”, feito para “barões”.Hoje em dia um preso que queira trabalhar,tem que pagar alguma coisa a alguém,já que um dia de trabalho lhe é debitado na pena .
Mas existe e sempre existiu um esquema para encher cadeias.Para muitas “autoridades” cadeia cheia é investimento,é bolso cheio.
Será que é tão difícil educar alguém? Como pode uma criança de 10 anos se transformar em um assassino cruel?Eu tenho a resposta.
A antiga Febem (hoje Fundação Casa), sempre foi uma máquina de fabricar criminosos. Durante o regime militar (onde tudo começou), menores infratores ou não, eram literalmente “jogados” nessas casas de correção.Mas nunca houve intenção de corrigir ninguém, o que sempre houve foi coação, violência, abuso sexual e outras humilhações.Ao invés de reeducar os futuros cidadãos, criavam e continuam criando exércitos de psicopatas.
Tenho muitos amigos que passaram pela Febem, muitos sobreviveram e hoje levam uma vida pacata, com família e trabalho digno. Muitos outros, anos mais tarde, morreram em confronto com a polícia.Mas todos, todos entraram lá crianças. E eram crianças que ainda jogavam bola na rua, brincavam com bolinhas de gude, soltavam pipas.E muitos eram absolutamente inocentes.
As pessoas procuram a resposta para tanta violência e por incrível que pareça a resposta está na frente de todos.

Todos sabemos da condição desumana com que são tratados os encarcerados.

A cadeia pode ser humanizada.
Pode sim! Dê trabalho e escola aos presos. Cadeia tem quer boa! É isso mesmo!Cadeia tem que ser boa, com horário para o trabalho, com horário para o estudo, para o culto religioso, horário para as refeições, para o entretenimento e etc.
O preso tem que pagar sua pena sem benefício algum, tem que cumprir integralmente, porém, tem que ser preparado para voltar à sociedade.
O estado não precisa gastar um centavo na formação escolar e profissional de um preso. A cadeia é autossustentável. Para cada três dias de trabalho é abatido um dia de pena.Todos querem trabalhar, é lógico, quanto mais estudo e trabalho, mais próxima estará a liberdade.
O estado não quer educar os cidadãos livres, imagine se vão se dar ao trabalho de educar os encarcerados.
Como afirmei o custo na educação e formação dentro dos presídios não custará nada aos cofres públicos.As cadeias estão cheias de profissionais.Lá estão professores, médicos, advogados, engenheiros, e tantos outros profissionais.O trabalho não é moeda de troca com a liberdade? Então?
Claro!Um ensina o outro, um trabalha para o outro e todos trabalham de graça para o estado.Todo mundo sai ganhando, principalmente a sociedade que ao invés de receber de volta assassinos revoltados, receberá profissionais com anos de educação.
Como escrevi no início, o Brasil é o país do crime.Não parece que esse estado de coisas irá mudar tão cedo.Uma sociedade moldada na mentira e na corrupção levará décadas para se transformar.

Sei que não é possível acabar com o crime.Quase todo o sistema jurídico que conhecemos foi formulado com base no velho testamento.Muitas nações adotaram a religião como ponto de partida para suas leis, mas os livros sagrados apontam como maior benção o livre arbítrio.Todos somos livres para fazermos o que quisermos, o que é um paradoxo.


O crime nunca vai acabar, mas é possível transformar o criminoso. O problema é que no Brasil não se combate o crime de verdade, na fonte.

A verdade é que o crime sempre foi e sempre será a maior fonte de renda deste país!
O Brasil é o país do crime!

Sunday, August 04, 2013

Sangue nos Olhos

Sangue nos Olhos

Um trecho.

   O Opala reluzente surgiu rodando devagarinho na descida depois da curva, na rodovia Régis Bitencourt, divisa das cidades de São Lourenço e Itapecerica da Serra.


   Os policiais recebiam a confirmação pelo rádio de que era mesmo esse veículo,um Opala 4.1 S, preto,placas AL 1018 de São Paulo.

  Acabara de ser  montado o bloqueio policial,várias viaturas e alguns caminhões fechavam os dois lados da estrada,os soldados estavam de prontidão,preparados para parar o veículo que parecia vir aumentando a velocidade a cada palmo de chão.
  
   O Opala começou a ganhar um pouco mais de velocidade e os primeiro tiros de advertência foram disparados,o veículo não parava.

   Os tiros já partiam em direção ao veículo e ele só rodava mais e mais depressa...Até se chocar em um dos caminhões que fechavam a rodovia.

   Os policiais se aproximaram e dispararam vários tiros,quebrando os pára brisas do carro.
   Um oficial aproximou-se lentamente do carro,empunhava uma pistola e gritava para que o ocupante saísse com as mãos na cabeça.

   Longos e tensos minutos passaram-se,nem uma movimentação ou barulho vinha de dentro do Opala,apenas o fogo que começou a se alastrar pelo interior do carro.
   Outros policiais juntaram-se ao oficial,abriram as portas do carro e lá dentro só havia as ferragens do que sobrara de uma cadeira de rodas...
 

Wednesday, June 12, 2013

Movimento Passe Livre

Movimento Passe Livre

Talvez eu esteja indo na contra-mão da história,mas tenho minhas convicções e algumas certezas sobre algumas coisas nas quais acredito.
Sou a favor do Movimento Passe Livre!
Acho justa e pertinente as manifestações que a juventude está fazendo em São Paulo.
Acho que o movimento tem que se expandir,exigir outras coisas também,não só a redução dos preços das passagens.
Muitos dizem que a passagem não é tão cara,que foi reajustada abaixo dos índices de inflação,pode ser,mas a qualidade é uma vergonha. Outra coisa,dizem que não pode ser gratuita,como não? O idoso já esta isento de pagar passagem,porquê não isentar os estudantes, eles já pagam metade. Investir no estudante não é investir no futuro da nação?
Se é possível dar isenções para clubes de futebol,instituições sem fins lucrativos,estádios de futebol,partidos políticos,etc. Será tão oneroso o investimento em educação,em forma de custear o transporte de quem estuda?
Sou a favor do Movimento Passe livre,que também deveria colocar outros assuntos importantes na pauta de reivindicações,como;o fim da obrigatoriedade do voto, mais rigor da lei contra a corrupção,um plano imediato de reformulação do ensino,a diminuição dos gastos com 'parasitas' no serviço público,a entrega do patrimônio público para empresários e empreiteiras,a diminuição da carga tributária,entre outros tantos problemas que nos impedem de viver em paz.
Não aceito a violência gratuita como forma de manifestação,e tenho certeza que as ações de vandalismo que estão ocorrendo não são de pessoas do movimento e sim de aproveitadores,”políticos profissionais”, infiltrados,querendo tirar proveito eleitoreiro.
Acho oportunas as manifestações,já passou da hora de gritar,de cobrar com energia os poderes estabelecidos constitucionalmente que são mantidos pelo suor das pessoas desta nação.
Sou a favor do Movimento Passe Livre,sou a favor do Movimento Brasil Livre!

Marcos Teles


Friday, June 07, 2013

A Noite e os Anjos






Essa  música da Banda Tecora  será umas das que estarão no álbum de estreia de Esther Ribeiro.

Quando a noite acabar
Me conta o que viu na rua
Tira o horror do olhar
Põe minha saliva na tua

Fala do andarilho gelado
Do fantasma na casa ao lado
Fala da força do vento
Mostra o palácio sem telhado
E o sangue escuro no calçamento

O mundo se acabando e eu cantando
Alguém está matando os nossos anjos


Pode olhar pela janela
Mais mil corações despedeçados
Olha a fúria de um menino bandido
Não confie na justiça que mata
Por que ela nunca está errada


O mundo se acabando e eu cantando
Alguém está matando os nossos anjos

O mundo se acabando e eu cantando
A droga está matando os nossos anjos

Colombiana



Um dia ele quis sair de casa
E se jogar de cara no mundo
Nunca pensou sofrer
Mas caiu num abismo profundo

Esculpiu planos,estratégias
A metrópole não o assustava
Com espada de madeira,era guerreiro
Como todo menino, sonhava

Mas chegou a hora de crescer
Hei! Juventude desesperada
Sem lágrimas pra chorar
Procurando tardes de domingo
Ou um poste pra se enforcar

A solidão o acompnaha
Seus companheiros de apartamento
São seus devaneios,seus sonhos
Mas seu espelho lhe obriga ver
Não é o homem que queria ser
Não é o homem que podia ser

Hoje tem amiga de solidão
Uma bruxa colombiana
Uma aranha que lhe prende à sua teia
Viaja,viaja ao centro do seu coração
Sempre se vê procurando uma veia
Com uma agulha presa a mão.

Rua das Lembranças


Já é mais um dia e aí venho eu de volta
Caminhando pelas ruas, as ruas da periferia
Pensando aqui comigo mesmo
Quantos sonhos, desejos impossíveis
E nos pontos de ônibus
Manadas humanas de cabeças baixas
Esperando o trem da vida passar

Sigo olhando os carros velhos, as mesmas pedras encostadas
Um trem que viaja solto e vazio
Vou olhando as veias expostas
As fraturas expostas e os sorrisos tristes
Desses guerreiros e guerreiras
Dessa gente que caminha procurando um rumo
Pelas ruas, sempre as mesmas ruas
Ruas empoeiradas da periferia

Na memória vou buscando os amigos
Todos os que partiram pra última viagem
Todos os que foram empurrados pros infernos
Os mesmos amigos que ouviam Dafé e Tim Maia
Que procuravam comigo os bailes nos sábados á noite
Sempre caminhando pelas ruas, ruas empoeiradas da periferia

Um anjo sem asas passa por mim
De olhos molhados, com lágrimas vermelhas
Expulso do paraíso, como tantos, como tantos
Também veio morar aqui, na rua das lembranças
Mata o tempo olhando os rostos marcados de minha gente
Dessa gente que sonha e caminha
Dessa gente que sonha e caminha
Pelas ruas, sempre as mesmas ruas, ruas empoeiradas da periferia.

Friday, May 31, 2013

Contos Quase Infantis - A Moça Mais Bonita e o Dia Em Que Fui Herói



Quando adolescente, fui trabalhar no Itaim-Bibi,na fábrica de sapatos de um parente. Eu ainda era praticamente uma criança, e claro,muitas coisas eu ainda não entendia.
Ao lado da fábrica havia dentre outras coisas, uma oficina de chaveiro,uma oficina mecânica,um estúdio fotográfico e uma lanchonete.
Todos os dias ao cair da tarde,reuniam-se ali na lanchonete, praticamente todos os homens daquele pedaço da Rua Bandeira Paulista. Formou-se ali um verdadeiro “Clube dos Cafajestes Tupiniquim”.Como não podia deixar de ser,os assuntos eram os mais variados,desde a final do campeonato até a última “beldade” na capa da revista Ele & Ela. Óbvio também, que nunca ficavam de fora os comentários sobre as mulheres que passavam por aquela parte da rua.
Sem perceber eu também passei a fazer parte do “clube”.Participava das conversas,bebia cerveja e até me arriscava em algumas “cantadas”.

Agora é que “ela” vai entrar na história

Ela passava todos os dias em frente a lanchonete,sempre no mesmo horário,levava uma criança para uma escola na Rua Pedroso Alvarenga. Ela trabalhava em uma casa de família na Rua Urussuí. Seu caminho era ir pela Rua Bandeira Paulista e voltar pela Rua Tabapuã.
Quando ela surgia carregando a criança pela mão,era o momento de maior “tensão” no “clube”.
Ela era linda,o sonho de todos os marmanjos que se reuniam na lanchonete do Zé Pinto. Quando ela passava,dirigiam-lhe todo um dicionário de elogios,pediam-lhe em casamento,assovios e outras tantas coisas que nem posso citar neste texto. Quase todos os dias a cena se repetia.
Ela seguia impassível,sabia do poder de encantamento que exercia sobre aquela turba de “desocupados”.Não esboçava reação alguma,nenhum gesto,um mínimo sinal de sorriso,caminhava altiva e serena,impávida e colossal.
Depois que ela passava seguiam-se os comentários;alguns diziam que ela já estava “no papo”,que era questão de dias para conquistá-la,outros faziam apostas apara ver quem a conquistaria primeiro.
Os dias,os meses seguiam e nada acontecia. Ela continuava passando,o “clube “ se alvoroçava e ela desaparecia na esquina. Novamente comentários e apostas.

Da queda ao heroísmo

Eu estava lá, sozinho na porta da fábrica,sozinho na rua,pronto para ir embora quando de repente, ela surgiu na esquina. Meu coração quase escapou boca afora. Ela vinha se aproximando,como numa cena de filme romântico,parecia caminhar em câmera lenta. Quando passou por mim tive coragem e mandei um Psiu!.Ela caminhou alguns passos ,virou-se e voltou em minha direção. Daquela boca sensual soou a pergunta que me jogaria no fogo do inferno da vergonha:
- O quê você quer comigo menino?
Fiquei mudo,sem saber o que responder. Como não havia pensado no que dizer depois do psiu,balbuciei tremulamente:
-Nada não...
-Tudo bem.
Ela falou e se foi.

Como diria Mark Twain ;as cortinas da vergonha caíram sobre essa cena...
Para minha sorte, não havia testemunhas para essa fracassada e imbecil tentativa de conquista.

A partir deste dia passei a me esconder dela,quando era a hora dela passar,eu corria para os fundos da fábrica e inventava algo para fazer.
Essa estratégia em esconder minha vergonha não durou muito tempo. Numa tarde de novembro,sem que eu sequer imaginasse,os agentes do destino conspiravam para minha redenção. Ela surgiu radiante,vestia uma minissaia branca,tinha os cabelos molhados e parecia desfilar.
Aquela hora o"clube” estava mais cheio do que nunca,havia mais membros,até o delegado estava lá.
Tentei me refugiar,não deu tempo,ela sorriu e parecia olhar para mim. Ela passou pelo “Clube dos Cafajestes”,aproximou-se de mim e surpreendentemente lascou um beijo em minha face rubra. Ela sorriu e falou:
-Oi menino bonito.
Fiquei estático,como um objeto inanimado e olhando pra ela indo embora...

Depois que ela se foi,todos correram em minha direção. Muitos gritavam vivas, outros já preparavam os rojões, alguns já pensavam em chamar os bombeiros para um desfile em carro aberto.
E assim me tornei o herói do “clube”.


Ah! Ela? Não a vi mais. Soube através de pessoas da Favela da Funchal, que ela engatou um tórrido romance com o japonês do estúdio fotográfico. Mas ainda guardo uma lembrança,uma foto dela em cenas picantes numa página de uma revista erótica.

Sunday, May 12, 2013

Trecho da peça Sombras no Jardim.



Trecho da peça  Sombras no Jardim

CENA 6

Locutor - Este programa tem o oferecimento do bar planeta saudade, o lugar onde você põe sua alma e seu coração em um copo.

Locutor - E agora vamos falar com a última ouvinte da noite.Será que ainda tem alguém na linha?

Toca o telefone

Locutor - Boa noite princesa!

Rosa Pequena - Alô?

Locutor - Alô princesa!Você está aí?

Rosa Pequena – Alô? Senhor Solidão?

Locutor - Sim princesa! Estou te ouvindo, qual o teu apelido?

Rosa Pequena - Rosa Pequena!

Locutor - Que delicadeza... Rosa Pequena... Que belo!
Você fala de que lugar pequena flor?

Rosa Pequena- Jardim Ângela, São Paulo.

Locutor - Conheço o Jardim Ângela. Tenho alguns amigos que moram aí.
Tudo bem com você Rosa Pequena?
Rosa Pequena -Vou indo.

Locutor - Você está com a voz triste. Está com sono?

Rosa Pequena – Não, estou cansada.

Locutor - E porquê está acordada até essa hora?

Rosa Pequena - Estou te ouvindo desde o começo do programa.E também não consigo dormir cedo.Aliás, faz tempo que não durmo direito Senhor Solidão.

Locutor - O que houve princesa? Me conte o motivo de tanta solidão.

Rosa Pequena - É uma longa história Senhor Solidão.

Locutor-Não tem problema. Me conte. Quero conhecer tua alma de flor.

Rosa Pequena - Eu sou solitária e viúva desde que me casei.

Locutor –Também foi viúva de marido vivo?

Rosa Pequena –Sim. Isso e mais um pouco.

Locutor – O que aconteceu? Passou um oceano em sua vida?
Rosa Pequena - Um terremoto.

Locutor - Me fale.

Rosa Pequena - Quando conheci meu marido éramos dois jovens.Nos encontrávamos nos bailes de fins de semana. Daí começamos a namorar. Inexperiente como toda adolescente, logo engravidei. E pouco tempo depois nos casamos. Eu não o conhecia direito, foi complicado. Um dia á noite eu estava sentada na porta de meu barraco, a polícia chegou perguntando por ele.Eu disse que ele estava no trabalho e o policial me disse: “que trabalho que nada dona, seu marido é ladrão!”.

Locutor-Que tranco hein, princesa?

Rosa Pequena - Foi um golpe duro. Meu marido não apareceu em casa nesta noite.No outro dia cedo, um amigo dele veio me dizer que ele estava preso, que eu fosse visitá-lo por que a coisa era feia (chorando).

Locutor-Não chore princesa. Respire fundo.

Rosa Pequena - (soluçando) Quando cheguei a delegacia, o delegado me perguntou se eu era esposa dele eu confirmei.O delegado me disse que meu marido iria pegar no mínimo 30 anos de cadeia.Afirmou que mataram um casal de idosos e duas crianças numa chácara em Embú-Guaçu e que meu marido e seus comparsas eram suspeitos. Não tínhamos dinheiro para pagar advogado. Ele foi pra prisão.

Locutor-Que choque pequena rosa.Que choque.

Rosa pequena - Depois disso, minha vida virou um inferno.Eu era obrigada a visitá-lo numa colônia penal no interior, uma cidade longe, horas de viagem, muita humilhação, cansaço, solidão...

( PAUSA)

Locutor - Quer falar mais?

Rosa Pequena - Não vou atrapalhar?

Locutor-Claro que não linda rosa. Abra o coração.

Rosa Pequena - Meu marido ficou 15 anos preso. Conseguiu uma liberdade condicional há quatro meses. Fizemos muitos planos Senhor Solidão.Durante esses anos eu lutei só, criei meu filho, construí uma casa, e agora, mesmo com todos os defeitos meu homem estava em casa. Era um sonho.

Locutor - Você disse era, pequena rosa?

Rosa Pequena - Sim Senhor Solidão era. Ele nunca me amou, ele amava o crime. Há duas semanas foi morto fugindo da polícia depois de fazer um sequestro relâmpago.

( PAUSA)

Locutor - Coisas da vida linda rosa e eu não sei o que te dizer.
A única certeza que tenho é que você não é a única nem será a última a passar por isso. Sim, com certeza você sempre foi viúva. 
Mas nem sempre temos que aceitar as coisas como elas são. Ás vezes precisamos mudar o curso de nossa história, mudar de bairro, de cidade, mudar a cor dos cabelos. Precisamos procurar todos os meios pra enganarmos a solidão, ela nos acompanha, ela é uma sombra que nos segue pela vida afora.
 O que nós dois sabemos é que você agora é uma mulher livre, sem amarras e sem grades. Você também pagou por crimes não cometidos e é sua hora de viver. É sua hora de pegar seu pote de ouro no fim do arco-íris, para cada dia basta seu mal e seus dias de alegria estão chegando. E sei que você também sente isso.

Rosa Pequena  - Sim, é verdade. . .

Locutor - Agora entendo sua falta de sono. Não é medo da solidão, é a dúvida do que fazer com a sua liberdade.

Rosa Pequena - Acho que sim(sorrindo).

Locutor - Então, quando o dia clarear prometa a si mesma colocar seu melhor vestido, uma flor nos cabelos e sorrir para todos, uma rosa não é uma rosa se não se abrir e soltar seu perfume para o mundo.

( Rosa Pequena Sorri)

Locutor - Boa sorte linda Rosa Pequena do Jardim Ângela. Seja feliz você merece.

Rosa Pequena  – Boa noite Senhor Solidão, obrigada.

Locutor - Eu te agradeço por me mostrar seu coração linda flor.Um beijo.

Thursday, May 09, 2013

Funk Consciente!


Tenho recebido algumas críticas por ter participado de uma reunião para discutir a organização dos "pancadões" na cidade de  São Paulo.Quero deixar clara minha posição sobre essa questão.
O Funk (pancadão),queiram ou não queiram é uma expressão cultural como qualquer outra,tem seu estilo,sua moda,sua música e seu comportamento.Se não é cultura é contra-cultura.
Discutir a qualidade da música é outra coisa,gosto é gosto,cada um tem o direito de gostar do que quiser.
O que se tem debatido sobre os pancadões de rua é a falta de organização,o improviso,as letras das músicas e a falta de respeito com as comunidades. Além do barulho excessivo,o consumo de drogas e álcool por crianças e adolescentes,isso é um problema grave.
Os pancadões tem gerado conflitos e confrontos e isso está ficando perigoso e pode se chegar a uma situação insustentável.
As reuniões que estão acontecendo por toda cidade são para se chegar a um consenso sobre o que fazer.Não dá para proibir as pessoas de exercerem seus direitos de lazer e entretenimento,principalmente nas periferias onde o poder constituído tem  interesse menor em investir as verbas públicas.
A política existe para organizar a sociedade,resolver conflitos e atender as necessidades básicas das comunidades.
Não nutro a menor simpatia pelo Partido dos Trabalhadores,partido do atual prefeito da cidade de São Paulo,mas não sou hipócrita e leviano,entendo que a atitude do poder municipal em atentar para a questão dos pancadões e querer organizar os eventos na cidade é uma atitude responsável,porque vai evitar uma série de danos.
Acho que toda a sociedade precisa participar dessa discussão,é do interesse de todos.
Os adultos em sua maioria rejeitam os pancadões,mas todos se esquecem que a rebeldia é inerente a juventude.Quanto mais amaldiçoam o gênero funk,mais os jovens gritam.
Os pancadões precisam sair das ruas e dos alto-falantes dos carros,precisam ir para as praças,com horário para começar e terminar.Os pancadões precisam ser organizados,com anuência e presença dos poderes constituídos e com o consentimento das comunidades.
Gostando o não,os pancadões estão aí e temos que aprender a conviver com eles.

Monday, January 28, 2013

Tragédias Cotidianas


Tragédias Cotidianas
Foto: UOL

Minha amiga Rita Rodrigues me perguntou se eu não comentaria sobre o que aconteceu na casa de shows em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Eu disse a ela que não havia muito o que comentar. Pensei realmente em não escrever nada sobre o assunto. Estava esperando esgotar toda a exploração midiática e política do acidente.
Após refletir,decidi que não devo e não posso perder o direito de me indignar sobre mais uma tragédia.
A indignação começa quando as vidas perdidas já não importam,importam apenas as melhores imagens,os melhores ângulos,aquela imagem exclusiva. Me indigna também os comentaristas profissionais,com suas suposições e falastrices.
A indignação aumenta quando começam a apontar os culpados. O culpado é o músico,não poderia ter usado fogos de artifício no palco. A culpa não é do músico,a culpa é todos nós. Nós matamos os jovens na casa de shows. Nós acendemos o fósforo que matou um pouco de uma nova geração de brasileiros. Porque somos nós que fazemos as escolhas erradas,somos nós que não damos atenção à corrupção que destrói nossas vidas. Somos culpados porque não cobramos devidamente aqueles que nos representam. Somos culpados porque não amamos os nossos iguais. Somos culpados porque somos egoístas.
Nós matamos os jovens em Santa Maria,porque sabemos que a fiscalização nas prefeituras são apenas órgãos paralelos de arrecadação para políticos. Sabemos também que os donos da casa de shows , que só pensavam no lucro e certamente pagavam propina à alguém.
Somos todos culpados porque as tragédias não mais nos assombram,elas viram espetáculo.
E é sempre assim,depois da tragédia,vem a exploração da mídia,vem a comoção,vem o choro. Culpa-se o mais fraco. Inventam uma nova lei. E daí ,vamos dormir confortados e esperar a próxima tragédia. E as tragédias vêm sempre embaladas para presente.
Depois dos funerais,esvaziam-se as manchetes,vem o esquecimento.
Mas um coração de mãe vai sangrar todo dia,até o fim dos tempos.

Marcos Teles.

Saturday, January 26, 2013

HIP H´ÓPERA!




Foto:Internet




   Diziam que Santa era uma mulher perturbada. Contam que desde pequena sonhava com anjos e via fantasmas. Santa jurava que tudo era verdade. Que falava mesmo com seres invisíveis. Talvez fosse coisa de infância, o que seria perfeitamente normal. Mas Santa carregou isso à vida toda.
   Quando moça, nas festas, arrancava as roupas e dançava nua. Às vezes parecia mesmo receber alguma entidade. Falava coisas em língua desconhecida e afirmava prever o futuro.
    Diziam que Santa era louca.
   Santa tinha vida de princesa, vivia em uma ilha de conforto e tranquilidade. Nunca saía de casa sem a companhia do motorista da família. Estudou no melhor colégio da cidade, viajou para muitos países.
    Mas Santa era triste. Sabia-se que algo a incomodava. Santa tinha a alma machucada. Ela buscava respostas...
   Um dia se apaixonou e foi embora com seu amado. Nunca disse pra onde iria. Anos se passaram sem alguém saber de seu paradeiro. 

  


   Santa despertou com um homem segurando sua mão. Levantou-se lentamente e olhou ao redor, sabia que nunca estivera antes naquele lugar. Perguntou àquele homem:
  - Como cheguei até aqui? Onde estou?
  O homem sorriu e abriu os braços apontando às pessoas em uma festa.
   O homem ofereceu o braço para que Santa se apoiasse e foram caminhando em direção às pessoas.
   Juntaram-se a pequena multidão e as pessoas sorriam para Santa, tocavam em sua roupa, em seu cabelo, gostaram de sua presença ali. Ela se sentia bem, um pouco cansada, como se houvesse chegado de uma viagem. Sentia-se feliz, mesmo no meio de gente que nunca havia visto antes.
   Santa cantou, dançou e não bebeu nada. Já não se preocupava em saber porque estava ali.
   O dia amanheceu e não havia mais ninguém, a festa havia acabado. O homem permanecia ao seu lado. Sempre com um sorriso nos lábios, porém, calado.
   Muitas pessoas estavam saindo de suas humildes casas. E eram casas sem rebôco, sem pintura. O esgoto correia a céu aberto, as crianças correndo para irem à escola.Poucos homens apressados para irem ao trabalho e mulheres esbaforidas. Santa perguntou ao homem:
   - Quem são eles? E quem é você?
   E enfim, ela ouviu pela primeira vez a voz daquele homem:
   - Esse é o povo! E eu sou seu companheiro de viagem - respondeu o homem. - e esse povo é gente que trabalha duro, que quer trabalhar e nem sempre pode. Essa gente se levanta antes do sol nascer. Esse é o povo e estão por todos os cantos. Amontoados, esquecidos, humilhados, mas muitas vezes com o pouco que têm conseguem ser felizes. Porque a única coisa que podem repartir entre si é a alegria.
   - Como podem levar uma vida tão dura? E de qual viagem você está falando? Santa perguntou curiosa.
   O Homem calmamente respondeu:
   - Somos companheiros de viagem, de uma viagem que faremos por nossos diferentes mundos. Esse é meu mundo, um mundo que você não conhecia. Te apresento a realidade ,seja bem-vinda!

   Santa não entendeu nada do que o homem lhe disse. Estava vivendo mais um daqueles sonhos que lhe eram corriqueiros, pensou.
   Os dois de braços dados caminhavam por aquele lugar, Santa olhava com tristeza para as pessoas, eram tão pobres... Sentia sua alma doer novamente.
   Atravessaram ruas enlameadas, cruzavam com ratos e insetos no trajeto. Santa sentia o odor de podre que exalava da terra.
  O homem olhava detalhadamente o semblante de Santa cada vez que se deparavam com algo que a deprimia.
   Um menino com uma ferida no rosto se aproximou e pediu um trocado. Com certeza ela lhe daria se estivesse com sua bolsa.
   Eles continuavam a caminhar, o homem ia lhe apontado às coisas do lugar. Um carro velho anunciava a compra de ferro-velho ou trocava bateria de carro por maçã do amor. Outro carro anunciava as promoções de um super mercado.

  Mesmo com tantas dificuldades aquele lugar era cheio de vida e nada parecia familiar para ela.
  Ela se assustou quando viu alguns rapazes que corriam beco adentro. Atrás deles homens fardados vinham com revólveres nas mãos. De repente ouviram-se pancadas, gritos de dor e muitos tiros. Os corpos dos rapazes ficaram no chão, jorrando sangue...
   - Cena comum por aqui. - disse o homem à Santa.
   Santa e aquele homem sentaram-se. Santa chorou.

   Outros rapazes fumavam crack e maconha na escadaria que dava acesso para duas ruas. Tragavam e riam. Pessoas se aproximavam timidamente, deixavam algum dinheiro e levavam um pouco de droga, outros consumiam ali mesmo. Fumavam ou cheiravam, depois iam embora, mas em pouco tempo estavam de volta buscando mais.
   Santa e o homem apenas observavam. Levantaram-se novamente e continuaram a caminhar por ali.
   Santa quis gritar quando viu os funcionários de uma empresa de energia elétrica cortarem todos os fios que levavam luz àquele lugar. Os homens riam, gritavam grosserias para as mulheres que desesperadas pediam pelo amor de deus. Mulheres que diziam que tinham bebês em casa, que o pouco que havia na geladeira iria estragar.

   E assim corria o dia. Santa via bares cheios de homens saudáveis e ônibus lotados de mulheres preocupadas. Observava crianças que voltavam mais cedo da escola, por que não encontraram professor. Mães que voltavam do posto de saúde, com seus filhos nos braços, não havia médicos para lhes atender...
   - Que mundo é este?- perguntava Santa, aflita.
   - O mundo real. - respondia novamente o homem.
   - Não sabia que isso existia. -afirmava com remorso.
   -Você não tem culpa, sempre te esconderam isso. Pra te proteger talvez... Mas acredite, as pessoas se acostumam com o sofrimento. O maior problema são os que lucram com a dor dos outros. As pessoas falam de céu e de inferno, acham que os dois estão em lados opostos, mas não, eles estão lado a lado. Apenas um cordão de força invisível separa o céu do inferno. Você viveu esse tempo todo no céu, estas pessoas estão no inferno.
    O homem fez um silêncio e segurando Santa pela mão seguiu em frente.

   Santa e o homem continuavam a caminhada e ela se deparou com uma casa em que havia muitas crianças na porta. As crianças sorriram quando viram alguns jovens desembarcarem de um carro. Santa achou estranho, se reconheceu naqueles jovens, percebeu que eram gente de seu mundo.
   - O que eles fazem aqui?
  - Eles vêm doar um pouco do tempo e do amor que sentem pelas pessoas. Explicou o homem.
   - Então são todas boas pessoas?
   - Nem todos do seu mundo que vêm ajudar fazem por amor ou caridade. Muitos fazem por dor na consciência ou por lucro fácil.- respondeu ironicamente o homem.


   Caminharam o dia inteiro, Santa não sentia nem fome, nem sede, nada...
   Santa sentia vontade de saber por que o mundo era tão triste e desigual, porque pessoas viviam de forma tão diferentes. Sempre aprendera que havia apenas um Deus e que todos os seres eram seus filhos. Mas que Deus era este?Que separa as pessoas?Que Deus era este que permite que um homem humilhe o outro?

   A noite começava a cair e Santa fechou os olhos por um instante. Quando os abriu novamente se assustou. Estavam parados numa esquina de ruas sem saída. Ruas que não levavam à lugar algum.
   - Onde estamos agora?-perguntou assustada.
   - Podemos dizer que foi onde toda sua vida começou, aqui é onde fica o cordão que divide o céu e o inferno - disse-lhe o homem. - você se lembra de quando era criança?
   - Sim. Eu nunca fui feliz.
   - Eu sei. Sei que também sempre sofreu, mas nunca soube por que sentia tanta melancolia. Vou te contar - o homem colocou a mão sobre os ombros de Santa e continuou - você nunca entendeu por que sonhava com lugares e pessoas que nunca havia conhecido. Também nunca entendeu porque via o futuro, porque sabia quando as pessoas iriam morrer e quando as tragédias iriam acontecer. Você nunca entendeu porque te chamavam de louca. Você falava com os anjos, lembra? Você nunca entendeu sua vida, por isso estamos aqui.

   Santa ouviu calada e imagens foram tomando conta de sua mente. Agora ela estava vendo seu passado. Estava vendo Paris iluminada numa noite de sábado. Santa agora via as lojas cheias de casacos de pele em Milão. E eram muitas imagens e todas surgiam ao mesmo tempo. Uma confusão sem fim em seus pensamentos.
   De repente ela viu o homem, o mesmo homem que a acompanhava. Ele agora era uma criança e estava olhando pra ela sentada dentro do carro. Ela viu agora, que sua mãe fechou o vidro, quando o menino encostou pedindo uma esmola. Ela lembra das palavras de sua mãe: ”Sai daqui trombadinha”. Santa viu a cara faminta daquele menino, a cara que tem somente quem sente fome, a cara que só tem quem tem fome de justiça.E ela se lembrou do instante em que o menino levantou a camisa mostrando a barriga faminta, e o segurança de dentro do carro, acertou um tiro naquela criança. Um tiro tão covarde que até hoje continua ecoando em seu coração.

   Santa começava a juntar as coisas, agora ela sabia que sofria a dor do mundo. Sabia que poderia ter feito algo para transformar um pedaço do mundo. Santa não era louca, sofria por amar os homens.


   Santa olhou nos olhos do homem e falou:
   - Você é um anjo.
   -Você também é um anjo.
   - E como se vira anjo?
   - Quando a gente morre.
   - Então estou morta!Quando aconteceu?
   - No dia em que você sentiu tanta pena de si mesmo e se cortou com cacos de um vidro de colônia.

   Santa olhou ao redor. Não sorriu, não chorou, apenas olhou e perguntou ao seu companheiro de viagem:
   - E agora, pra onde iremos?
   - Por aí, vamos conhecer um mundo que pode ser de todos.
   - Esse mundo existe?
   -Você vai descobrir. Vamos!


                                                                       Fim